Alataj entrevista Luke Hess

Ter nascido na década de 1980 em Detroit certamente é um dos grandes privilégios musicais que um entusiasta da música eletrônica pode ter. Afortunado exatamente por tal combinação, Luke Hess não apenas viveu de pertinho o surgimento do techno nessa emblemática cidade americana, como também aproveitou para se aprofundar no real significado desse autêntico movimento.

Formado em matemática e engenharia, Luke é dono de uma visão diferenciada quanto ao dance floor, espaço onde frequências, tons e paisagens são colocados a prova. Desde 2003 ele contribui para o cenário underground com lançamentos de peso por selos como FXHE e Planet-e, ambos de Detroit. Seu primeiro álbum foi lançado pela Echocord em 2009 e mais tarde, em 2010, ele iniciou seu próprio label, chamado DeepLabs. Keep On, seu segundo full lenght, saiu em 2012 pela FXHE e se tornou um sucesso absoluto de crítica na mídia especializada.

Ao longo de sua carreira Hess passou a ser reconhecido como um artista perfeccionista em frente aos decks. A forma detalhada e hipnótica com que ele empurra seus sets para multidão o levaram a lugares notáveis como Tresor, Culture Box, Berghain, Unit, Fabric, Golden Pudel, Space e the Bunker. Sua estreia no Brasil está projetada para Dezembro, mas antes disso você pode conhecê-lo um pouco mais nesse bate-papo exclusivo capitaneado por Nuno Deconto:

Alataj: Oi Luke! Tudo bem? Onde você está agora? O que você tem feito recentemente?

E aí galera! Tudo bem em Detroit. A cidade está viva! Ultimamente, tenho ficado no estúdio escrevendo novas músicas para DeepLabs, Tresor, Dolly, Supercinema e alguns remixes para vários projetos. Só aceito projetos que vão ser lançados em vinil, pois sou um grande amante dos discos – isso permite que eu gerencie meus projetos e não fique sobrecarregado no estúdio.

Voltei recentemente de um tour pela Europa, onde toquei no Love Festival na Sérvia e Garbicz Festival na Polônia – ambos foram experiências maravilhosas. Em Detroit participei da festa Detroit Love do Carl Craig com Craig, Derrick May, Kyle Hall, Rick Wilhite e Andres (DJ Dez). Foi uma honra tocar ao lado de artistas tão talentosos.

Detroit e música eletrônica tem um laço eterno. Como a cidade influenciou a sua paixão pela música e sua jornada artística?

Crescer e viver em Detroit com certeza influenciou muito a minha música. Muitos músicos vivem e tocam em Detroit frequentemente, desde a música inspirada na Motown ao jazz, hip-hop, indie rock, techno, house, industrial e tudo mais. Há muitos eventos e sessions de estúdio acontecendo todo fim de semana, dentro e ao redor da cidade. É fácil encontrar músicos lendários, talentosos, inspiradores e jovens em qualquer fim de semana. Da mesma forma, tem acontecido uma cena consistente da música eletrônica underground em Detroit desde os anos 90, quando eu comecei a ir a festas em armazéns e colecionar discos. Sou grato por toda a minha oportunidade de estar próximo à alguns dos melhores artistas da música eletrônica do mundo.

Sabemos que você começou a escutar techno em festas underground em Detroit. Quais foram as melhores festas e quais DJs realmente te deixaram impressionado?

Algumas das melhores festas na metade/fim dos anos 90 foram em lugares como Packard, Chop Shop, Fire House, Under the Bridge, Warehouse e Theather. Todos esses espaços eram abandonados em áreas estranhas da cidade. O perigo aumentava a animação da noite para todos os envolvidos. Naquela época, Underground Resistance, promoters como Poor Boy, Syst3m e Richie Hawtin estavam fazendo festas históricas. Os DJs que me inspiraram na época foram Robert Hood, Mike Huckaby, Richie Hawtin, Buzz Goree, Dan Bell, e Will Webb.

Você é um dos artistas de dub e deep techno mais respeitados do mundo. Quando eu escutei a sua música pela primeira vez, identifiquei muita influência de Basic Channel. Quais artistas mais te influenciaram e te levaram a explorar esse som?

Eu tenho muitas influências do início do techno de Detroit, até ao trip hop, hip hop e dub. Gosto quando a música pode ser simples e tem muito espaço para respirar, mas também pode manter o seu foco e colocar você em uma espécie de zona. Não gosto de me colocar em uma caixa em volta de um gênero específico, mas acho que minha inspiração vem naturalmente nas minhas produções. Os artistas do techno que mais me influenciaram são definitivamente Robert Hood, Basic Channel e Jeff Mills. No entanto, existem muitas produções fora da dance music que influenciam o meu som e estou constantemente ouvindo novas músicas e fazendo gravações de campo para inspiração.

Não é todo mundo que faz parte do selo de Omar S, FXHE. Qual foi o papel dele na sua vida, como produtor e DJ?

Omar S é um bom amigo e mentor – ele é intransigente quando se trata de business na música eletrônica. Estar com ele me encorajou a permanecer fiel ao meu som e a começar meu próprio selo. Meu tempo no estúdio com ele Omar ajudou muito a desenvolver o meu som, permanecer fiel à minha visão e empurrar os limites do que é possível com a minha produção.

Sua biografia fala sobre o seu passado matemático. Como isso afeta sua abordagem na produção?

Minha formação é principalmente em Engenharia Elétrica e, por isso, tive que fazer muitos cursos de matemática. Eu não uso meu conhecimento em ciências e matemática nas minhas produções, além de ser um pouco meticuloso (ou obsessivo) quando se trata de mixagem. No entanto, modifiquei e construí pequenos sintetizadores, unidades de efeitos e baterias eletrônicas, que uso em algumas das minhas produções.

Já se passaram vários anos desde o seu maior sucesso, Light in the Dark. Quais projetos e desafios esperam por você nos próximos meses?

Meu primeiro álbum Light in the Dark saiu no selo Echocord de Copenhagen. Meu segundo álbum Keep On saiu no selo de Omar S, FXHE, de Detroit. Atualmente, estou trabalhando em meu terceiro álbum, mas não estou com pressa. Quero que este terceiro trabalho realmente reflita minha jornada enquanto discípulo, produtor e DJ. Será um reflexo do que Deus tem feito em minha vida. Também quero manter esse álbum muito clássico e inspirado. Sempre que escrevo música nos últimos anos, salvo as faixas especiais, que falam mais profundamente. É uma jornada espiritual com o próximo álbum, não uma corrida – espero lançá-lo em 2019. Nesse meio tempo, haverão muitos EPs e remixes. Gosto de ficar consistente com 1 ou 2 EPs e alguns remixes por ano. Para alguns, é pouco, mas para mim sempre mantém as coisas muito novas e animadoras no estúdio. Também tenho um emprego em tempo integral em Detroit, então sempre há um gerenciamento de tempo saudável.

Há uma certa distância entre o que você produz no estúdio e as músicas dos seus sets. Quais álbuns e artistas estão sempre no seu case?

O que quer que aconteça no estúdio é muito natural. Não gosto de ter muitas influências externas e quero que o som seja puro, experimental e seja o que aparecer sem pensar demais. Também espero que minhas produções resistam ao tempo e não soem como se elas se encaixassem em um determinado período ou época.

Meus DJ sets são um resumo de muitos tipos de música e gêneros os quais acredito que se encaixem para contar uma história. O tema central é sempre Detroit e a inspiração é sempre dos meus primeiros anos indo à festas em armazéns abandonados, cheios de caráter e emoção. É claro que primeiro escolho faixas que acredito que as pessoas vão querer perder o controle e dançar, mas a música que eu toco deve também levar as pessoas à lugares e deixá-las com um sentimento. Então tocar faixas famosas ou óbvias não é interessante para mim. Os DJs que mais me inspiram contam uma história e deixam lembranças duradouras. É isso que espero deixar: uma experiência em vez de apenas mais um DJ set.

O selo DeepLaps, que você fundou em 2010, tem aparecido nos charts de dub techno desde o primeiro release. De onde surgiu a ideia de abrir uma gravadora e quais são os planos para o futuro?

Eu estava interessado em começar minha própria gravadora de techno Detroit há muito tempo – desde que comecei a colecionar discos em 1998. No entanto, só aconteceu quando eu trabalhei com Omar S e realmente entendi a melhor maneira de gerenciar um label – também levei algum tempo para decidir a direção e abordagem do selo. DeepLaps é, principalmente, um lugar que eu posso lançar projetos profundamente pessoais, sem compromisso. Eu normalmente só lanço um disco por ano, então não tenho pressa. Acredito que lançarei músicas no Deep Laps enquanto viver – se Deus quiser – espero que vocês estejam comigo na jornada. Farei o meu melhor para lançar música de alta qualidade e inspirada em Detroit, que fará você dançar e sentir algo mais profundo.

Várias gerações de artistas verdadeiramente talentosos saem da sua cidade. Quem você vê emergindo em Detroit na nova onda de produtores?

Há muitos grandes artistas que continuam saindo de Detroit todos os anos e inspiram o mundo com seus sons. Não gosto muito de especular sobre quais artistas farão sucesso e depois continuarão lançando músicas de qualidade. Gostaria de sugerir uma viagem à Detroit para ficar por algumas semanas e explorar alguns dos locais aqui, então você pode ver por si só como a onda se parece.

A MÚSICA CONECTA.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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