Alataj entrevista Mary Yuzovskaya

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Mary Yuzovskaya pode ser um nome não tão popular aqui no Brasil, mas possui uma importância singular na Rússia, país onde ajudou a conduzir uma importante evolução junto ao cenário da música eletrônica underground. Seus sets em vinil garantiram a ela respeito e admiração de grandes nomes da cena e evidenciaram uma pesquisa realmente fora dos padrões. 

Desde 2017, Mary é residente da festa Under em Nova Iorque, projeto que tem oferecido a ela uma oportunidade interessante para tocar e principalmente se conectar a novos cenários. Também em 2017 ela fundou a Monday Off, gravadora que aumentou ainda mais sua autoridade junto a cena eletrônica. 

Em antecipação a nova compilação de sua gravadora (a ser lançada no dia 30 de setembro, próxima segunda), tivemos um bate-papo realmente interessante com esta proeminente artista: 

Alataj: Olá, Mary! Tudo bem? Obrigado por falar conosco. Confesso que os primórdios da cena eletrônica em Moscou são uma incógnita pra mim. Para você, como foi fazer parte de um movimento que transformou a cena da cidade em meados dos anos 2000?

Mary Yuzovskaya: Eu acho que é justo dizer que o movimento em Moscou começou no início dos anos 90, mas eu era criança, então não pude participar realmente. No final dos anos 90, eu ouvia rádio, que era focada em todos os tipos de música eletrônica, incluindo dance music, mas foi apenas no início de 2000, quando eu tinha idade suficiente para ir às raves, que tudo começou para mim. Em 2006, quando comecei a tocar em club, a cidade já estava transformada, havia muitos clubes e festivais acontecendo e o RAVEolution não estava mais no ar. 

Na verdade, eu senti como se estivesse testemunhando o contrário – no começo de 2007, parecia que a vida noturna em Moscou chegava a um tipo de crise. Havia muitos DJs, muitos bookings internacionais todo fim de semana (a ponto de o público das festas estarem esgotados e entediados), muita política, poucos locais. Perdi a maior parte da diversão, mas me diverti muito de 2002 a 2004. Pelo lado positivo, em meados dos anos 2000 (e antes, é claro), todo mundo em Moscou tocava apenas com vinil e os clubes só tinham toca-discos. Foi em 2008 que eu vi CDJs pela primeira vez em um club.

Desde 2017 você é parte do time de residentes da Under em NY. Em quais aspectos você acredita que a cidade ainda precisa evoluir na música eletrônica e onde exatamente está seu grande diferencial?

A principal qualidade, para mim, é o público. Adoro tocar em NY por causa das pessoas que participam das festas. Ouvintes muito apaixonados e atentos, ravers amigáveis, brilhantes, diversos e de mente aberta.

Em relação à evolução, é um assunto muito complicado, pois é incrivelmente difícil fazer uma festa ou administrar um club em Nova Iorque (ou nos EUA em geral). Há muitas leis que você deve obedecer, as quais dificultam a organização da festa – por exemplo, é proibido vender álcool depois das quatro da manhã em todos os lugares do Estado de Nova York, o que significa que os clubes simplesmente não podem passar das 5/6 da manhã, mesmo que o público queira dançar até o meio dia, o que dificulta ainda mais os after parties, etc,. 

Com isso em mente, não há uma resposta curta para sua pergunta. Sinto que os promoters e clubes da cidade estão tentando fazer o melhor possível e aproveitar ao máximo o que têm e o que NY tem a oferecer, e isso já é importante.

Você é um DJ reconhecida por grandes sets vinyl-only. Para você, o que há de mais especial no DJing dentro deste formato específico? Ainda hoje você busca tocar sets exclusivamente em vinil durante as turnês?

No DJing, colecionar discos é um ponto de partida para mim. É tudo sobre o relacionamento que você constrói com seus discos. Tenho certeza de que eles estão vivos e têm seus próprio humor e energia. Cada disco tem sua própria personalidade. Cada disco se comporta diferente em mãos diferentes. Cada disco guarda memórias de festas passadas. Tocar no som é algo que nenhuma outra mídia pode te oferecer (a menos que você esteja fazendo um live, mas essa é outra história). Primeiro de tudo, sou colecionadora de discos, depois disso, sou DJ. Duvido que algum dia eu mude para outro formato, sou vinyl-only até o fim.

2017 marcou o lançamento da sua gravadora Monday Off. Ter seu próprio selo mudou a forma como você enxerga a música enquanto bussiness?

Provavelmente não, pois antes de começar meu próprio selo, trabalhei em selos de outros artistas, além de trabalhar em uma loja de discos e também com distribuição de discos, então já sabia bem do que se tratava. Obviamente, nos últimos dois anos desde o nascimento do selo, aprendi muitas coisas novas, principalmente sobre o processo de fabricação e masterização, mas todas essas informações apenas confirmaram o que eu já sabia sobre o negócio da música.

Ao longo de sua carreira você teve o prazer de compartilhar a pista com outros grandes DJs, de diferentes origens e habilidades. Dito isso, poderia nos apontar quais são as características que você mais admira em um disck jockey?

Um DJ deve saber como ler o público, muitas vezes, ser rápido. Deve saber trabalhar com seu próprio material, ter um som reconhecível e distinto, trabalhar com diferentes sistemas de som, principalmente com os piores. Deve saber como programar o set enquanto improvisa, como construir um fluxo, ser tecnicamente qualificado, profissional e confiante. Eu, particularmente, admiro DJs com o estilo musical parecido com o meu, mas é uma questão de gosto.

No que diz respeito ao estúdio, quais são seus principais planos e projetos para o futuro?

Minha faixa Basia será lançada no meu selo Monday Off, dia 30 de setembro, como parte de uma compilação de vários artistas, que também apresentará faixas de meus amigos Craft, Michael Wolski e Soramimi. Você pode garantir a pré-venda aqui ou aguardar chegar às principais lojas de discos na primeira semana de outubro. Fora isso, minha música deve ver a luz além da minha gravadora esse ano, em breve mais informações sobre isso, fiquem ligados!

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

Para evitar todos os clichês e frases sobre os poderes de cura, resgate, conexão da música, direi que a música representa um campo de pesquisa e exploração que nunca acaba e se expande eternamente. E não há nada melhor que isso.

A música conecta.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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