Difícil imaginar o que se passa na cabeça de um artista com tamanho poder criativo como o holandês Patrice Bäumel. Residente do lendário Trouw, Bäumel é um nome que ajuda a manter viva e pulsante a rica cultura clubber de Amsterdam. DJ de sets densos, produtor de rara versatilidade e remixer de mão cheia, Patrice tem derrubado fronteiras e construído uma carreira de reputação internacional graças a sua consistência nos lançamentos.

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Seus últimos releases incluem remixes aclamados para nomes como Cubicolor, Max Cooper e Khen. Ainda por lançar esse ano, há o esperado EP Glutes, que sairá pela Afterlife (selo do duo Tale Of Us) e um remix para Sasha via Kompakt. No passado, Bäumel já trabalhou em excelentes versões para originais de Underworld, Dusky e Reich, além de vários EPs para série Speicher – também da Kompakt – sempre recriando a proposta original com muita personalidade. Aliás, tal adjetivo pode ser utilizado na tentativa de decifrar sua identidade musical. Segundo o próprio holandês, seu som é um “techno music for grown-ups”, algo com capacidade para satisfazer corpo e mente no dancefloor.

Ano passado, Bäumel veio ao Brasil para gigs no Warung e D-EDGE. Esse ano seu retorno já está confirmado, novamente em duas ocasiões especiais. No próximo fim de semana o artista holandês retorna ao templo e na semana seguinte, ele chega como um dos headliners para a primeira edição do DGTL São Paulo, festival de origem holandesa. Sem dúvidas, Bäumel é um dos artistas mais interessantes do momento e sua chegada ao país merece atenção. Em parceria como DGTL, apresentamos um bate-papo exclusivo com ele. Confira o resultado desse excelente encontro abaixo:

1 – Olá, Patrice! Muito obrigado por nos atender. Impossível começar nossa entrevista sem citar sua residência no lendário Trouw. Como isso contribuiu para o seu avanço como DJ? Quais são as suas melhores memórias sobre o club?

Ter a oportunidade de tocar para a mesma multidão, no mesmo local, várias vezes, me ajudou a encontrar minha identidade como DJ e me ensinou uma ou outra coisa sobre controle de pista e seleção. Ao mesmo tempo, me tornei amigo de pessoas de todo o mundo – staff, artistas, público, cabeças da indústria. O Trouw foi realmente gratificante em nível humano. Algumas das minhas melhores lembranças são desses finais de semanas especiais em torno do ADE, onde o clube ficava aberto por três dias sem parar e repleto de atmosfera. Também ver tantos novos e talentosos artistas locais emergindo através da club foi maravilhoso testemunhar. Foi um lugar que unificou a cena de Amsterdam.

2 – A gente percebe que você tem construído um estilo diferente em suas produções, difícil de ser rotulado, mas que flerta com uma atmosfera progressiva, coisas do passado e ao mesmo tempo, um ar futurista. De onde vem essa enxurrada de referências para o seus momentos de estúdio?

A maioria das escolhas que faço no estúdio são instintivas e subconscientes. Acontecem por si só, nunca forço. Não tento soar como outra pessoa, apenas rola com o fluxo de som que sai das minhas máquinas. Ter escutado música a minha vida inteira me da um grande conjunto de influências a extrair, mas ultimamente é tudo sobre a intuição.

3 – “Techno music for grown-ups”. Fale um pouco sobre essa definição que você criou para as suas produções.

Isso é simplesmente expressar o desejo de fazer música que satisfaça as pessoas que estão ouvindo techno por muitos anos. É uma multidão que não ficará satisfeita com truques e espetáculos baratos. Para alcança-los eu preciso continuar desenvolvendo e tentando abrir novos caminhos. Isso significa ir além de uma formula comprovada de sucesso, ser aventureiro e desafiador.

4 – Sobre sua relação com a Kompakt. Qual a importância da gravadora alemã na sua carreira internacional?

Eles são minha família, minha casa musical. São 100% confiáveis, pessoas decentes que são motivadas pelas razões certas. Há uma razão para eles estarem por duas décadas e já vi muitos labels na moda que vem e vão. Existe um compromisso com a qualidade e a melhoria contínua na Kompakt. Eu era um fã muito antes de me tornar um artista do label. Assinar com eles me deu uma carreira adequada na música.

5 – Seu remix para o Cubicolor é com certeza um dos grandes hits do momento e, acredito eu, o principal hit do verão brasileiro nas pistas. Fale um pouco sobre o processo criativo e a ideia que você teve para sua versão

Fiz o remix em um dia. A maior parte do sucesso dele é devido ao material original maravilhoso de trabalhar. Recebo uma tonelada de remixes e recuso a maioria deles, mas quando eu ouvi “Dead End Thrills” me lembrou de alguns dos melhores materiais que Depeche Mode escreveu. Esse remix se escreveu sozinho, todas as peças se encaixaram. Tudo que eu precisava fazer era traduzir o original em uma versão clubber.

6 – Ano passado você esteve no Brasil e agora seu retorno já está confirmado em 2017. Quais são suas expectativas para mais uma passagem por aqui? O que o público brasileiro pode oferecer de melhor a você?

Tento não criar expectativas, para apenas chegar com o coração e mente abertos. O Brasil tem uma cena bem informada, sempre me sinto 100% a vontade para fazer o que eu quiser. As gigs no Warung e DGTL Festival São Paulo são gigs de qualidade absoluta, adoro tocar em grandes pistas e vou soltar algumas bombas. Também gosto de passar um tempo com meus amigos brasileiros, tenho conversas interessantes a cada vez. Adoro o lugar.

7 – Sobre a cena no Brasil, o que você sabe a respeito? Há algum artista que você tem acompanhado recentemente?

Minha primeira apresentação a cena brasileira foi em 2002, quando eu estava em São Paulo para o Red Bull Music Academy. Foi incrível. Eu fiquei impressionado com alguns dos DJs. Vi Mau Mau no Lov.e, que foi um dos melhores sets que já vi na vida. Ouvir algum next-level, influenciado localmente Drum n Bass por Marky, Xerxes e Patife abriu minha mente para música completamente nova. Um dos destaques foi ir a um concerto de samba e ver duas escolas de samba competindo uma com a outra. Wow, tão intenso!

Artistas que estão no meu radar hoje são meus queridos amigos e colegas Davis e talvez mais do que ninguém o super-talentoso L_cio, amo sua mistura de flauta de jazz e música eletrônica. Brasil é provavelmente o país latino americano mais bem representado no cenário mundial, com Wehbba e ANNA fazendo ondas na cena techno e Renato Ratier voando a bandeira D-EDGE ao redor do mundo, mas sinto que há muito mais potencial que precisa ver a luz do dia.

8 – Para você, qual a grande razão da música na vida humana?

Música é tudo sobre conectar seres humanos uns com os outros. É uma linguagem que todos nós compreendemos instintivamente, mas o principal objetivo está em nos reunir todos juntos. Essa é também minha missão de vida.

9 – Se o último DJ set da sua vida você amanhã, qual seria o lugar escolhido e o companheiro para um posível b2b?

Um set de 12 horas com meu grande amigo e parceiro preferido para b2b Nuno dos Santos, no Burning Man ou Rainbow Serpent Festival.

10 – Para encerrar, fale sobre seu próximo lançamento na Afterlife e como isso exatamente deve acontecer

Kompakt tem tantos artistas para tomar conta que há realmente espaço limitado para cada um de nós lançar todos os anos. Então comecei a procurar outra casa para minha música, algum lugar que me ajudaria a conectar com uma nova cena. Os caras do Tale of Us já estavam apoiando minha música em seus sets e eu gosto da direção que eles estão tomando com a marca Afterlife. Mandei para Matteo uma faixa nova – “Glutes”, e nós queríamos originalmente coloca-la na nova compilação da Afterlife, mas decidimos que seria ainda melhor criar um single. Foi um caso clássico de enviar uma demo. Todo o processo foi suave e maravilhoso, estive de volta no estúdio com Tale of Us, trabalhando em um novo material.

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A música conecta as pessoas!