Alataj entrevista Tijana T

Como é bom ver a presença cada vez mais intensa das mulheres no circuito internacional. Mesmo que tarde e de uma forma mais lenta do que deveria, o reconhecimento em torno do bom trabalho de DJs e produtoras está numa crescente. Ano passado, Nina Kraviz, Nastia, Charlotte de Witte, Amelie Lens, ANNA e Tijana T foram alguns dos grandes destaques da indústria e nesse ano não está sendo diferente.

A sérvia Tijana T, pode até ser um nome menos comentado entre as demais aqui no Brasil, mas a consistência de sua carreira já ultrapassa fronteiras. Tijana se tornou uma espécie de embaixadora do que há de melhor na música eletrônica na região da Sérvia e hoje leva a bandeira do EXIT, festival gigantesco que rola no país, para o mundo todo. Além disso, cravou uma identidade própria na forma como discoteca, trazendo uma pesquisa musical profunda e precisa.

Seu debut no Brasil rola esse fim de semana. Ao lado de Julia Govor, Vril, Monoloc e rhr, ela comanda a primeira edição solo da Timetech, pista da Tribaltech 2017 e festa que marca o lançamento do projeto TT 2018. Antes disso, falamos com ela. Confira:

Alataj: Olá, Tijana! É um grande prazer falar com você. Temos muita curiosidade sobre a cena da dance music na Sérvia. O que você pode nos contar a respeito desse cenário? Quão madura a dance music está por lá atualmente?

O prazer é todo meu. A cena da dance music na Sérvia tem uma longa tradição, tudo começou já no final dos anos 80 e mesmo que o país estivesse em guerra e sanções durante os anos 90, a cena da dance, clubs e raves eram a forma mais viva de cultura. Foi uma forma de escapar da realidade, de se conectar com os outros e também uma forma de rebelião contra o que foi imposto à Sérvia naquela época. Costumávamos fazer parte de um país comunista/socialista progressista, a Iugoslávia, que tinha um sistema superior ao do bloco oriental e, de repente, a guerra começou e o país inteiro regrediu culturalmente. As pessoas que iam a festas queriam continuar pertencendo à cultura urbana atual da Europa. Haviam muitos DJs inspiradores naquela época e através de algumas estações de rádio independentes eles promoveram a música eletrônica. Nos últimos 20 anos, a cena se desenvolveu muito e temos uma série de festivais e Belgrado é um dos centros da vida noturna da Europa, com muitos clubs que abrangem todos os espectros da nossa cena. Do tech house comercial para o mais obscuro underground. Alguns dos meus DJs favoritos no mundo são meus amigos de Belgrado e eu desejo que num futuro próximo eles se tornem conhecidos internacionalmente.

Sobre sua participação no EXIT Festival. Como tem sido fazer parte desse projeto fundamental para o desenvolvimento da música eletrônica na região?

Exit foi a primeira boa notícia que saiu da Sérvia depois de 10 anos de isolamento. Foi inovador. Nós na Iugoslávia ou na Sérvia nunca tivemos um festival de música antes. Aquele foi o primeiro. Foi extremamente emocionante fazer parte desse projeto, ajudar e assistir a coisa toda se desenvolver. De um pequeno grupo de estudantes entusiastas, Exit tornou-se um dos maiores festivais da Europa. Tem 20 e poucos palcos e todos os estilos musicais, techno, pop, heavy metal, reggae, hip hop, house… tudo.

O engraçado é que, não importa por que eles vieram para o festival, no final todo mundo acaba em uma monumentalmente grande arena, um dos maiores palcos de DJ no mundo, que tem capacidade para 30 mil pessoas. Os DJs adoram tocar lá e sempre voltam. Comecei como jornalista, reportando e voltando à minha estação de TV com mais de 100 entrevistas por ano. Depois eu estava me apresentando para a Exit TV, depois programando um palco e agora eu sou “apenas” DJ. Eu conheci e entrevistei todos – Beastie Boys, Johnny Rotten, The Pet Shop Boys, Roisin Murphy, Sven Vath, Richie Hawtin, David Morales, Tricky, Underworld e vários outros artistas e DJs undergrounds. Estou muito feliz com meu progresso pessoal no Exit, de uma jovem jornalista entrevistando DJs e bandas para uma DJ headliner no mesmo grande palco lendário.

Em sua bio você confirma seu foco maior no techno neste momento, mas se diz preparada para encarar uma pista de house music também. Como cada um desses movimentos fazem parte da sua pesquisa musical hoje em dia?

Sinceramente, não percebo a música através de gêneros. Não me importo se é techno, house, electro, disco ou pop. Para mim, a maior empolgação do DJing é passar pelos gêneros e fazê-los funcionarem juntos. Às vezes as pessoas acham que eu toco techno, mas tenho truques o tempo inteiro e elas não fazem ideia se estão ouvindo Justin Timberlake, dub ou algum rock obscuro dos anos 80.

Panorama Bar, Space Ibiza, Robert Johnson e Razzmatazz são alguns dos clubs mais icônicos que você já se apresentou. Como essa experiência clubber de alto nível ajudou a formar seu perfil enquanto DJ?

Eu experimentei o mundo da música de todos os lados, de uma adolescente apaixonada religiosamente aprendendo e colecionando música, a uma jornalista musical e repórter, e depois a uma radialista, também fui promoter por um tempo e durante todo esse tempo sou fã de música e dançarina. Todas essas experiências me moldaram como pessoa e refletem no meu DJing também. É por isso que não posso me ater a um gênero, tenho muito mais para compartilhar. Acho que o que mais me moldou foi crescer em Belgrado, esse lugar tem uma história musical muito particular e muitos intelectuais da música. Eu jamais seria a mesma pessoa se crescesse ouvindo música em outro lugar.

Sobre sua experiência como vocalista: quais são suas melhores lembranças em torno desse período?

Foi muito frenético quando Abe Duque e eu fizemos nosso live act juntos. Todo fim de semana algo louco acontecia. Nós estávamos fazendo tour no modo hardcore. Com 40kg de equipamentos, apenas máquinas, sem laptops, todos os dias precisávamos conectar tudo, fazer com que funcionasse, criar magia e depois fazer as malas novamente e ir para o próximo show. Também tivemos muitos acidentes, por exemplo, uma vez todas as máquinas pararam e eu tive que cantar acapella. Eu não conseguia lembrar uma única palavra de qualquer música naquele momento. Então eu cantei um hit pop do meu país dos anos 80. Nós estávamos na Alemanha e eu estava cantando em sérvio. Ninguém conseguia entender uma palavra, mas todos gostaram e depois do show tivemos ótimos feedbacks. Nós fizemos um grande sucesso. Lembro de termos sido eleitos o melhor Live Act da temporada de 2006 em Ibiza. Tudo parece tão distante agora, como um sonho.

Finalmente você fará sua estreia no Brasil! O que você tem escutado sobre a cena daqui? Quais são suas expectativas para essa visita?

Pelo que ouvi, os brasileiros são muito apaixonados pela vida e pela música. Isso me deixa muito feliz, pois sou bastante intensa também. Acredito que estaremos no mesmo comprimento de onda. Além da festa, estou ansiosa para conferir a arquitetura.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

Música é tudo. Não consigo imaginar minha vida sem música.

A MÚSICA CONECTA. 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n’ Lights Management.

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