Alataj entrevista Tom Trago

Com a ajuda de Chico Cornejo Marllon Gauche

Strike again! Em 2017, às vésperas da primeira edição do Dekmantel São Paulo, entrevistávamos pela primeira vez Tom Trago. Naquele momento, Tom era um dos artistas que mais sonhávamos em ter um conteúdo no site e isso tudo ainda rolou com um mix exclusivo para o podcast da TroallyRelembre abaixo:

De lá pra cá muita água passou por baixo da ponte e alguns dos highlights desse proeminente produtor holandês incluem o lançamento de seu aclamado terceiro álbum de estúdio Bergen pelo selo do Dekmantel e presença constante em alguns dos principais festivais do planeta. Engana-se quem pensa que o álbum resultou em um hiato no estúdio. Mais ativo do que nunca, Tom ainda lançou três trabalhos desde então, incluindo dois EPs e um remix.

De volta ao Brasil, ele toca logo mais em Curitiba no aniversário da 5OfUs no Clube Inbox. Amanhã tem jornada dupl: primeiro em São Paulo, na Feira, e em Floria no True Festival – primeira vez de Trago em terras catarinenses. Por telefone, Chico Cornejo comandou o bate-papo com este talentoso DJ, produtor, label manager e agora pai de família:

Alataj: Olá, Tom! Muito obrigado por falar com a gente. Desde o lançamento de Bergen você não colaborou mais com a gravadora do Dekmantel e isso abriu espaço para novas parcerias em seu catálogo. Como tem sido esse novo momento da sua carreira? O que você pode nos contar a respeito?

Tom Trago: O momento atual tem sido de muita introspecção e de tempo com minha família. Eu saí de Amsterdam e me impus um regime muito mais estrito de produção que envolve um método muito mais simples de trabalho. Minha carreira como o rei da noite da cidade chegou a seu glorioso fim…

Neste instante, minha filha está dormindo profundamente num cantinho do estúdio enquanto conversamos e todos meus equipamentos cabem numa mesa, apenas o básico e o que realmente necessito. Foi para este ambiente que me mudei quando saí de Amsterdam e agora a maior parte do meu trabalho é feito durante o dia. Realmente a vibração é totalmente outra aqui no interior e isso se refletiu em diversos âmbitos da minha carreira e do meu som.

Considero você um produtor muito habilidoso em criar faixas que eu costumo chamar de hits side-b. É possível dizer que construir algo eficiente frente a um público mais amplo e ao mesmo tempo mais nichado é um de seus grandes trunfos?

Bom, acho que você está certo, mas eu procurei depurar essa minha fórmula ao máximo em busca de uma maior autonomia e espontaneidade. O processo é basicamente o mesmo, mas os elementos mudaram e, consequentemente, meu estúdio também. Você amadurece e acaba descobrindo o que realmente é essencial e eu me vi em meio a um monte de processos e pessoas que me afastavam do que eu desejava musicalmente. E também essas limitações acabam te motivando e desafiando a sempre se aprimorar.

Então pode-se dizer que os princípios básicos que criaram esse tipo de faixa agora estão mais explícitos. Hoje em dia eu realmente sinto o que estou fazendo, sem me distrair com detalhes cansativos. Eu chego e faço uma faixa, gravo uma versão de 40 minutos e depois edito para chegar a mais ou menos 5 de duração. Essa é a pegada do que vou lançar de agora em diante, sem muitas modificações ou interferências externas.

Ainda sobre a produção musical, quais são os principais desafios que você tem encontrado para se tornar mais produtivo no estúdio? Como é pra você organizar a agenda de criação em meio a turnês e compromissos como DJ?

Adotando um método de trabalho assim, tão centrado na improvisação, eu acabo deixando outros projetos para ocuparem meu tempo na estrada. E como tocar é algo que faço há mais tempo, depois de tantas gigs durante tantos anos, o que aprendi foi a ser muito adaptável.

Claro que me preparo minimamente e tenho minhas favoritas, mas o mais importante é contato com o público, a energia que surge ali entre nós. E, no fim, são eles que acabam escolhendo as faixas: os dançarinos, as pessoas na pista com quem me conecto.

Listas são um pouco clichê, mas também uma delícia. Você poderia citar pra gente três artistas que impressionaram você nos últimos meses e a razão pela qual fizeram isso?

É sempre difícil separar um ou outro quando tem tanta gente fazendo coisas tão legais, mas eu tenho de puxar a sardinha para a minha frigideira e dizer que o pessoal que lancei na Voyage Direct está sempre surpreendendo. Eu comecei o selo como uma plataforma para estimular justamente esse tipo de artista e eles sempre conseguem me impressionar, dentro ou fora do selo.

De uma maneira parecida, o Safetrip do Young Marco tem mantido uma consistência invejável, conseguindo lançar uma música melhor que a outra já por um bom tempo.

Sabemos que você adora cinema e filmes em geral. Como essa arte tem influenciado na música que você toca e produz?

Ah, isso está na raiz e tudo que faço, não tem como mudar essa influência e a paixão onde ela se origina. Eu sou bastante eclético e, se você me mostrar qualquer gênero musical, eu vou procurar conhecer melhor, para poder entender e, possivelmente, vou curtir.

O que eu mais amo muito a respeito de filmes são as trilhas, como elas criam climas e atmosferas que mexem com você enquanto assiste. E como músico, fico imaginando como deve ser fantástico compô-las, enveredando por caminhos mais abstratos, arriscando bem mais musicalmente para criar os temas…

Falando um pouco sobre sua nova turnê no Brasil… você tem boas lembranças das últimas passagens por aqui? Como é sua relação com o nosso país? Tem acompanhado algo da cena brasileira?

As pistas brasileiras estão entre as mais balançantes e vibrantes que já conheci por todas as minhas jornadas globais. E a uma diferença sem dúvida tem a ver com a criação de espaço para dançar e a habilidade de usá-lo com toda liberdade, algo me recorda muito da energia dos noventa na Europa. O ímpeto de aproveitar aquele espaço sem temor, de se expressar livremente, sem medo de olhares.

Isso sem falar naquele componente divino, ainda que tão corporal: aquele molejo, aquele swing que se desdobra pelos quadris e percorre todo o corpo. É muito especial.

Sabemos que há uma série de fatores que podem oferecer a pista perfeita. Pessoalmente, para o seu gosto, o que é essencial para que a conexão entre pista e DJ se construa de forma forte e verdadeira em uma noite?

Você toca de acordo com o local e o mais importante é estar no momento, onde você precisa se ajustar, se afinar com o ambiente. Isso que é muito interessante a respeito de tocar para outras pessoas. Como falei acima, esse vínculo que forjo com o público é muito único e me orienta através da noite.

Gosto de pensar que as pessoas praticamente escolhem por mim o que vou tocar. Eu apenas canalizo o desejo delas, então essa interação é essencial, entre eu e a pista e entre o corpo e a música.

Agora, nada melhor que um relato seu em torno do que está sendo planejado para os próximos meses. O que você pode nos contar? 

Meu projeto atual é bem pessoal e íntimo e envolve criar uma relação entre o que eu crio e os ouvintes o mais franca possível, então tudo vai seguir aquele esquema e ir para o público quase diretamente do meu estúdio.

E é exatamente isso que vou lançar por um novo selo meu: o material cru que resultar das minhas jams e que vai ser masterizado e prensado diretamente das demos, que são meu som natural, pessoal, sem interferência externa. A música fala diretamente com a alma, então quanto mais pensar, pior acaba sendo.

O que vai sair em breve é o resultado natural daquela minha abordagem simplificada de produção: menos máquinas, menos intermediários, menos preocupações, menos distrações, mais música.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

Música é um guia para minha vida, é o mapa através do qual sigo por ela, apenas sentindo. É o elemento mais forte e presente da minha existência.

A música conecta. 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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