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Alataj entrevista Vinicius Brazil

Alataj entrevista Vinicius Brazil

O trabalho que envolve a construção de sistemas modulares é complexo e exige um alto nível de conhecimento no técnico. No Brasil, esse tipo de sintetizador tem se popularizado nos últimos anos graças ao trabalho de profissionais como Vinicius Brazil, uma das referências absolutas da área.

Vinicius é engenheiro eletrônico, apaixonado por música e desde o começo da década de 70 ativo no desenvolvimento de pedais de efeito. Em 78, criou seu primeiro semi modular e um String Synth. De 80 pra cá trabalhou em uma série de equipamentos para estúdios de gravação, dos mais simples até os mais complexos. Após um certo hiato na área, há 10 anos VB voltou a criar para o mercado modular, que desde então é o seu foco.

Atualmente, Vinicius Brazil tem uma jornada marcada por projetos que saem do óbvio e entregam ao cliente uma experiência diferente do que há disponível no mercado. Recentemente ele começou a fabricar para o mercado americano e internacional, fato esse que aumenta sua credibilidade no cenário. Nesse fim de semana, Vinicius dá um workshop exclusivo para o time da Polifônicos no Rio de Janeiro. Antes disso, falamos com ele:

Alataj: Olá, Vinicius! Tudo bem? Você é um profissional considerado referência na construção de sistemas modulares no Brasil. Como exatamente sua paixão por esses equipamentos começou e quando você decidiu que isso seria seu trabalho?

Na verdade a culpa é da música [risos]. Em 1968 ganhei de meu pai a minha primeira guitarra. Como pedais importados eram caríssimos, comecei a pedir pedais emprestados aos amigos e músicos que conhecia e, de forma totalmente auto-didata, abria os pedais para estudá-los.

Não demorou muito tempo, fiz minha primeira distorção. Daí para os Phasers, Flangers, Delays, foi um salto. Na época existiam também várias revistas importadas com artigos e projetos que ajudaram muito. Tomei gosto e resolvi seguir a engenharia! Logo, posso afirmar que a música me levou a Eletrônica.

Sua formação acadêmica é Engenharia Eletrônica, certo? Quão decisiva foi sua graduação para que você começasse a construir seus próprios modulares?

Exato, sou engenheiro eletrônico, em 1974 entrei para a Universidade. Em 1975 comecei a trabalhar em uma indústria eletrônica francesa, logo, durante todo o meu curso já trabalhava com a “mão na massa”, especificamente em área de projetos eletrônicos. É claro que a universidade me proporcionou a teoria necessária, mas, ao contrario dos companheiros de turma, praticamente nada era novidade. O trabalho prático e objetivo do dia-a-dia me deu muito mais “formação” técnica que a universidade. Construí o meu primeiro semi-modular em 1978, logo antes de me formar. Por sorte, nesta firma tinham dois outros engenheiros franceses fanáticos por sintetizadores e junto com eles fiz vários módulos para uso próprio.

Da década de 70 pra cá, quais foram as principais evoluções tecnológicas que possibilitaram implementação de novidades na parte dos modulares?

Uma das coisas mais importantes foi a acessibilidade e a facilidade de compra de partes e componentes – o que permitiu a muita gente no mundo inteiro fazer seus projetos. Outro ponto indiscutível foi a internet.

Por outro lado, muitos circuitos integrados que foram desenvolvidos e vendidos nas décadas de 70 e 80, com os quais muitos synths importantes foram feitos, foram descontinuados, o que na verdade acabou sendo um retrocesso. Recentemente, umas duas ou três empresas resolveram fabricar muitos destes itens, o que está causando uma nova revolução no mercado.

Uma evolução tecnológica importantíssima foi o aumento enorme do poder de processamento de algumas famílias de microcontroladores. Isto permitiu desenvolver módulos digitais extremamente poderosos e interessantes, efeitos e processadores que até uns 10 anos atrás seriam caríssimos.

Como você enxerga a evolução do processo de gravação nos últimos anos? Ainda há espaço para revoluções nessa área?

Desde a década de 80 trabalho também com áudio em estúdios e desde o inicio vivi bem os dois mundos, analógico e digital. Devido a edição e mixagem de áudio dentro de estúdios, tenho uma visão e exigências diferentes de quem só escuta um disco ou uma propaganda. E, pelo fato de ser engenheiro eletrônico, conheço os meandros “eletrônicos” de todo o processo.

A partir do “despertar tecnológico” dos meios digitais na década de 80 algumas curiosidades aconteceram. Em pouquíssimos anos, a qualidade do áudio gravado/editado/mixado aumentou consideravelmente e, por outro lado, devido aos problemas de armazenamento de dados, que fizeram surgir algoritmos de compressão digital, foi criado o MP3, entre outros, que virou um padrão no usuário final.

Sem entrar nos meandros técnicos relacionados, devido à isto, a qualidade do áudio que se escuta hoje é pior, bem inferior aos CDs dos primeiros anos e em nada se aproxima ao que os engenheiros “queimam a mufa” dentro do estúdio para mixar.

O usuário final se acostumou a “ouvir mal” e as gerações mais novas não tem a noção do diferencial, pois as fontes de audição que usam no dia-a-dia não são “planas e naturais”, fazendo muito uso de psicoacústica para suprir uma sensação agradável, principalmente nos graves.

É um assunto muito complexo e cheio de nuances com muita gente falando muita asneira, basicamente por falta de conhecimento. Mas era necessário para poder responder sua pergunta. Sim, o áudio ainda tem muito espaço para revoluções tecnológicas, a começar pelo aumento radical do sample rate…

A criação de algoritmos sem perdas, aproveitando o aumento vertiginoso do poder de processamento dos processadores modernos de forma a eliminar de vez os algoritmos MP3 e associados. Outra área que está finalmente sofrendo fortes evoluções é a reprodução, a começar pela tecnologia de alto-falantes. A reprodução é um fator que “encarroça” o desenvolvimento da gravação/mixagem e muitas técnicas de reprodução tridimensional vem sendo testadas ao longo dos anos, o que vai acabar por obrigar uma revolução radical nas formas de gravação e captação de áudio atuais.

Dia 29 de Setembro você participa de um workshop com a Polifônicos no Rio de Janeiro. O que representa pra você participar desse tipo de evento?

Existem fatores que eu considero fundamentais para um bom profissional de áudio, como reciclagem de conhecimento, aprendizagem de novas técnicas, quebra de tabus e mitos criados pela falta de conhecimento ou disseminados por outros, propositalmente.

Para mim é uma honra poder fazer parte deste processo. Não adianta você ter uma vida de experiências e estudos se não passar isto adiante…

Qual conselho você daria para aqueles jovens que possuem talento e criatividade, porém muita dificuldade para lidar com a parte técnica de modulares e outras sistemas?

Estudem. Graças a internet, as fontes de pesquisa são inesgotáveis. Façam cursos, participem de workshops, troquem idéias, quebrem tabus, não acreditem em tudo que escutarem, questionem e comprovem!

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música é a semente de tudo que fiz e, como músico, considero a expressão artística mais completa do homem.

A MÚSICA CONECTA.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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