A tradição da música eletrônica francesa foi construída graças ao trabalho de uma geração de artistas que revolucionou um estilo global, com um toque próprio de todo um país. Daft Punk, Justice, Vitalic… cada um desses nomes (e outros não citados também, claro) realizou uma espécie de revolução no estilo e entregou algo novo e fresh as paradas de rádio e pistas do mundo todo.

// Quero receber os conteúdos do Alataj via e-mail!

No caso de Vitalic, todo encanto gira em torno da responsabilidade assumida em redefinir o techno através de uma narrativa sensível com assinaturas próprias. Diversas produções suas, como Poney, La Rock 01, My Friend Dario e Stamina, se tornaram clássicos da cena clubber, mas muito além disso, inspiraram e estimularam profundamente uma geração que nasceu pós o surgimento do boom da dance music na França.

Pascal Arbez-Nicolas (seu nome de batismo), não apenas é parte do envolvimento histórico da França com sons de pista, mas também um entusiasta responsável por levar essa cultura adiante, evitando que ela permanecesse apenas na memória de quem viveu o momento de ouro que foi o surgimento de nomes como Vitalic a nível nacional e posteriormente internacional.

Resultado de imagem para vitalic

Sua receita para não parar no tempo? Renovação. O perfil sonoro de Pascal exige uma constante busca por visões diferenciadas no que diz respeito a um estilo musical moldado por repetições. Essa constante mutação deu força para Vitalic explorar diferentes facetas e girar seus trabalhos sob públicos diversos e sempre sedentos por informação. Nessa entrevista exclusiva, Pascal justifica partes dessa jornada emocionante e empolgante. Confira:

1 – Olá, Pascal! Tudo bem? Combinar electro, techno e house de forma eficiente é uma tarefa complicada. Como cada uma desses estilos apareceu na sua vida e de que maneira você procura inseri-los nas suas produções?

Olá! Acho que meus gostos na música estão constantemente evoluindo com o tempo, e isso tem impacto na minha produção. No entanto, até agora minha música sempre teve a energia do techno com algum sabor disco. Mas não me vejo como um purista de qualquer gênero.

2 – Percebo que você faz parte de uma geração da dance music francesa que realmente se propôs a criar algo novo. Ao que você creditaria isso? Há algum acontecimento especial na música do país que turbinou o surgimento de tantos projetos bacanas, como o seu, Daft Punk, Justice, Air… entre outros?

Acho que o sucesso do Daft Punk nos anos 90 abriu muitas portas. Antes disso, França era considerada um país bom para comida e vinho, enquanto a produção musical era algo engraçado e preso na década de 80. O estilo genial do Daft Punk e de alguns outros produtores consistiiu em transformar aquele som barato dos anos 80 em algo hype e novo.

3 – You Prefer Cocaine é uma de suas produções de maior sucesso e traz uma critica muito interessante sobre o assunto. Você está ciente do estrago que essa droga está causando em nosso cenário? Na sua opinião, os players do mercado deveriam conversar mais abertamente sobre isso?

Claro que estou ciente do estrago que a cocaína causa ao redor do mundo e principalmente na América do Sul, onde é produzida. Mas a música não é sobre isso, é sobre o fato de que nos anos 90 muitos DJs estavam cheios de drogas e agiam como robôs sem paixão, tocando faixas intermináveis de techno, sem alma. Não sei se outras pessoas deveriam falar sobre drogas, mas o ponto do Vitalic era trazer histórias para a música eletrônica além do amor/noite/pista.

4 – Seu último lançamento traz um toque latino e até mesmo uma levada um pouco diferente do que você vinha lançando. Como foi o processo de criação e concepção de Tu Conmigo?

A faixa é baseada em uma música instrumental de 2008/2009 que tenho na minha cabeça. Por fim, essa curta música terminou como a introdução do meu LP Voyager. Então, pensei que poderia ser divertido fazer uma música pop em espanhol, nos lembrando da Espanha dos anos 70, algo conectado a minha infância e todas as fantasias dessa época. Eu convidei La Bien Querida e nós gravamos o som.

5 – É claro pra gente que você busca entregar as pistas uma dance music que estimula novas formas de dança. Na sua visão, as cenas house e techno estão muito saturadas e os trabalhos soando muito parecidos?

Não sou o único DJ/músico a pensar que tudo que está acontecendo agora é apenas sobre refazer o que foi feito há 20 anos sem uma verdadeira criatividade. Toda produção musical ao redor do mundo parece exatamente a mesma. Em clubes e festivais, um DJ segue após o outro tocando exatamente as mesmas coisas. No que me diz respeito, não faço parte disso. Estou me movendo em paralelo a tudo isso, olhando do outro lado.

6 – Sobre Voyager… quais foram as referências bases para produção desse álbum? O resultado artístico dele representa fielmente a fase que você se encontra como artista agora?

Acho que sim, Voyager é realmente o que eu quis que fosse. Da arte final para as faixas e o live também. Reúne as referências que eu quis, algo de Moroder disco para piano/vocal, com um toque excêntrico. É bastante pessoal e conta muitas coisas. Tive bons momentos produzindo em Paris, LA e Barcelona.

7 – Sabemos que você possui um relacionamento especial com o Brasil. Fale um pouco sobre a diferença entre as suas primeiras e as mais recentes experiências por aqui.

A primeira vez que eu vim para o Brasil, o electro estava explodindo e a cena francesa tinha um grande público. Com o tempo o som estava mudando, house para o techno, mas ainda assim eu tinha uma resposta muito boa. Cuiabá é um lugar muito especial pra mim, não deixo de tocar lá quando venho.

8 – Para finalizar. Nós enxergamos a música como uma forma de conexão entre as pessoas. Na sua opinião, qual o grande significado dela em nossas vidas?

Acho que sobre conectar pessoas está certo. Mas é também sobre conectar-se com suas próprias emoções, é algo pessoal. Quero dizer, quando você toca música em seus fones de ouvido, está alimentando seu cérebro e seu corpo com sensações.

A música conecta as pessoas!