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SPE 2018 | Acessibilidade: como podemos melhorar?

SPE 2018 | Acessibilidade: como podemos melhorar?

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Por Pedro Americo

Music makes the people come together, já dizia Madonna. E ela tem razão, realmente a música tem o poder de fazer as pessoas se juntarem, se unirem, se conectarem. Sabendo disso, podemos compreender perfeitamente que shows e festivais atraem públicos cada vez mais diversificados e que a cada temporada mais pessoas descobrem esse universo. Mas a cena desses eventos está realmente preparada para receber a todos? Está preparada para receber as Pessoas Com Deficiência – PCD?

O ano é 2018 e a acessibilidade ainda é um tema pouco trabalhado pelas produtoras de eventos na realização de shows e festivais de grande porte. Nesse cenário as ações para permitir o acesso e a plena experiência das PCD ainda são praticamente nulas. Quando existe a tentativa de acessibilidade, ela geralmente se mostra ineficiente ou se a proposta de ação é boa, a execução se perde em algum ponto.

A princípio é preciso saber as reais necessidades das PCD, entender um pouco sobre o que faz com que esse grupo de pessoas tenha receio de frequentar grandes eventos (e isso vai além da falta de estrutura). Um desses fatores é o medo. O medo por fazer coisas fora da zona de conforto geralmente é potencializado nas Pessoas Com Deficiência pois as barreiras arquitetônicas podem ser cruéis, a locomoção pode ser bem difícil, a falta de informação ser um problema real e o fantasma do preconceito sempre está rondando.

A origem disso normalmente vem da falta de informação. Basta imaginar as dúvidas de uma Pessoa Com Deficiência para ir num show de grande porte: será que vai ter banheiro adaptado? Será que dá para enxergar o palco? Terá uma multidão na rua? O carro tem que parar muito longe da entrada? E se chover? Vai ter entrada especial? Tem lugar reservado? Os amigos podem ficar juntos? Será que não vou morrer pisoteado?

A inclusão começa com o acesso à informação. É primordial que todas as ações que serão implantadas para a acessibilidade no dia do evento, sejam apresentadas com antecedência nos meios oficiais de comunicação como o site e as redes sociais. Que se abra um canal de diálogo entre produtora e público, sempre no melhor estilo “conversando a gente se entende”. Explicar e detalhar tudo nas páginas de FAQ, como por exemplo, sobre a compra dos ingressos meia-entrada para PCD, o mapa do evento mostrando os pontos de acessibilidade, estacionamento, banheiros, entradas e áreas reservadas, como proceder junto aos bombeiros e seguranças, entre todas as demais informações. Muito importante que o site também seja acessível, com ferramentas de acessibilidade virtual e que nas redes sociais tudo venha acompanhado de descrição com a #PraCegoVer.

Infelizmente algumas produtoras anunciam instrumentos de acessibilidade que não se concretizam no dia do evento e isso pode causar sérios problemas. É imprescindível que no dia do show/festival toda essa informação se torne realidade. Mas sejamos positivos e vamos ver algumas das ações que frequentemente são apresentadas para construir um ambiente acessível e mais acolhedor para as Pessoas Com Deficiência.

Estacionamento exclusivo | Dentro do estacionamento geral, as vagas mais próximas à entrada são reservadas para PCD. Em alguns festivais há um estacionamento exclusivo para esse público.

Acesso preferencial | Para evitar a aglomeração de pessoas, uma portaria preferencial será disponibilizada, num local distante da portaria do público geral, até mesmo numa rua diferente.

Translado | No caso da portaria ou do estacionamento ser longe do local dos shows, é oferecido translado com um buggy elétrico, o conhecido “carrinho de golfe”.

Áreas reservadas | São áreas destinadas para as PCD poderem assistir aos shows com segurança e àqueles que estiverem sentados, poderem enxergar o palco. Geralmente são tablados elevados e posicionados de acordo com a demarcação feita pelo corpo de bombeiros, visando à segurança do público.

Banheiros | Na maioria dos festivais são utilizados banheiros químicos. Sim, existe um banheiro químico adaptado. Geralmente estão dispostos junto às áreas reservadas.

Equipe de apoio | Alguns festivais já contam com uma equipe destinada a dar apoio e facilitar o acesso das pessoas com deficiência. São treinados para isso e estão à disposição para qualquer ajuda necessária.

Vale apontar que esse é o combo mínimo de ações de acessibilidade e todas elas podem e devem ser melhoradas. A questão dos banheiros, por exemplo: sabemos que banheiro químico é ruim pra todo mundo, mas para uma Pessoa Com Deficiência fica impossível de se usar em alguns casos, pois essas cabines não são adaptadas de maneira eficiente. As produtoras de eventos poderiam disponibilizar alguma alternativa, talvez com banheiros em contêineres ou até mesmo oferecer sanitários em alvenaria quando possível.

Outra ação que pode ser tomada para facilitar a experiência das PCD é a criação de rotas alternativas de deslocamento dentro dos festivais. Quanto mais numeroso o público desses eventos, mais difícil é para alguém cadeirante ou com mobilidade reduzida transpor as distâncias, então por que não liberar passagens exclusivas para esse público? Além de mais agilidade no percurso, é também uma maneira de manter a segurança das PCD em meio à multidão.

Algo que muitas vezes os festivais pecam é na falta de sinalização dos instrumentos e pontos de acessibilidade. Em certos casos a acessibilidade até existe, mas não há indicações de onde ela esteja. Não dá pra uma pessoa com mobilidade reduzida ficar dando voltas até encontrar uma área reservada por exemplo. Tudo deve estar muito bem sinalizado e isso é facilmente solucionado com uma boa comunicação visual.

Uma iniciativa que auxilia muito a experiência das PCD em shows e festivais é a ação de equipes especializadas no trato com esse público específico. Não se tratam de babás para “cuidar” dessas pessoas e sim profissionais que estão ali para agilizar as demandas e encaminhar tudo da maneira mais prática e segura, orientando e dando aquela força quando for necessário. Alguns eventos já adotam essa prática e isso têm se mostrado muito eficiente.

Estar sempre alerta também é um cuidado que a produção deve tomar, pois mesmo com tudo organizado sabemos que alguma coisa pode fugir do controle e algum desgaste acontecer. Imagine eventos com 100 mil pessoas, por exemplo, a probabilidade de algo não sair como o planejado é grande e é nesse momento que o fator humano fala mais alto. Quando falta estrutura, a agilidade de pensar em soluções criativas é um diferencial. De alguma maneira fazer a inclusão acontecer, procurando as melhores opções para qualquer empasse.

Essas e outras tantas ações estruturais e logísticas devem ser criadas e implantadas nos eventos. Além das deficiências motoras, temos pessoas com deficiências sensoriais e intelectuais e todos podem ser incluídos de maneira eficiente na cena do entretenimento. 

A pauta da acessibilidade ainda deve ser amplamente debatida a fim de pensarmos formas de acessos para todos nos diversos segmentos da sociedade, aqui falando especialmente em shows e festivais, afinal a música é universal. A música não faz distinções.

No Brasil, cerca de 24% da populaça tem algum tipo de deficiência, e essa galera toda está ampliando seus horizontes, explorando o mundo cada vez mais e curtindo muito. Cabe também a quem promove a cena de entretenimento dar suporte a isso. Estamos falando de acessibilidade cultural, afinal “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.

A MÚSICA CONECTA. 

Pedro Américo | Criador do projeto Mais Uma Rodada”, onde compartilha nas redes sociais suas experiências em shows e festivais, tudo do meu ponto de vista: sentado!


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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