Troally é a coluna de podcasts “side b” do Alataj. Ouça todos aqui! 

Basta um rápido um rolê com Andre Salata pela pista de algum dos principais clubs do Brasil para perceber que o “professor”, como é carinhosamente chamado por seus ex-alunos e parte dos seguidores, é uma figura de rara presença na cena nacional.

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Salata faz parte de uma geração que viu na dance music um ponto de escape no que diz respeito a cultura musical brasileira. Ele e seus amigos testemunharam todo boom da cena dnb e techno na maior cidade do país. A efervescência foi tão grande e genuína que não se envolver de corpo e alma com o movimento era uma tarefa praticamente impossível.

Naturalmente as coisas foram acontecendo: discotecagem, produção musical, ensino. Andre foi pioneiro no curso de Produção Musical da Anhembi/Morumbi e contribui com a evolução e aprendizado de uma grande leva de produtores que hoje estão ativos no circuito. Em determinado momento, seu lado artístico falou mais alto e então ele decidiu que esse seria o momento de se dedicar ainda mais a sua própria jornada.

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Um período de imersão no estúdio resultou em uma leva de faixas com bastante potencial. Salata então se jogou no mercado para buscar labels que pudessem apoiar 100% seu trabalho e o resultado positivo não demorou para aparecer. Get Physical e Noir Music, duas “best sellers” internacionais, apostaram no trabalho do brasileiro – a primeira delas com mais ênfase. Andre hoje é parte da família Get Physical e foi o único brasileiro a tocar na festa de 15 anos da gravadora no Watergate em Berlim esse ano – uma conquista de peso imensurável em sua carreira.

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Além disso, Salata também assinou uma compilação para o selo e segue em contato direto para trabalhos futuros. Em sua última passagem pela Europa, o brasileiro fechou com a agência Greensmith para bookings internacionais – aqui no Brasil a D AGENCY é a sua representante. Na mesma trip, um set memorável de 4 horas na pista mítica do Sisyphos em Berlim marcou o retorno de Andre ao club. Abaixo, você ouve o mix de forma exclusiva e ainda acompanha nosso bate-papo com Salata. Confira:

1 – Olá, André! Tudo bem? Obrigado por nos atender. Você acaba de anunciar sua entrada para Greensmith, agência que vai representar seus bookings a nível global, exceto América do Sul que segue com a D AGENCY. Quais são seus principais objetivos nessa nova etapa? O que pesou nessa decisão?

Opa galera, tudo ótimo! Meu objetivo nessa parceria com a Greensmith é expandir meu som globalmente, além dos lançamentos em plataformas de música, mas também mostrando minha bagagem como DJ para lugares onde meu som ainda não chega. Fui para o ADE esse ano focado nisso, encontrar uma agência de bookings para Europa principalmente. A Greensmith tem um roster de DJs cheio de história e fiquei bem feliz que eles quiseram trabalhar comigo.

2 – Quando o assunto é produção musical, você é uma dos nomes mais importantes do cenário nacional. Fale um pouco sobre sua caminhada nesse mercado e como funciona sua rotina de trabalho atualmente.

Este ano estou completando 10 anos de alguns inícios: o de DJ, o de professor e do meu primeiro EP que saiu a venda. Produzo a mais tempo que isso (cerca de 13 anos), mas faz 10 anos que venho lançando, antigamente como Elemental X e mais recentemente somente com meu próprio nome. Como foram três coisas que aconteceram juntas e vieram caminhando juntas, em algum momento uma delas se sobressaiu mais do que a outra. Por exemplo, boa parte dos últimos 10 anos eu me dediquei para aulas e isso foi minha prioridade. Esse ano decidi mudar a rotina e venho conseguindo produzir e tocar mais. Basicamente minha rotina é como de um trabalho comum enquanto estou dentro do estúdio. Tento trabalhar dentro do “horário comercial” tradicional, todos os dias tenho alguns e-mails e mensagens pra responder e concilio isso com a dedicação à produção das minhas músicas.

3 – Quais foram os principais ensinamentos e aprendizados que o ADE trouxe a você nessa última edição? Para um profissional que está em busca de se estabilizar no mercado, quão importante é estar na conferência?

Esse ano fui focado no business, em marcar reuniões com um objetivo certo. Não aproveitei tanto as conferências como nos anos anteriores e percebi que o pique pra ir em todas as festas ao mesmo tempo tá acabando já que a idade aumenta [risos]. Pra quem tá no mercado, independente do papel que tem (DJ, produtor, booker, jornalista, etc), a conferência é uma forma de você ver pessoas como você, de todo lugar do mundo, mostrando ou buscando algo a mais. É uma troca de experiências muito grande, uma possibilidade de networking incrível e mais conhecimento para você aplicar em seus negócios.

4 – Um debate muito frequente na cena nacional é a existência das chamadas “panelinhas”. Na sua opinião, como elas impactam o mercado? Ser parte de alianças e grupos é essencial para construir uma carreira sustentável?

Acho que panelinhas nada mais são do que o retrato de um movimento de pessoas com afinidades e interesses semelhantes, seja musical, seja como maneiras de se entreter ou como degrau para alcançar um determinado objetivo. O mercado talvez seja impactado com isso por algumas vezes esses grupos não darem ao público o que eles realmente desejam por completo, porém, ao mesmo tempo, agradar a todos é algo muito difícil, né? Não acredito que ser parte de uma aliança seja essencial para construir uma carreira sustentável e, algumas vezes, essas alianças podem até derrubar sua carreira, porém não vejo nada de errado em fazer parte de grupos/panelas/alianças (como quiserem chamar) que tenham a ver com você.

5 – Falando um pouco sobre seu último lançamento, a coletânea Essentials para Get Physical, gostaríamos de saber: qual foi seu critério para escolha das faixas? Como foi participar desse projeto?

Fiquei muito feliz quando o pessoal do selo me convidou para selecionar e mixar faixas da label para uma coletânea assinada por mim. O processo de escolha foi difícil. Primeiro porque a Get Physical lança muita coisa, com diferentes abordagens. Segundo porque quis escolher faixas que pudessem contar uma história quando tocadas juntas e, numa imensidão de tracks, isso levou um tempo.

6 – Sinto que os jovens produtores brasileiros começam a produzir baseando-se muito em referências internacionais e, em alguns casos, acaba que o resultado geral soa bastante repetitivo. Na sua visão, quais são os caminhos para solucionar isso?

Pra mim, o caminho é ouvir ainda mais artistas. O problema na verdade, de acordo com meu ponto de vista, é que eles não se “baseiam” em referências, eles copiam as referências. Daí a história é complicada, é aquele conhecido caso de fazer o que alguém já tá fazendo. Os jovens que seguem nessa linha geralmente são os que mais se frustram, porque querem sucesso muito rápido, mas com o tempo percebem que não saem do lugar (falando de uma visão como produtor musical). Enquanto aquele que tenta fazer algo novo, próprio, mesmo se baseando em outros artistas, acaba tendo uma carreira mais sólida a longo prazo. Claro que não é tão simples assim nenhum dos caminhos que eu disse, mas é um resumo do que vejo muito.

7 – Inovação é identidade são duas características comuns em artistas de sucesso da atualidade. Como você tem se posicionado em relação a isso?

Eu tento sempre trazer algo novo dentro do que é permitido, por exemplo, sound design. Mas isso é um caminho torturante, porque você “inventa” umas coisas e teus amigos falam que tá um lixo [risos]. Porém um nome conhecido faz “um lixo” do mesmo tipo, daí vira referência. Então no final das contas eu acabo criando algo que me deixa contente, que soe alguma coisa diferente do que venho ouvindo e que quando eu toco as pessoas dancem.

8 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música representa pra mim a linguagem universal do mundo, onde podemos transmitir sentimentos independente de raça ou credo.

A música conecta as pessoas!