Konrad é um artista carioca que reside em São Paulo. Essa na verdade é uma história que se repete muito, mas o bacana é quando o profissional consegue somar o que as culturas e estilos cada cidade podem oferecer de melhor. Residente da famosa noite Mothership no D-Edge de São Paulo, Konrad é um dj maduro, que tem uma visão muito interessante a respeito da cena e sobre a música eletrônica em si. Orgulhosamente, o apresentamos para o capítulo 27 dessa saga chamada Troally.

1 – Em sua bio você fala sobre profundidade e como conseguiu unir o que há de melhor em São Paulo e Rio de Janeiro para compor sua personalidade artística. Fale um pouco mais sobre essas influências para nós.

Entendo profundidade como a capacidade de pesquisar e absorver várias referências e sonoridades musicais, seja na música eletrônica, na música de rua, instrumental, clássica ou experimental e, a partir daí, buscar sua própria identidade musical. Música é informação e quanto mais informação de qualidade você absorve mais rico é o seu arcabouço musical.

Os locais de meu nascimento (Rio de Janeiro-RJ) e residência (São Paulo-SP) foram com certeza aspectos que influenciaram a minha formação cultural e background musical. No Rio o mar, o dia, a natureza, a estética, a sensualidade feminina e a bateria do samba me influenciaram à ouvir música brasileira e jazz; em São Paulo o lado mais acelerado, moderno e sofisticado da metrópole me remeteu mais ao clima noturno e, consequentemente, à música eletrônica contemporânea, seja ela de pista (deep-house, house, techno e afins) ou não (ambient, downtempo, idm, trip-hop, etc) para ouvir em outras ocasiões. É onde a minha criatividade flui e a profundidade aumenta.

2 – Também em sua bio, você procura não se limitar a estilos. Porém, sabemos que todo produtor tem sua vertente preferida no fundo do coração. Qual é a sua?

Se pudesse sintetizar em uma só: dub-techno.

3 – O que a noite de São Paulo tem de melhor a oferecer na sua opinião?

Tudo. A noite de São Paulo é rica, vasta e misturada. Você pode ir do lugar mais ‘cochinha’ e mainstream ao mais conceitual e ‘cabeçudo’ se assim
desejar. Tudo depende de onde você transita, de qual a sua ‘tribo’, qual é o tipo de festa que você frequenta e principalmente: qual o tipo de som que você gosta. Geralmente as festas maiores, mais elitizadas e os clubs mais comerciais são os que tem o pior som, infelizmente. Obviamente que essa relação está muito ligado à cultura paulistana e como mencionei antes: ao nível de informação das pessoas. Em outras palavras, esse é o reflexo do inconsciente coletivo da noite de SP. Mas o que me incomoda e acaba influenciando negativamente a cena não é o público, e sim os organizadores e promoters que preferem não arriscar em artistas e line-ups diferentes dos convencionais mas seguir o padrão estabelecido, que muitas vezes está relacionado com o retorno do investimento financeiro. E aí meu caro, dá-lhe chacota! E quando digo chacota, não é só EDM, também tem o tech-house pastelão e o deep-house universitário! Rs. Por outro lado, existe o D.Edge que este ano completa 15 anos e sempre apostou em música de qualidade e outras festas incríveis organizadas por pequenos núcleos e pessoas que realmente gostam de música e mantém a cultura underground viva que você só encontra aqui. A essas o meu respeito e admiração.

4 – Para você, qual o real papel das labels no momento atual da cena?

Depende do label, na minha visão existem 3 tipos de labels que desempenham diferentes papéis: os labels ‘mainstream’ rodados pelas grandes gravadoras projetam os artistas para o mercado internacional, os labels ‘underground’ na maioria das vezes lançam faixas somente em vinil, com cópias limitadas, cuja intenção ao meu ver é a qualidade artística do selo e a exclusividade, e existem também os chamados netlabels que são selos 100% independentes. Este último trata-se de um terreno novo, fluído, desconhecido e altamente criativo no qual um produtor pode criar seu próprio selo e distribuir suas faixas pela internet sem depender de nenhuma grande gravadora para lançar sua música. Muitas vezes esses produtores divulgam seu trabalho de forma colaborativa – como no Bandcamp por exemplo que você tem a possibilidade de baixar a música de graça, pagar por ela ou até mesmo doar o valor que você quiser. Tem também uma simbiose de artistas que começam a lançar em netlabels e à medida que vão ganhando projeção e reconhecimento migram para os grandes labels e começam a lançar e a comercializar suas músicas, seja em arquivo digital ou vinil. Particularmente tenho um sonho antigo de criar um netlabel chamado ‘Monada Records’ na qual já virou referência entre os amigos mais próximos.

5 – Para encerrar.Fale um pouco mais sobre seu trabalho frente a C1RCU5.

Meu trabalho na C1RCU5 foi uma grande realização pessoal e profissional, e acima de tudo, um enorme trabalho em equipe. A festa surgiu à partir de saudosas matinês de domingo na antiga Trackers. Os encontros reuniam amigos, dj’s e produtores com um único objetivo: ouvir boa música e trocar informações fora do ambiente dos grandes festas. A festa rolava num domingo à tarde num clima descontraído e despretencioso, onde podíamos ter a liberdade de tocar o que quiséssemos: do ambient ao deep, do jazz ao techno. O núcleo dos organizadores era composto por mim, Rodrigo Taboada (Dj Tabu), Henrique Matias e Augusto Merli. No começo também tivemos apoio importante dos amigos Max Underson, Daniel Um, Rafael Moura, Lemes, Marcelo Tavares, Regis UE, Ney Faustini e L_cio, entre outros, que participaram de algumas edições. Fizemos 10 edições ao todo em 3 lugares diferentes (6 edições na Trackers, 3 na Casa 92 e a épica despedida no Skol Beats Factory com direito a live do B-Mind). Se vamos continuar? Talvez…