Troally com Eduard

Excepcionalmente hoje, nosso convidado escreve sobre sua participação (no caso, retorno) ao podcast da Troally. Com a palavra, Eduard:

Para mim, gravar podcasts é diferente de executar sets ao vivo. Quando estou diante de uma pista, me ocupo de manter o que está acontecendo. Explico: se é um warm up, penso que a festa deve acontecer só depois de mim, então é uma oportunidade para usar aquelas tracks que exigem atenção, com camadas complexas, tons dub, aberturas, baixas, breaks longos, filtro em passa-baixa. Gosto muito de fazer warm ups por isso, é um território de testes, de ver como as coisas soam, testar tons, de tocar de um modo contido, pois se você subir precisa pensar em como voltar para entregar uma pista pulsando, ainda atenta ao que está acontecendo. Se no warm up há gente sentada bebendo seus drinks, balançado a cabeça, marcando o compasso com os pés ou com dancinhas instantâneas que logo se desfazem, penso que estou no caminho certo para que qualquer DJ que venha na sequência se sinta à vontade para tocar as suas melhores. Pra resumir, warm up é quando a racionalidade da pista ainda é mais forte que a impulsividade.

Mas se você pega uma pista já pronta, o compromisso é outro: não abra espaços que não possa preencher. Não deixe a pista com vontade de sair fumar um cigarro, ou deixe a pista com vontade de sair fumar, uma vontade que fica na vontade, pois ninguém quer tirar o pé dali. Intensidade. Não é pescoço balançando nem pezinho batendo. É quadril mode on.

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas

Já um podcast é ainda diferente, porque imagino que quem ouve está no seu portable, com fones, ou usando falantes de pouca potência, com pouco grave, talvez dirigindo, caminhando, cozinhando, de modo que qualquer manutenção longa de ritmos e cadências pode causar fadiga sonora.

Embora eu mantenha a discoteca atualizada com novidades recentes, não tenho a preocupação de executar as novidades. Eu prefiro que as novidades me façam reorganizar a discoteca, me façam buscar coisas que não recordava mais, ou descubra tracks que antes passaram batidas. Então em um podcast posso subir, descer, abrir, fechar, tocar uma vez, tocar duas, três, até que surja uma sequência que eu queira executar. O podcast é especial porque abre espaço para coisas que você pensa em tocar há muito tempo, que se tornaram especiais para você – e isso vai além de um critério temporal do que é novo e está up to date. Aqui interessa mesmo uma história.

A pesquisa deste podcast para o Alataj não me preocupei em apresentar tracks recentes. Começa com o misterioso produtor KNLB, Second Wind, piano breakbeat para o selo italiano Vibraphone, lançada em 2017. Na sequência, Kraken, do aclamado Stereociti, um dub pra dentro, com synths macios, reverberantes, que circulou muito entre os debates de 2016.

Antes eu disse que por vezes me preocupo em manter o que está acontecendo, só que num podcast, não. Assim a gente passa de Stereociti para uma produtora australiana, Trinity, Cascade Drive, também de 2016, techno elétrico, faixa intensa de muita personalidade e que gosto muito. Depois, Corinthian Columns, faixa mental e percussiva do duo britânico MadderModes; Ukansk, remix de Evigt Mörker para Mattias Fridell, techno duro envolvido por uma colcha pesada de melancolia.

Nessa pegada, seguimos para Days of Snow, o lado A de um raro disco de Ben Sims para o selo Mosaic, de 2014. Na mesma pegada, mas em diapasão house, Caliente, de Leo Pol, no selo Bass Culture, originalmente com um BPM bem mais alto e que aqui caiu bem nos 125. Disso a vibe muda e temos fresh things: Viewpoint do Grant (Anthony Collins), lançada em junho deste ano. É um tipo de mixagem que gosto de fazer, vínhamos no techno e passamos ao deep house, ganhando fôlego mas subindo a pegada. A sequência é Wet, de Ron Trent, faixa longa e muito bem trabalhada; Trainspotting, de Harry Light, que faz parte de um álbum triplo, de sofisticado acabamento gráfico, com composições básicas e acertadas; Kingsize, em remix de Map.ache para Simon Ferdinand, uma track que pouco tem a ver com a versão original, com um vocal feminino forte. Depois, Lush Culture, do Fred P, EP recém lançado, com um baixo envolvente – aliás, uma coisa que eu sempre me pergunto é: o que vou tocar do Fredão?

E por fim uma sequência que gostei muito do resultado: Penrose, do Black Tone, de uma coletânea de 2015 do selo Appian Sounds; Rincon, do alemão Farron, e The Still, do misterioso produtor John Horton, em seu selo Half True Records – três sonoridades recentes que parecem terem “ficado guardadas no sótão há muito tempo”. Termina com duas peças do produtor Dominic Jacobson, o Modaji, que morreu jovem em abril deste ano. São temas de um disco de 2016, Belle Epoque, lindo, simplesmente.

+++ Relembre a primeira participação de Eduard por aqui

O detalhe final deste podcast é que ele foi gravado em fita cassete. Recentemente, após quase 20 anos sem mexer com essas máquinas, voltei a usar tape decks simplesmente porque gosto da sonoridade, do hiss da fita. Os arquivos digitais nos fizeram pensar que o som existe de um jeito específico, puro, mas quando colocamos numa fita, gravada neste ou naquele tape deck, devolve-se um tom analógico cuja equalização varia de uma cabeça magnética para outra, de um tipo de fita para outro. Gravar fitas com qualidade exige regulagem de bias, uso ou não do famoso Dolby, entre outros fatores. Então o que se ouve nesse podcast é realmente uma mixtape. Apesar da conversão digital final de 48khz em 24bits, o som é de uma fita cromo high bias PDM, de 1990, gravada em um tape deck JVC TD-X401, da metade dos anos 1980. Operar esse tipo de máquina, para mim, é realmente um prazer. Estou desenvolvendo um projeto de mixagem com 4 tape decks e espero em breve ter algo consistente para mostrar. Agradeço mais uma vez o espaço aqui no Alataj.

A música conecta.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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