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Peso no sound system: conversamos com Oswaldo Mr. ...

Peso no sound system: conversamos com Oswaldo Mr. Groove

Oswaldo Junior é conhecido no centro de São Paulo e no cenário eletrônico brasileiro, entre outros trabalhos, pela loja Mr. Groove. Foi ele, lá na década de 90, que trouxe algum dos mais importantes artistas da vanguarda da house music – Little Louie Vega, Arman Van Helden e Erick Morillo, apenas para citar alguns. Na época, Oswaldo era dono do Sound Factory, club que exerceu papel importante para toda uma geração na capital paulistana e foi pioneiro no estilo dentro da cena nacional.

Desde a década de 80, Oswaldo fornece São Paulo uma visão especial de suas pesquisas musicas através das lojas que atrapalhou. Com o tempo, o DJ e vendedor de discos encontrou diferentes formas de importar discos para o Brasil e durante boa parte da década de 80 e 90, viajou para cidades como Nova York, Londres, Tóquio e outras grandes metrópoles. Com isso, ele se tornou referência de boa música e preciosidades. Decio Deep, metade do duo Anhanguera, garante que ele é um nome confiável quando está em busca de algo fresh ou old school: “Na Mr. Groove você precisa ir e ouvir as recomendações dele, não tem erro”.

A discotecagem, atividade extremamente importante na vida de Oswaldo Junior, surgiu ainda cedo: “Com 4 anos eu já colocava os discos na vitrolinha e a influência de black music era forte”. Passo a passo, Oswaldo foi criando um grande acervo poderosíssimo de discos em vinil e com um olhar diferenciado no que diz respeito a house, brasilidades, groove, funk e dance music, ele sobreviveu as diferentes transformações do mercado. Essa conquista diz muito, principalmente se levarmos em consideração que colecionar discos ainda não é algo barato no Brasil. Logo, para se sair bem em um cenário como esse, é necessário, além de muito comprometimento, paixão pelo que se faz – algo que nunca faltou para Oswaldo.

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Josh Wink pesquisando algumas preciosidades na Discomania, antiga loja de Oswaldo. 

Um papo ao vivo com ele em Setembro desse ano nos garantiu uma visão privilegiada de parte dos acontecimentos que ajudaram a formar o que hoje chamamos de cena na década passada e abriu ainda mais nossa curiosidade sobre sua jornada da música. Algumas de nossas principais dúvidas foram sanadas nesse bate-papo exclusivo com Oswaldo, hoje a frente da Mr. Groove (que também é seu alter disco enquanto DJ), loja de discos que fica na Galeria 24 de Maio no bom e velho centrão de SP. Confira abaixo o resultado desse bate-papo e do mix gravado exclusivamente para a Troally:

1 – Olá, Oswaldo! É um grande prazer falar com você. Há mais de duas décadas você tem trabalhado com o mercado do vinil no Brasil e certamente acompanhou todas as transformações da indústria. Atualmente, qual a sua avaliação pessoal no que diz respeito a esse mercado?

Olá! Prazer é meu em falar com vocês. Na verdade, são mais de 3 décadas. Comecei a trabalhar com discos em 1984, o vinil não é mais uma mercadoria popular com foi nos anos 70, 80 e 90 devido as novas mídias digitais. Nos últimos 10 anos tenho visto e sentido um interesse maior das pessoas pelo disco de vinil, principalmente quem não acompanhou ou nem conheceu o mercado fonográfico da época. Vejo as novas bandas e cantores lançando uma quantidade limitada de discos junto com os formatos digitais de seus álbuns e o mercado americano e europeu vem apresentando grandes resultados nas vendas. Aqui no Brasil já temos a algum tempo a Polysom no Rio de Janeiro lançando e relançando grandes álbuns no formato. Em Sao Paulo, meu amigo Michael Nath, abriu a Vinyl Brasil, mais uma fabrica vindo com um trabalho de prensagem em altíssimo nível de qualidade. Enfim, vejo o mercado em crescimento.

2 – Ano passado, o valor bruto das vendas de vinil ultrapassaram o streaming no Reino Unido, enquanto nos Estados Unidos e Japão, foi registrado um crescimento de 800% no segmento. Como um dono de loja, você também sentiu esse crescimento em seu negócio?

Aqui ainda não senti todo este crescimento, pois o disco no Brasil ainda é muito caro e para importar nem se fala… perdi muitos clientes para Discogs, Ebay, Juno, pois eles já importam direto. Ainda assim, acredito num crescimento do mercado por aqui a médio prazo.

3 – Você é parte de um grupo dos pioneiros da house music no Brasil e teve papel fundamental em algumas das primeiras tours de artistas consagrados (como Erick Morillo e Josh Wink) por aqui. Naquela época, como essas turnês eram montadas?

Entao montei minha primeira loja em 1987. A Discomania ficava na mesma galeria onde estou estabelecido até hoje e o foco era venda de musicas para clubs, portanto tudo era importado, não existia o formato digital e muito menos downloads MP3. Tudo era vinil, eu viajava mensalmente para buscar os discos e pesquisar novos lançamentos e tendências do mercado americano e europeu. Eu gostava mais de ir para Nova York, pois ali encontrava praticamente tudo que precisava e naquela época o garage e o house estava bombando na Big Apple. Comprava em grandes quantidades e direto com distribuidoras e labels como Watts Music, Pearl, Strictly Rhythm, Downtown 161, Nervous, Scorpio, Nemesis, Cutting Records entre outras. Por intermédio de alguns labels foi apresentando a alguns Artistas e DJs como Little Louie Vega, Eric Morillo, Armand Van Helden, Josh Wink… fui o primeiro que os trouxe ao Brasil nos meus clubs: Sound Factory Pinheiros e Penha. Outros grandes nomes também passaram pela nossa pista, entre eles Laurent Garnier, Slam, Miss DJAX, Mike Dearborn e muito mais. Teve uma casa do Rio de Janeiro que fez uma parceria comigo, eles tocavam sexta no Rio de Janeiro, sábado e domingo em São Paulo no Sound Factory e voltavam geralmente na segunda feira.

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Oswaldo Jr + Greg Wilson na Mr.Groove

4 – Particularmente, quais são seus estilos musicais preferidos? De uma forma geral, você consegue mistura-los em sua discotecagem?

NuDisco, Soulful, Deep, House, R&B, Disco, Funk, Soul, MPB e Grooves Brasileiros (70 e 80). Sim, gosto da mistura, não curto ficar numa discotecagem reta, pois adoro as variações e a sensível viagem de estilos num mesmo set.

5 – Como você enxerga o atual momento da música eletrônica no Brasil?

Tem muita coisa bacana mais escondida, sei lá acho que por falta de uma maior divulgação e propaganda. Tem uma galera que está em alta e com um poder de mídia e marketing bombástico, mas musicalmente não me agradam.

6 – Estar no centro de São Paulo é uma posição estratégica ou apenas consequência do destino? Você não acha que o cenário triste e pobre da região contrasta com tamanha riqueza que é encontrada dentro da loja?

Nos anos 90 a galeria abastecia o Brasil em discos de vinil para clubs. Eram mais ou menos umas 30 lojas, chegava tudo primeiro ali. Aquele lugar era a referência e com a vinda do digital praticamente deixou de ser. Agora temos o SESC aqui pertinho, que acabou de inaugurar… semana passada o Ivan Lins estava passeando na galeria, acho que irá agregar muito com o local no aspecto cultural da região.

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Mos Def + Oswaldo Jr na Mr.Groove

7 – Quais são as suas secreat weapons, aqueles discos que não empresta e não vende por nada?

Poxa, tanta musica bacana um universo infinito, mas as minhas preferidas são:

Change – Hold Tight
Luther Vandross – Never Too Much
Marcos Vale – Mentira
Tim Maia – Acenda o Farol
Masters At Work – I Can’t Get no Sleep
Lil Mo Ying Yang – Reach
Marvin Gaye – I Want You
Don Downing – Doctor Boogie
Brick – Dazz
HUMAN LEAGUE – HUMAN

8 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

Representa muito, desde pequeno sob forte influencia do meu tio, na fase jovem amador nas festinhas de bairro e escola, até como profissional trabalhando e vivendo de musica há mais de 30 anos. Resumindo: música é minha vida.

A música conecta as pessoas! 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n’ Lights Management.

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