Amanda Mussi é DJ, produtora de festas e designer. Nessa brevíssima descrição você pode imaginar o tanto de informação e conteúdo que essa moça absorve e reproduz diariamente. Toda essa explosão criativa acontece em uma das cidades mais efervescentes do mundo, São Paulo, berço e casa de Amanda, que a escolheu para ser palco de seus projetos. Na capital paulista, Mussi desenvolveu e participou de projetos importantes para a cena independente, entre eles o coletivo Metanol e a Dûsk, evento que completa 2 anos nesse sábado. Conversamos com Amanda essa semana e o resultado é um bate-papo muito interessante sobre sua jornada pessoal e profissional dentro da música. Se liga aí. Música de verdade, por gente que faz a diferença!

1 – Olá, Amanda! Obrigado por falar conosco. Seu som é formado por diferentes vertentes da música eletrônica, certo? Como funciona sua pesquisa musical e de que forma essa versatilidade de influências contribui para sua carreira?

Sim, com certeza. Eu tenho influências de de muitos estilos como música jamaicana(dub/reggae/rocksteady), hip hop, jazz, funk, soul, disco, trip hop… Tudo começou por influências de amigos que pesquisavam e tocavam, aí começamos a trocar música sempre, eu estive rodeada de música a vida toda, tanto em casa quanto na rua. Minha pesquisa funciona muito por internet, e quando posso ou viajo, compro discos e vou assistir/dançar o máximo que consigo quando estou em outros lugares. Como eu trabalho como designer, sempre faço tudo ouvindo música e acabo separando algumas coisas para pesquisar enquanto isso, eu ouvia muitos sets antes de ser DJ, depois comecei a me interessar pelas produções, e a encontrar os selos e estilos que mais me agradam. Hoje em dia eu tenho bem definido o que gosto de tocar e posso dizer que cheguei a uma identidade musical própria, é bastante sobre autoconhecimento de certa forma também. A versatilidade contribuiu para minha carreira pelo jeito em que eu comecei a misturar sonoridades, de uma maneira própria, até firmar uma identidade mesmo. Hoje é bem claro perceber minhas influências nos meus sets. Como venho também de um background de street art, eu flertei muito com hip hop, jungle, dub e gosto muito da semelhança de como os estilos musicais que nos inspiram até hoje, nasceram em sua maioria nos guetos, feitos por minorias, fazendo uma resistência de expressão em cada cena, assim como a house music e o techno nos Estados Unidos.

2 – O ambiente familiar e as vivências da infância costumam exercer papel importante na formação de um artista. Como foi isso pra você? Quais foram os primeiros gêneros que você se encantou dentro da música?

Em casa sempre teve muita música, meu pai é multi-instrumentista, minha mãe compositora e na infância só ouvia música clássica. O primeiro estilo musical que eu me encantei mesmo (sem ser spice girls, essa época não conta [risos]) pelo que me lembro foi o techno/house nos anos 90, pois eu dançava jazz numa escola de dança, e tocava altos hits na rádio, tipo Plastic Dreams do Jay Dee, Crystal Waters, etc… Eu pirava, dançava muito nas festinhas também. Na adolescência eu fui do punk rock e hardcore e paralelamente comecei a ir em festas de drum n bass com uns 14/15 anos, depois disso vieram as raves de techno.

3 – São Paulo é uma cidade cosmopolita que oferece diversos tipos de pistas para uma DJ como você estar em contato. Como a cultura da capital paulista e seus traços contribuíram para sua formação artística?

Acredito que a vivência dentro dessa cultura extremamente urbana de SP me trouxe uma certa densidade musical e criativa num geral. A cultura musical daqui é bem variada mesmo, mas tudo de uma certa forma carrega essa energia densa de cidade grande, é uma característica de grandes metrópoles eu diria. Uma mistura de tensão, mistério, muito concreto e caos junto à energia criativa, feliz e dinâmica das pessoas/cenas. Eu acho SP uma cidade muito foda, não queria ter nascido em outro lugar.

4 – No próximo sábado a Dûsk, festa que você organiza, completa 2 anos. Fale um pouco a respeito da história desse projeto e das expecativas para a edição comemorativa

Sim! a Dûsk é como se fosse minha filha <3 tá crescendo, tomando forma, e conquistou bastante gente já. Eu olho para quando comecei e não entendo como sai fazendo tanta festa assim em 2 anos. Sinto que a festa amadureceu muito, no começo tudo era mais inocente, despretensioso, sem muita preocupação, quando foi tomando forma e cativando o público eu vi a responsabilidade que estava em minhas mãos ao proporcionar essa experiência para as pessoas. O projeto começou a convite de um espaço lounge, e levei depois para praças no centro da cidade, a proposta musical é focar nos gêneros Techno e House, com influências dub, acid, Detroit e Chicago, passeando por alguns estilos como minimal e disco também, eu procuro manter cada edição focada em uma linha desses gêneros normalmente. O conceito musical da festa é muito do que eu toco também, obviamente, e foge um pouco dos gêneros deep house, progressivo, tech house.  A próxima edição será num club com ares góticos,  dark rooms e lasers, perto do centro. A pista é perfeita para o público da festa, que gira em torno de 250 a 300 pessoas, vai rolar um soundsystem envolvente e novidades visuais que estou produzindo.

5 – Você participou do coletivo Metanol, um dos núcleos referências da cena paulistana. Fale um pouco sobre esse período

Foi na Metanol que eu comecei a discotecar com frequência. Muitos de nós já eramos amigos faz tempo e foi uma junção musical natural que aconteceu para formar o coletivo. Fiquei 1 ano com eles, tocando bastante, fazendo residencias e festas de rua. Aprendi demais, principalmente a produzir festas, além da troca musical que sempre foi intensa. Ao longo do tempo senti necessidade de ter meu próprio projeto e que minha linha musical estava caminhando para outros ares. Decidi sair do coletivo e logo depois comecei a fazer a Dûsk. Eu ainda toco com bastante frequência nos eventos deles e é muito legal ver como a pesquisa de todos se reencontra nessas oportunidades e que mesmo estando em cenas um pouco diferentes, nossa linguagem conversa muito ainda. Além disso tenho muito respeito e amizade por todos eles.

6 – De que forma você enxerga o mercado da música eletrônica para as mulheres que já estão começando agora e para as que já alcançaram o sucesso?

Ultimamente tenho me surpreendido com a quantidade de mulheres DJs/produtoras que andei descobrindo, tão incriveis!
É impossível não falar de machismo sobre o mercado da música, ainda rola muito, em todos os âmbitos como line-ups, mérito, produção musical, técnica… mas acredito que estamos caminhando para deixar de ser uma minoria no mercado numa escala que só aumenta. Estamos num momento de empoderamento muito forte, e as minas estão deixando a insegurança e opressão de lado e sendo quem elas querem ser. Acho imprescindível rolar um apoio mútuo entre todas para fortalecer e dar o exemplo do nosso gênero dentro desse meio que é predominantemente masculino. Acho que é importante ter consciência dessa responsabilidade, principalmente por parte de quem já alcançou o sucesso e tem mais visibilidade. Já por outro lado estamos num momento onde a imagem da DJ mulher virou também uma coisa caricata com a moda de ser DJ. eu recebo emails falando “gostaria de contratar DJ mulher para evento em hotel” é quase um comercial de cerveja [risos]. Sempre dão um jeito de estragar as coisas.

7 – Como você analisa o atual momento da cena independente de música eletrônica no Brasil?

Obviamente a cena de SP e do Brasil está explodindo, tá um momento muito bom. Em SP desde que a Voodoohop começou a fazer as festas na rua, a cidade nunca mais foi a mesma, os eventos independentes cresceram por km, o centro lotou, muitos lugares foram ocupados e rolou novamente um frescor que faltava à alguns anos na vida noturna daqui. Temos DJs, produtores e músicos de altíssima qualidade, eventos incríveis, com atrações de todos os lugares e uma liberdade que não se tem dentro de clubs. Eu adoro uma pista de club, mas infelizmente aqui em SP alguns deles se tornaram ambientes opressores e inacessíveis e não cabem no momento que estamos vivendo. Outro lugar que posso falar é do RJ, é impressionante ver como a cena de lá cresceu e a variedade musical que eles têm. Eu toco lá direto, tem os núcleos 4Finest Ears, V de Viadão, o club Eden, Rádio magma, 40% foda/maneirissimo, Domina… tem muita gente fazendo coisa legal por lá. Estão aparecendo cada vez mais selos, núcleos e festas no pais todo e os artistas estrangeiros querem cada vez mais vir tocar aqui, acho que estamos bem visíveis no mapa da música eletrônica atualmente. Agora vamos ter uma nova fábrica de vinil aqui em SP (Vinil Brasil), que vai ser algo maravilhoso para a música independente, acredito que teremos um material nacional e de qualidade em breve, isso pode mudar muita coisa na forma de consumir e exportar música.

8 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música é a maior experiência sensorial pra mim. Ela preenche minha alma e me faz ir para diversos cenários dentro da minha mente. Ela me da energia, liberdade, calma, atenção ou distração quando preciso. A música é amor em forma de som, é quase como se ela fosse um lugar onde me sinto extremamente confortável. 🙂

Foto Dûsk: Luana Schwengber