Xama entrevistas: 1010

Como já destacado por aqui, o Xama, festival de réveillon organizado por Gop Tun e Selvagem, será totalmente comandado por coletivos brasileiros. Mais do que simplesmente coloca-los em posição de headliner, a organização está projetando um encontro que tenha foco total nesses players, que em algumas situações acabam não recebendo a devida atenção e espaço.

Pensando nisso, estamos lançando uma série de entrevistas especiais com os coletivos convidados para fazer parte do Xama 2019. Serão 9 bate-papos até a semana do evento, com perguntas respondidas pelos cabeças destes núcleos. As questões enviadas para cada grupo são iguais, já que assim conseguiremos traçar um panorama mais claro sobre a posição de cada um ao fim da ação. Toda entrevista estará acompanhada de uma playlist divulgada no Spotify da Gop Tun.

Abrimos as conversas com o pessoal da 1010, coletivo mineiro que tem revolucionado a cena em Belo Horizonte e região com uma assinatura própria e dinâmica de trabalho marcada pela união entre amigos apaixonados por música. Helena Hauff, Mauricio Lopes, Noporn, Thomas Von Party, Valesuchi e a própria Gop Tun estão entre as atrações recentes da festa. Arthur Cobat fala com maior profundidade sobre o trabalho desenvolvido:

Alataj: Olá! Tudo bem? Podemos começar com um panorama geral de Belo Horizonte e da 101Ø? Quais sãos os prós e contras de estar estabilizado por aí?

Arthur Cobat: A 101Ø nasceu em 2015 quando um grupo de amigos apaixonados por música resolveu criar uma festa para pagar as contas do apartamento em que moravam, no centro de Belo Horizonte, número 1010. Era uma casa com 2 produtores e 3 DJs, então a ideia criou forma e fizemos uma festa em um local alugado. Conseguimos comprar um pouco de comida com o dinheiro da primeira festa, mas infelizmente tivemos que entregar o apartamento. Entretanto, a vontade de seguir com a festa permaneceu e daí começamos com a ideia de ocupar viadutos e vias públicas levando o nosso som, da forma mais underground possível. O público foi crescendo, as pessoas se interessando por esse contexto de ocupações através da música, principalmente tribos mais marginalizadas, universitários, LGBTQIs… hoje nós lidamos com uma média de 1.000 pessoas em nossas festas pagas e já levamos 4 mil pessoas em uma festa de graça.

Isso não é uma grande novidade por aqui, especialmente porque no final dos anos 90’s e começo dos 00’s Belo Horizonte teve um nome forte no cenário eletrônico nacional, mas tudo estava meio morto na cidade. Então nos últimos 3 anos surgiram coletivos de música eletrônica em BH com o objetivo de fazer festas mais democráticas, no melhor estilo “faça você mesmo”, DJ de laptop, na raça. Tudo isso foi importante para chegarmos ao que temos hoje, fortalecer a cultura eletrônica na cidade, fazer conexões com coletivos de outros estados que vivenciam a mesma realidade e criar a partir daí um intercâmbio de artistas independentes.

Isso fez com que essa nova geração de apreciadores de música eletrônica se conectasse com a geração antiga que já estava na cidade e criassem um forte laço entre a pista e quem a produz, porque não existem grandes empresas por trás das nossas festas. Então uma das coisas positivas de se estar inserido na cena de Belo Horizonte é esse sentimento de amizade, loucura e entrega das pessoas nos rolês por se sentirem parte daquilo (e são!). Paralelo a isso, com o passar dos anos nós mesmos criamos a consciência da profissionalização do nosso negócio para poder expandir o que já tínhamos, mas mantivemos uma comunicação muito direta e sincera com nosso público. Além disso, está se criando um núcleo onde LGBTQIs, mulheres, negros e minorias tem seu espaço respeitado, porque as festas são feitas basicamente por essas pessoas, então nós entendemos as necessidades e ouvimos essa galera.  Tudo isso faz da nossa pista ser enérgica, unida, um local de entrega. Arrisco a dizer que temos a melhor pista do Brasil e todo mundo de fora que toca aqui concorda.

Porém, ao mesmo tempo esbarramos no fato das coisas estarem sendo reconstruídas por aqui, então ter planos ambiciosos de produção ainda é bastante delicado para nós, porque o público ainda está aprendendo de fato a valorizar financeiramente o corre que fazemos, os artistas que trazemos de fora e porque fazemos tudo de forma 100% independente. Mas nos orgulhamos muito do que já construímos e ainda iremos fazer aqui em Belo Horizonte. Definitivamente não entregamos nada inferior do que se tem feito hoje em outras cidades maiores do país.

A figura do DJ residente tem se fortalecido muito entre os principais coletivos do Brasil. No caso da 101Ø, como foi esse processo de escolha até chegarmos a esses nomes que representam vocês hoje?

Nossos residentes carregam os nosso valores, o que acreditamos, o tipo de som que curtimos. Também prezamos muito por uma identidade sonora marcante e sincera. Nós estamos inseridos em uma cena onde o DJ é aquela pessoa que precisa interagir com a pista, porque nosso front é interativo, grita, chora, é presente, então o residente precisa ser a nossa melhor forma de exportar para outros lugares essa maluquice que percorre o espírito 101Ø. Hoje temos 4 residentes: Omoloko (um dos fundadores do coletivo e um dos principais nomes da cena eletrônica atual mineira), Moretz (que carrega um carisma e uma sonoridade alegre e pulsante, a cara da nossa pista), Jota Januzzi (nome presente na cena eletrônica há anos e com uma identidade sonora forte e uma experiente vivência de pista) e a Barbara (uma das gêmeas que fazem parte da produção da 101Ø também).

Muito se fala sobre a valorização do cenário regional para o fortalecimento macro da cena. Em Belo Horizonte, como vocês têm buscado alavancar esse aspecto? Há um diálogo com outros coletivos e marcas ligadas à arte de um modo geral?

Hoje a 101Ø só existe porque acreditamos na valorização da cena regional. Quando começamos com o tudo isso a gente não se inspirava no que acontecia em São Paulo, Berlim etc, mas sim no que já rolava aqui em BH com o Duelo de MC’s (Família de Rua), Movimento Soul BH e outros coletivos que já estavam presentes na cidade há anos. Nós respeitamos e admiramos vários profissionais da cena de outros estados e não estamos falando que somos autossuficientes, mas só que as nossas maiores influências e foco são pessoas aqui de Minas Gerais mesmo. Nós temos aqui a maioria das coisas que precisamos e sempre foram suficientes para fazer a festa ser inesquecível.

Desde o nosso início carregamos com a gente uma galera que acreditamos, porque uma cena não se constrói só com música. Aqui temos performers incríveis como a Wandera Jones e Femmenino; DJs de alto nível musical como o Kureb, Omoloko, Jota Januzzi; artistas gráficos e têxteis como o Goma, Lâmina Company, Quem BH; ótimos fotógrafos com o pessoal da Underlight. Também temos uma parceria estreita com o Deputamadre Club, que está na cena eletrônica de BH há mais de 15 anos resistindo e sendo um espaço essencial para DJs novos e antigos – sempre procuramos inserir essa galera toda em nossas festas, são todos corres independentes como nós.

Também temos um perfil no Soundcloud com podcasts de DJs 100% locais e alguns amigos DJs de fora que estão com a gente desde o início de tudo. Além disso, há um diálogo bastante respeitoso com os outros coletivos de música eletrônica da cidade, cada um de nós, com as suas especificidades, é essencial de alguma forma para manter uma cena sustentável aqui em BH. Nós fazemos uma festa conjunta no carnaval chamada Mikatreta, que reúne há 3 anos artistas de vários lugares do Brasil, mas com produção 100% dos coletivos daqui. Juntos criamos um dos carnavais eletrônicos mais legais do Brasil e ele só cresce a cada ano.

Como surgiu o convite para ser parte do Xama? O que isso representa na história da 1010?

Fizemos um ensaio fotográfico do OMOLOKO de sunga branca em uma piscina de plástico, tomando uma água de coco na laje e mandamos um e-mail para o pessoal da Gop Tun com o nosso portfólio de festas falando: esse réveillon de vocês vai ser uó sem umas malucas aí no meio para bagunçar essa praia da forma que ela merece. Eles responderam na mesma hora elogiando a sunga branca do OMOLOKO e convidando a gente oficialmente.

Depois ficamos sabendo que vários amigos e DJs que já passaram pela nossa festa e que pagamos caro no cachê também iriam tocar no Xama. Aí caímos na real que o negócio iria ser sério mesmo e ficamos muito felizes, porque não é todo dia que um coletivo de fudidos que não conseguiam nem pagar a conta de luz de um apartamento, são bookados pra chegar de bonde na Bahia, né?! Já até atualizamos o portfólio da 1010 com o banner do Xama e print do nosso nome que está lá no site. Também mandamos fazer um quadro da sunga branca do OMOLOKO, porque deu sorte. Mas está sendo incrível, principalmente porque temos baianos em nossa crew, então é um estado que mora em nosso coração de várias formas.

Pensando e falando um pouco mais da nossa cena como um todo. Quais alternativas vocês consideram viáveis para termos uma cena mais sustentável nos próximos anos?

Dar espaço para novos talentos. Não dá mais para ficar andando em círculos com as mesmas peças do jogo, tem MUITA gente foda fazendo coisas incríveis e enlouquecendo uma pista de dança, mas que não está em evidência no eixo SP-RJ. Sair da curva é essencial, porque o Brasil é gigante e tem muita gente que pode contribuir para tornar tudo isso aqui cada vez mais plural. Paridade de gênero nesses lineups aí também é um ponto essencial. É importante também criar canais e ferramentas que incentivem as pessoas a buscarem mais sobre música, sobre o que é ser DJ, sobre o que rola em uma produção. Nenhuma cena vai para frente se o público não se sentir parte dela ou querer fazer parte dela de alguma forma. A 1010 ainda é nova, mas já aprendemos muito com pessoas experientes de gerações e cenários diferentes do nosso, então repassar experiência é o que vai perpetuar essa cena que temos hoje por muitos anos e fazer ela se renovar a cada dia. Foi o que falamos acima: olhar de dentro para fora, o que se produz aonde você está. Captar o regional e transformar ele em macro!

Se fosse pra resumir a história musical da 101Ø em apenas uma frase, qual frase você usaria?

“Xia Menos, eu imploro!” É uma gíria criada pelo nosso público. É bem normal ouvir isso pela pista de BH quando tem um DJ muito incrível mandando bem. Daí as pessoas gritam “Xia Menos, eu imploro!”. É basicamente o mesmo de “pelo amor de deus, eu não aguento mais tanta lacração da sua parte, para de ser maravilhoso, eu imploro”.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música foi o que uniu todos nós da 1010, dentro e fora do coletivo. Fora porque todos somos melhores amigos com gostos musicais que se conectam e saímos por aí andando a noite com o som do carro tocando no talo Erykah Badu e Madonna. E dentro porque a 1010 é a nossa principal fonte de renda hoje. É dela que muitos se sustentam, como DJ ou produtor. O coletivo um dia pode passar, as conexões que a música nos proporcionam também, mas a música em si vai sempre estar ali aproximando pessoas e mudando vidas, como tem feito com as nossas! Ela é uma das essências da vida!

A MÚSICA CONECTA. 

Fotos porLucas Chagas (Underlight)


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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