Franck Roger ocupa um espaço de respeito entre um grupo seleto de artistas que fazem da música eletrônica um campo aberto para construir narrativas e a própria identidade. Presente na cena desde o final dos anos 90, o DJ e produtor parisiense se destacou unindo os estilos House e Deep House à influências que vão do soul ao jazz, desenvolvendo uma assinatura sonora que, mesmo quando minimalista, sempre conversa com a pista de dança. Suas produções estão associadas a selos como Versatile, Planet E e Silver Network. Além disso, Roger também ajudou a pavimentar o caminho para novos talentos por meio de seu próprio selo, Real Tone Records.
Agora, ele apresenta seu EP, intitulado Can U Believe, pelo selo nova-iorquino Vibe Me To The Moon Records. A gravadora, que desde 2017 vem construindo um catálogo sólido com nomes como Roland Clark, DJ Spinna e Huxley, recebe Franck Roger mais uma vez para um lançamento que explora as nuances que transitam entre o soul e a House Music. Entre as faixas do EP, In The Morning merece um destaque especial. Nessa composição, Roger colabora com Shawn Chapelle, que juntou seus vocais a uma linha de baixo densa, remetendo à uma viagem aos anos 80. Completam o EP a faixa-título, Someone Now e New Balance.
Franck construiu uma trajetória pautada por autenticidade dentro da música eletrônica, já que, mesmo em um cenário que muda constantemente e, por vezes, exige adaptações nas criações dos artistas, ele não abre mão da essência que carrega há mais de vinte anos e isso é um dos grandes pontos-chave que mantém a sua relevância até os dias atuais. Mas quais são suas percepções sobre o presente e o futuro da cena? O que ainda o desafia? É o que ele nos conta a seguir.
Você se vê produzindo, se apresentando e viajando com a música até o fim da sua vida?
Viajar vai ter que acabar uma hora ou outra. Já tenho 30 anos viajando pelo mundo e me sinto abençoado por tudo o que vivi e experimentei… mas a parte da produção vai ficar até o fim, com certeza.
Qual o lado negativo de ter uma carreira na música?
Tem muitos… por exemplo, viajar por 4 semanas para o outro lado do planeta sozinho não é algo que eu faria novamente, dá muito trabalho e você se sente sozinho. O único momento em que você está com as pessoas é durante o seu set, o resto do tempo é fazendo check-in e check-out, viajando, etc. Esse é o lado negativo do nosso trabalho, ficar sozinho a maior parte do tempo.
Como você lida com críticas direcionadas à sua arte?
Muito bem. A música e a arte são sempre criticadas, mas no meu tipo de nicho, eu não vejo isso com tanta frequência. Recebo mais amor do que coisas negativas, então, enquanto as pessoas gostarem da minha música, eu sou um homem feliz.
O que é mais importante quando se prepara para um show?
As playlists organizadas na minha caixa de discos… para mim, eu não consigo tocar uma música que acabei de pegar ou que não conheço do começo até o fim. É muito importante saber o que você vai tocar e em que ordem… depois disso, sempre adapto a minha música para as pessoas, que são sempre diferentes e estão em constante mudança também. Eu não comprometo nada do que vou tocar, porque estou aqui para defender um tipo de música no qual acredito, depois de todos esses anos.
Algum artista ou música já mudou a sua vida? Se sim, qual?
A música mudou a minha vida desde muito jovem. Eu cresci com o que podemos chamar de melhor época da música, então, nasci na época certa, em 1976… tivemos os anos 80 e 90 para ter uma ótima educação musical. Não diria que isso acontece hoje em dia.
Qual foi o maior desafio que a música já trouxe para você?
Os desafios surgem quando você tem que fazer algo que não sente ou não quer… no meu caso, nada foi um grande desafio.
A indústria da música está passando por um período saudável agora?
Há coisas boas, quando aparecem… mas, de modo geral, eu diria que não. Não estou muito feliz com o que ouço no rádio ou nas lojas de discos. Algumas coisas são exceções, e sou grato por isso, mas com certeza já vivi tempos musicais melhores.
Fale um pouco sobre o que você considera mais relevante: uma grande ideia ou uma rotina de trabalho disciplinada?
Sou uma pessoa disciplinada, faço música todos os dias, dia e noite, é sem parar. Essa é a minha disciplina, tudo porque amo o que faço.
Qual é o momento ou conquista mais importante da sua carreira até agora?
Todo dia é uma conquista para mim como produtor e DJ. Cada dia é uma bênção estar aqui, depois de todos esses anos, e continuar levantando a bandeira do Deep House e também do nosso som francês.
O que faz um set ser realmente inesquecível tanto para o artista quanto para o público?
Liberdade, em uma palavra! Se você é um bom DJ, vai conseguir tocar o que quiser para qualquer público… já toquei para 20 pessoas na minha frente e para 2000 ou mais. O desafio aqui é tocar para uma multidão que nem sabe porque está ali, mas, enquanto eles continuam dançando, e nós compartilhamos algo, parte da minha missão está cumprida. E não importa o tamanho da plateia, cada ouvinte é importante.
Qual é a sua opinião honesta sobre a pirataria digital?
Nada boa. Apoie a ARTE de diversas formas, sem ARTE não há VIDA.
Como você vê a relação entre a sua identidade pessoal e a sua identidade como artista?
Elas são a mesma coisa. Sou a mesma pessoa por trás das picapes ou no meu banheiro. Sou igual a todo mundo, precisamos parar de colocar os DJs em uma cadeira de cristal. Não estou nessa e isso acaba com o propósito do que fazemos… digamos que sou um bom pregador.
O que te orgulha no seu trabalho/música?
O que eu conquistei e o que vou deixar para trás. Essa é a minha única motivação.
Qual a principal mensagem que você quer passar através da sua música?
Através da minha música, deixo as pessoas entrarem no meu mundo. Minha mensagem é de felicidade e paz, algo que traz conforto para as pessoas.
Quão importante é colaborar com outros músicos para a sua criatividade?
Eles precisam agregar algo. Não vou colaborar com alguém que não tenha habilidade, preciso de alguém para trabalhar junto e trazer a música ou a faixa para um lugar que eu não consigo encontrar sozinho.