Sejam bem-vindos de volta a uma das colunas mais bonitas do Alataj, mas antes de começar, preciso fazer uma indagação e compartilhar um fato: sabe quando a sua conexão com uma música é tão visceral que o subconsciente te faz sonhar com ela? Pois é, a noite que antecede esse texto me presenteou com em uma viagem no tempo, de volta ao momento em que ouvi essa música pela primeira vez. Acredite se quiser, lá estava eu, com 13 anos, uma adolescente em conflito, discutindo por qualquer motivo simplista com minha mãe, quando ouvi At Night no rádio do carro. Ela, com a jovialidade dos 40 e poucos, me fez parar e com uma dancinha de ombros, disse: Gostei dessa, hein? Naquela tentativa bem maternal de desvirtuar crises com qualquer coisa que surgir na frente. De fato, ela realmente tinha gostado e eu também e dali em diante essa passava a ser “a nossa música” que sempre tocava na rádio. Além do clipe na MTV, of course.
Parece que tirei o parágrafo acima da minha imaginação e confesso que o ceticismo também me atingiu hoje cedo quando fiquei tentando entender o acontecimento e como isso impactaria no texto que já estava roteirizado. Sigo bastante intrigada com esse sonho que mais pareceu uma visita à outra dimensão e é assim que inicio mais um capítulo da Iconic. E quando digo que essa coluna é uma das mais bonitas eu não estou brincando, quem vem aqui contar histórias normalmente acaba narrando fatos pessoais sobre essa conexão mágica que não respeita a cartilha do tempo. Alguns casos, até acontecimentos curiosos acontecem para reforçar o tamanho dessa conexão, vide parágrafos anteriores.
Afinal, estamos falando do início dos anos 2000, quase 20 anos de história. Boa parte de nós éramos muito jovens, alguns de nós jovens até demais para ouvir música na rádio, como eu fazia. Os gostos e preferências ainda eram precoces, mas a lapidação já estava acontecendo comigo. At Night, como contei, tocou constantemente na Jovem Pan naquela época. Então, lá estávamos, em 2002, tempos completamente diferentes, as coisas estavam chegando por aqui nesse espectro e o nicho começava uma efervescência sobre o novo. Não é exagero dizer que o Shakedown deu um empurrão e tanto para avançarmos, assim como tantos outros hinos da Dance Music que tocavam nas rádios naqueles tempos.
O projeto conduzido pelos irmãos suíços Stephan Mandrax e Sebastien Kohler não tem outro grande feito como esse, mas às vezes, você só precisa de um grande hit e voilà: você se consagra. Shakedown vinha ao mundo em uma fusão que combinava o House, o Electro, o Funk, o Disco e algo que me lembra bastante o French Touch. Tudo isso de um jeito meio cósmico. Get Down e Love Game também imprimem essa estética ao lado de sua irmã famosa. A faixa ganhou vida em 2001 no primeiro álbum deles, You Think You Know, mas foi relançada em 2002 pela Defected Records, que naquele momento dava seus primeiros passos.
O disco era composto pela original mais oito remodelações que já traziam um presságio: essa música seria remixada incontáveis vezes no futuro. A original alcançou a sexta posição da UK Singles Chart e sendo os britânicos, grandes fazedores de tendências, isso reverberou pelo globo. Eles fizeram uma aparição emblemática no programa de televisão da BBC, Top of the Pops (atenção ao nome), que trazia os irmãos vestidos de astronautas com seu setup e a vocalista Terra Deva, responsável por assinar esse vocal, com dançarinos. E isso é absolutamente poético. A faixa traz bem essa mistura que eles buscaram no projeto, sendo toda concebida por synths, das influências New Wave deles.
No mesmo ano de lançamento da Defected, outro acontecimento marcaria essa e toda a história ao redor. O revolucionário Big Beach Boutique II que narra uma rave sem precedentes em Brighton Beach com Fatboy Slim tocando. E adivinha que música estava contemplada nessa seleção? Sim, ela mesma, na versão de Kid Creme com o seu Club Mix. Aliás, essa é uma parada obrigatória para todo clubber, raver ou como quiser chamar. Esse DVD por si só nos renderia uma monografia dessa coluna.
Como grande fã, fui atrás de todas as outras versões, algumas delas com abordagens totalmente diferenciadas: Afterlife Remix (não o de Techno Melódico, mas uma as faixas mais bonitas da vida – eu sei, sou suspeita), Rules Of The Deep Remix, Alan Braxe Remix, Jack Thaisoul Love Dub Remix, Jazz N Groove Prime Time Remix, Mousse T’s Feel Much Better Remix. Mas calma, que não termina aí. Em 2018, a Defected escalou grandes nomes para reviver a história: Tiger & Woods Remix, Purple Disco Machine Remixe Peggy Gou’s Acid Journey Mix, é moral que chama, né?
Os próprios donos da faixa colaboraram trazendo a Shakedown’s Galactic Boogie Mix – minha preferida. Isso é o que consta no catálogo das plataformas, mas no informal existe muito, muito mais. Fora o vocal Acapella que é constantemente escolhido para os mash-ups por aí e vocês sabem bem o efeito disso na pista de dança. Então, depois desse mergulho nas tantas facetas desse ícone tão atemporal, tenho certeza que você sairá daqui cantarolando: It seems I can’t deny some days just don’t seem right I think I feel, I feel much better at night, provavelmente imitando a cantora na segunda estrofe e dando risada no final de tudo. Obviamente que eu fecharei esse texto e levarei essa música para minha mãe, que já não gira tantos pratos para driblar minhas crises, mas que nos seus 60 e poucos precisa saber desse sonho maluco e viajar no tempo para aqueles dias com a nossa música.
A música conecta.