Baterista de mão cheia e uma bagagem de experiência que condensa um know-how de alto calibre técnico dentro de estúdio. Esse é Tuto Ferraz, o nome por trás do projeto Zarref que consagra um multiverso musical dentro de seu experimentalismo eletrônico. Tuto é do tipo de artista multi-task. Está a frente do projeto Grooveria e Tuto Ferraz Quinteto, onde a MPB e os passeios pelo Jazz e pelo suingue, são seus combustíveis.
Apesar de produzir há tanto tempo, Tuto decidiu que 2021 seria o momento de soltar o disco no mundo e definitivamente “expor” este seu lado eletrônico. E é sob a alcunha de Zarref e com o álbum Sundaes Bloody Sundaes eu essa aposta se reforça, apresentando um passeio dinâmico entre diversas vertentes, sem necessariamente se rotular a nenhum especificamente. Abrindo um pouco da caixa de pandora que constitui a complexidade do novo álbum, Zarref compartilha aqui no Papo de Estúdio algumas etapas de seu processo produtivo. Confira!
Start Criativo
Tem algumas situações que propiciam o start criativo: pode ser uma melodia ou riff (seja de qual instrumento for baixo, bateria, teclado ou guitarra) que fica rondando a minha cabeça; ou estando sozinho em casa (daí o Sundaes Bloody Sundaes), experimento alguns plug-ins de teclados, e a partir daí encontro os timbres que me inspiram.
Setup
Pras criações do Zarref eu uso o Logic para todos os instrumentos virtuais e instrumentos de verdade, bateria, guitarra, baixo elétrico e voz. Gosto também de usar umas baterias analógicas tipo a minha Simmons SDS8 para produzir uns subs radicais também, mas a maioria dos teclados e efeitos são o que a gente chama de “inbox”, ou seja, tudo dentro do computador pelo software que no caso é o Logic.
Bateria x Programação Eletrônica
A música eletrônica usa bastante do recurso de repetição de patterns né? E isso é um prato cheio para um baterista que gosta de tudo, então a mistura de elementos rítmicos se torna inevitável.
Uma dica que eu uso e vejo vários produtores bons usarem, é usar mais de um timbre em cada região (grave médio e agudo – exemplo , Bumbo, Caixa e Hihat) para criar envelopes de dinâmica mais expressivos, deixando a programação “mais orgânica” e com isso menos dura ou robótica. Usar níveis diferentes de quantize e tentar programar até sem quantizar é uma coisa que traz uma maior riqueza rítmica do que aquelas 16 possibilidades de posição em relação ao pulso que você tem num compasso quantizado a 1/16, por exemplo. Com isso a gente pode preservar as nuances de cada sotaque rítmico e fazer a música eletrônica atingir outro patamar de groove.
Improvisação dentro de estúdio
Acho que na improvisação você tem um desafio básico, não dá tempo de filtrar e reprimir nada, senão acaba travando o próprio improviso, e acho que no caso do Zarref, deixar que as primeiras ideias se desenvolvam é um pouco isso. E talvez por essa ligação com o improviso que a necessidade de se encaixar dentro de algum nicho caia por terra nesse trabalho.
Tem um Zarref todo acústico pronto para ser “libertado” e uns “Early Works” que foi onde tudo começou, fazendo uma trilha para exposição de um artista plástico brasileiro que era radicado em NYC, o Duda Penteado. Essas tracks, na época os amigos dele na vernissage classificaram como “cutting edge “ da música eletrônica, isso no começo dos anos 90. As tracks, tadinhas, nunca “viram a luz do dia” fora no dia da vernissage em NY, mas agora com a facilidade que toda essa indústria do streaming e da internet como um todo propiciam, chegou a hora delas!
Equilíbrio de Mixagem Multi-Track
Eu como um bom libriano adoro achar o equilíbrio entre as coisas, e acho que você tem mesmo que aliar o senso estético e a técnica para conseguir esse balanço, acho uma das partes mais divertidas e tem também aquele clássico ditado: “Mixagem você não termina, abandona!”
O número de possibilidades de mix que uma sessão multi-track oferece é literalmente infinito! Então você tem que elencar quais elementos são os protagonistas, quais os coadjuvantes e quais os extras, e ir ajustando isso conforme a parte técnica, que é você cuidar para não sobrarem frequências, que podem soar bem num equipamento e péssimo em outro.
Acho fundamental conferir em vá referências e inclusive em dias diferentes! Começando pelos monitores e fones do estúdio, passando pelo carro, caixinhas mono, estéreo, no celular, no fone xyz, no som da sala, etc. O objetivo final é que fique bom em todas! E pode ser que sensacional talvez fique apenas em uma ou em outra, mas tem que passar a vibe que você quer em todas, sem estourar em nenhuma.
A música conecta.