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A música conecta

Cena saudável = profissionais férteis

Por Salomão Augusto em Trend 16.01.2024

Comece. O difícil é começar. A cena em qualquer lugar tem muitos vícios e problemáticas a serem tratados. São sintomas que passam de geração em geração erroneamente e que são calcificados num corpo rígido, onde cria-se uma espécie de insuficiência no ato dos rumos tomados por profissionais que estão mal acostumados a não se unir para transformar. 

Um exemplo de união transformadora de ótica mais recente é a de três artistas em específico: Illusionize, Victor Lou e Visage, onde uma amizade fiel foi e é o combustível para o sucesso do trio. De mãos dadas, os três hoje colhem os frutos de uma mão segurando a outra e as duas auxiliando a subida para o palco.

As convicções de muitos são o que outros tantos buscam ter e não conseguem entrar em um meio termo. Hoje, ao invés de pensar com coletividade, grandes marcas preferem fazer vista grossa para artistas com diferentes abordagens e isso reflete diretamente para quem é ativo na pista.

A verdade absoluta nunca existiu quando tratamos de música eletrônica, pois estamos falando de um nicho musical no qual é fluido desde seu nascimento no início dos anos 70. No entanto, existem alguns resistentes que ainda insistem em fechar esse cerco para quem toca ou tem preferência por determinados tipos de som ou até mesmo pela diferenciação de equipamentos e afins. O buraco é mais embaixo, mas é a partir dele que começamos a evoluir. A ideia de coletividade com o campo atual em que vivemos é o “corporativismo relativo”, onde profissionais só trabalham com profissionais de uma bolha específica, formando coletivos vazios e desorbitados.

As amarras perdem a força a partir do compartilhamento de conteúdos, ideias e principalmente de espaços acessíveis e interessantes a todos. Quando há restrição em um certo campo, a tendência é que uma espécie de segregação automática de um determinado grupo de pessoas aconteça, criando uma disparidade que tende a aumentar.

Quando passamos a olhar por outras perspectivas para este ‘buraco’ onde estamos, as coisas ficam mais claras: o olhar não tem que vir de cima para baixo, ou de baixo pra cima (em âmbito de superioridade); os níveis são iguais e devem caminhar para um mesmo destino juntos.

A pandemia de 2020 nos separou como pista, mas nos uniu como front social em alguns aspectos. As ações tomadas como lives comunitárias, discussões em lives de entrevistas e demais correntes criadas nesse período precisam permanecer em modo perpétuo para que isso seja uma base de transformação de visão para os novos profissionais que estão pisando nesse terreno agora. 

Desde então, o nicho da música eletrônica mergulhou em uma retomada jamais vista na história do mercado (como em todos os outros do mundo todo). Mas há solução e uma possível saída deste buraco, certamente pautada pela união e fortalecimento de todas as frentes, principalmente das minorias que na era AC (antes do Corona) não eram representadas e que hoje, são protagonistas importantes não só por conta da acessibilidade e motivação pela mudança, mas também por uma real meritocracia. 

Compartilhar para evoluir

A principal chave para a harmonia entre os braços que formam o universo da música eletrônica no mundo é o conhecimento, a acessibilidade e o estabelecimento de um senso de igualdade. Essa é, inclusive, a intenção dos encontros que acontecem pelo Brasil e no mundo em diversas épocas do ano, tais como as convenções nacional/latam e global da BRMC, as rodas de conversa extremamente necessárias da DJ Ban; os encontrões da Yellow em Curitiba e dentre outros menores como a COOLLAB que acontece em Goiânia e os recém criados pós-pandemia , o Minas Music Week e o EXPO E-MUSIC & ART, que como os outros visa reunir os profissionais da música eletrônica do Brasil todo para irrigar as cenas locais, deixando assim, o cenário mais forte.

Foram citados somente os encontros que a música eletrônica é protagonista, porque se formos entrar no campo da música em geral, a lista é bem grande com representantes como SIM SP, WME, Música do Mundo e outros tantos tradicionais encontros. 

Esses pequenos (outros nem tanto) pontos de luz são sal numa terra infértil ainda, mas tem feito bastante movimentação no cenário nacional. Lugares e momentos como esses dão uma melhor visão e vazão para quem está querendo iniciar nessa jornada, e claro, também impressiona muitos veteranos que até então desconheciam essa possibilidade de união vinda por novas cabeças do mercado. O que também se deve alertar é o fato de que isso tudo que estamos usufruindo hoje foi galgado por outros pés, ou seja: há a necessidade de uma conservação deste espírito para que a mensagem não caia e seja esquecida paulatinamente.

O indivíduo só percebe que precisa do outro para alcançar os seus objetivos quando não sabe desenvolver determinada função ou demanda e acaba esquecendo que, ninguém nasce grande e nós nascemos e morremos dependendo e auxiliando outras pessoas para tudo. Repita comigo o mantra: para aquilo que eu não posso modificar, que eu entenda e aceite para então poder fazer parte ou deixar fluir.

Sem amarras ou “partidos do BPM”

Você do techno, da house music ou você do bass, do rap ou até mesmo do funk brasileiro, tem que passar a entender que tudo o que você ouve ao seu redor é eletronicamente produzido. Desde o primeiro beat até a fase de mix e mastering. 

Não tem essa de segregar o amiguinho só porque ele tá faz mashup com funk ou tocando um ‘tech funk’. Cada projeto, camada ou presets, tudo é eletrônico. Então porque a diferenciação? O desconhecido gera preconceitos que devem ser quebrados com esse livre acesso de tudo, para todos.

Fica mais fácil quando isso entra com clareza e é devidamente aproveitado. É necessário entender que absorver conhecimento e replicar aquilo que você recebeu, é um dos princípios para começarmos a nossa evolução efetivamente. As novas gerações e as que já estão fazendo, caminham com mais fervor ao olhar para o lado e não ver uma competição desenfreada e desleal.

A pista e as cabines precisam de mais mãos dadas e back to backs naturais e menos testas franzidas.

A música conecta.

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