Durante muito tempo, a discussão sobre segurança em ambientes noturnos foi acionada apenas em momentos de crise. Casos de grande repercussão serviam como catalisadores momentâneos para debates que, passado o impacto inicial, acabavam diluídos na rotina do entretenimento. Hoje, porém, esse enquadramento já não é suficiente. A consolidação da economia noturna como setor estruturado exige que festas, clubes e bares tratem protocolos de cuidado, prevenção ao assédio e resposta à violência como parte fundamental de sua operação — e não apenas como gestão de crise.
Um dos exemplos mais consistentes dessa virada aconteceu na Espanha, com a implementação do Protocolo de Segurança Contra Violências Sexuais em Ambientes de Lazer, elaborado pela Generalitat da Catalunha em 2019. O documento, com orientações claras para equipes de segurança, funcionários e gestores, tornou-se referência por estabelecer fluxos objetivos de acolhimento, registro e encaminhamento de casos. Episódios posteriores apenas reforçaram o que já estava colocado: quando há protocolo, há resposta mais rápida, proteção à vítima e melhor condução institucional do problema.
A adoção desses modelos aponta para um deslocamento importante na forma como o entretenimento noturno se percebe. Não se trata mais apenas de oferecer diversão, mas de assumir responsabilidade sobre o ambiente que se cria. No Brasil, pesquisas recentes ajudam a dimensionar a urgência dessa discussão. Um levantamento realizado em 2022 pela startup Women Friendly em parceria com a Johnnie Walker indicou que dois terços das mulheres já sofreram algum tipo de assédio em bares ou restaurantes, e que mais da metade deixou de frequentar eventos noturnos por medo de passar por situações semelhantes.
A partir desses dados, iniciativas como o programa Bares Sem Assédio passaram a atuar de forma mais sistemática, oferecendo certificação, capacitação de equipes e criação de protocolos internos. Ao custear treinamentos e selos de boas práticas, o projeto desloca a questão do campo simbólico para o operacional — algo que ainda é exceção, mas aponta caminhos possíveis. O mesmo pode ser observado em iniciativas internacionais, como o Ask for Angela, criado no Reino Unido, que funciona como um código discreto para que mulheres em situação de risco possam pedir ajuda em bares e clubes, sem se expor publicamente.
Essas ações evidenciam que a construção de ambientes seguros depende menos de discursos e mais de processos claros: equipes treinadas, rotinas definidas, canais de denúncia acessíveis e comunicação transparente com o público. Ainda assim, boa parte do setor cultural e do entretenimento avança de forma tímida nesse campo, especialmente entre empresas de pequeno e médio porte, muitas vezes por falta de estrutura, informação ou incentivo institucional.
Alguns espaços, no entanto, demonstram que é possível agir. O James Bar, em Curitiba, implementou seus próprios protocolos ainda em 2015, tornando-se referência ao mostrar que medidas de prevenção não afastam o público — ao contrário, criam confiança. Como relatado anteriormente por uma das sócias do local, a formalização desses processos fez com que as pessoas passassem a se sentir mais seguras para denunciar e acreditar que algo seria feito.
O desafio, portanto, não é apenas normativo, mas cultural. Protocolos de segurança dialogam diretamente com temas de governança, responsabilidade social e sustentabilidade — conceitos que já são centrais em outros setores, mas que ainda encontram resistência no universo do lazer noturno. À medida que a noite se profissionaliza, torna-se inevitável encarar que cuidado, acolhimento e prevenção não são acessórios, mas parte da própria experiência cultural que se deseja oferecer.
Criar pistas seguras é um processo contínuo, que envolve empresários, artistas, funcionários e público. Não é uma solução imediata nem simples, mas um caminho necessário para que festas, clubes e bares continuem sendo espaços de encontro, liberdade e expressão — e não territórios de risco normalizado.
Este texto escrito por João Anzolin foi originalmente publicado como parte da nossa série Editorial em Fevereiro de 2023 e agora reeditado para um relançamento contextualizado. Confira o texto original aqui.