O termo underground é frequentemente utilizado como um adjetivo para rotular eventos, estilos musicais, espaços e até atitudes, funcionando como um importante significador cultural. No entanto, sua definição é notoriamente esquiva e ambígua, variando conforme o contexto social em que é aplicado. Para compreender se o underground realmente existe, é necessário vê-lo não como um conceito estático, mas como um dispositivo heurístico que abrange três características centrais: a resistência, a antítese ao mainstream e o imaginário social.
Historicamente, o conceito evoluiu de movimentos de resistência política, como a resistência na Segunda Guerra Mundial, para descrever expressões culturais que se opõem às normas dominantes. Essa resistência secreta manifesta-se na necessidade percebida de um “arena protegida” ou secreta que facilite a subversão ou delimitação em relação a um ambiente opressor ou meramente comercial. Assim, o underground existe onde há uma intenção consciente de operar fora do alcance da vigilância institucional e das pressões da cultura de massa.
Outro pilar fundamental é a sua posição como a antítese do mainstream. O underground muitas vezes é definido pelo que ele não é: ele rejeita a priorização do lucro financeiro e as estruturas corporativas. Essa faceta manifesta-se através de práticas DIY (o famoso, faça você mesmo) e de um ethos não comercial, onde a criação do evento ou da arte é um fim em si mesmo, e não um degrau para o sucesso de massa. Essa oposição binária ajuda a unir grupos sociais em torno de uma identidade comum, separando-os daquilo que consideram “contaminado” pelo comercial.
Além da resistência e da oposição, o underground funciona como um imaginário social, permitindo que os participantes experimentem formas alternativas de socialidade. É a criação de mundos temporários e idealizados que oferecem um antídoto à monotonia da sociedade convencional. Nesses espaços, valores como o senso de comunidade e o pertencimento são priorizados, funcionando como utopias encenadas, muitas vezes em locais periféricos ou reaproveitados.
Portanto, é possível afirmar que o underground realmente existe, mas não apenas como um local físico; ele existe como um sentimento e uma intenção compartilhada. Ele se manifesta em disposições emocionais que influenciam discursos e práticas culturais. Pesquisas indicam que muitos participantes escolhem ativamente experiências que consideram underground porque elas evocam uma “energia bruta” e uma autenticidade que sentem falta em espaços do mainstream.
A longevidade do termo é mantida tanto pela mídia especializada quanto pela retórica interna das cenas culturais, que atuam como guardiãs do que é considerado autêntico. O underground é, nesse sentido, um habitus — um conjunto de disposições e práticas adquiridas que moldam as escolhas e preferências de uma comunidade. Mesmo que o mainstream tente cooptar seus elementos para ganhar um “status de cool”, a essência do underground persiste naqueles que buscam proteger valores e práticas experimentais.
Nesse ponto, porém, emerge uma fricção incontornável. Grande parte da música eletrônica que hoje se reivindica underground nasceu justamente em condições materiais precárias, fora de circuitos institucionais, como resposta direta à exclusão econômica, racial e social. No entanto, ao longo das últimas décadas, esse mesmo movimento foi gradualmente absorvido por estruturas profissionais cada vez mais sofisticadas: marcas de apelo global, festivais de grande escala, fundos de investimento, modelos de negócio altamente matemáticos. O underground da música eletrônica, que antes operava como negação do sistema, passou a coexistir com ele — e, em muitos casos, a depender dele para sobreviver.
Essa transformação desloca o underground de um lugar de oposição frontal para um campo mais ambíguo, onde sua existência passa a depender da capacidade de se reorganizar continuamente. Em vez de uma negação absoluta das estruturas capitalistas, o underground contemporâneo muitas vezes se manifesta como prática de microescala: cenas locais, economias de proximidade e circuitos temporários que operam nas brechas do sistema. Não se trata mais de estar necessariamente fora, mas de agir de forma tática dentro dele — escolhendo relações menos mediadas por alcance e uma ética de cuidado que resiste à lógica da maximização.
Em suma, o underground enquanto conceito é mais do que uma margem musical ou artística; é um contexto protegido para a ação coletiva. Ele existe na intersecção entre o desejo de escapar da repetição cotidiana e o esforço deliberado de criar espaços onde a música e a cultura não sejam determinadas por modelos de negócios, mas por afetos e ideais compartilhados. O underground, portanto, é o vislumbre de um mundo social tal como ele poderia ser, manifestado brevemente no calor de uma experiência coletiva.