Por muito tempo, a cena eletrônica brasileira cresceu olhando quase exclusivamente para fora. Referências estéticas, formatos de festival, curadorias e até discursos vinham majoritariamente da Europa ou dos Estados Unidos. Isso nunca impediu o surgimento de projetos fortes no país — mas, em muitos casos, esses projetos evoluíram de forma paralela, sem diálogo direto entre si ou com iniciativas vizinhas do continente.
É justamente nesse ponto que a colaboração entre o Trotamundo Festival e o Surreal Park, que acontece nesta sexta-feira (16), ganha relevância. Mais do que um intercâmbio pontual, a parceria aponta para um movimento mais consciente da cena: o de se conectar com iniciativas sul-americanas que compartilham valores parecidos de curadoria, experiência e relação com a pista.
Desde sua primeira edição, realizada no início de 2024 em Montañita, no Equador, o Trotamundo se consolidou rapidamente como um festival bastante respeitado do continente. A proposta de micro-festival imersivo, instalada no Lost Beach Club, combina uma programação cuidadosa, longas jornadas de pista e uma integração natural com a costa equatoriana. Não por acaso, o evento rapidamente passou a atrair um número expressivo de brasileiros, que encontraram ali uma leitura de pista muito próxima da sensibilidade cultivada no Brasil: com mais tempo de dança e mais liberdade sonora.
Essa conexão pré-existente ajuda a entender o peso e a importância deste showcase inédito no Surreal. Pela primeira vez, o Trotamundo assina uma pista no Brasil, ocupando a Church com um lineup que traduz bem sua identidade curatorial: Dyed Soundroom (com um extended set de 3h), Sibil b2b International Mac, Alex Diettrich b2b Trajano e Brume DJs. Uma combinação que equilibra nomes internacionais e artistas locais, refletindo o espírito do próprio festival e reforçando a ideia de troca.
Com esse showcase, o Surreal Park reforça algo que já vinha acontecendo de forma natural: o de aproximar públicos, artistas e marcas do Brasil com outras cenas da América do Sul. Um fluxo que antes levava brasileiros até Montañita agora se inverte, trazendo o Trotamundo para dentro de um dos espaços mais relevantes da música eletrônica no país.
Vale destacar ainda que o evento contará com um segundo palco funcionando: o Bells. Nele, o foco será em sonoridades mais voltadas ao Minimal House e Tech House, encabeçado por nomes como Dimmish (também com um extended set de 3h), Classmatic, Andre Buljat e Guga for Life. Uma noite excelente para ouvir sons variados e descobrir novas possibilidades musicais.