O conceito de um “prazo de validade” para a participação em eventos de música eletrônica é comumente promovido por pesquisas de mercado e pela imprensa de modo geral, estabelecendo uma fronteira arbitrária para o lazer. Um levantamento intitulado The Great Indoors, realizado pela varejista britânica Currys PC World em 2017, concluiu que 31 anos é a idade média em que as pessoas passam a preferir ficar em casa, e que aos 37 anos os adultos já seriam “velhos demais” para dançar em clubs e festivais.
Esse discurso reforça a ideia de que o lazer noturno é um território exclusivo da juventude, tornando a presença de indivíduos na casa dos 30 ou 40 anos algo descrito como “trágico” por uma parcela considerável da sociedade. Tais convenções sociais sugerem que o amadurecimento, especialmente o feminino, é visto como incongruente com a participação em festas, estabelecendo uma barreira temporal para a liberdade e a experimentação.
Essa narrativa de que o entretenimento doméstico deve substituir a vida social pública após certa idade atende a interesses comerciais específicos do setor de tecnologia. Empresas que comercializam streamings, TVs, computadores e jogos eletrônicos lucram ao incentivar a crença de que o engajamento com a cultura clubber possui uma vida útil limitada.
Ao promover o ato de “ficar em casa” em detrimento do “sair para viver a vida na rua”, essas empresas tentam moldar o comportamento do consumidor, sugerindo que o avanço tecnológico torna o lazer doméstico superior à experiência social das pistas, por exemplo. Esse fenômeno sinaliza uma pressão social para que o comportamento seja “apropriado” à idade, ignorando o desejo de veteranos em manter práticas de lazer ativas e coletivas.
Esse deslocamento também revela uma dimensão estrutural menos discutida: o acesso ao lazer noturno se torna progressivamente mais restrito à medida que o indivíduo envelhece. Horários incompatíveis com rotinas de trabalho convencionais, ingressos cada vez mais caros, experiências centradas no consumo intenso de álcool e ambientes pouco receptivos a corpos fora do ideal jovem produzem uma exclusão indireta, porém eficaz. Estamos falando de um ecossistema que passa a operar de forma seletiva, tornando a permanência de públicos mais velhos um exercício constante de adaptação — ou de resistência.
A mídia também desempenha um papel fundamental na manutenção desse preconceito etário, frequentemente destacando a idade como um fator de estranhamento em contextos de diversão. Um exemplo emblemático foi a matéria de 2014 do jornal The Telegraph que questionou se o atleta Usain Bolt, na época com apenas 27 anos, era “velho demais” para frequentar boates em Londres.
Nesse tipo de texto, a imprensa foca na idade como o fator principal que justifica o questionamento, criando o que se pode chamar de uma performance de incongruência, onde a presença física do indivíduo no local é vista como um desajuste em relação às expectativas públicas. Essa vigilância midiática ignora a subjetividade e foca apenas no conflito percebido entre o corpo que envelhece e os espaços de interação e música ao vivo.
Parte desse estigma, no entanto, também é reforçada pela própria indústria da música eletrônica. A valorização constante do “novo”, a ênfase em narrativas de ascensão rápida e a associação recorrente entre juventude, tendência e relevância contribuem para a invisibilização de públicos mais maduros. Lineups, campanhas e comunicações raramente consideram o envelhecimento como parte natural e legítima da cultura de pista, tratando-o como exceção ou superação, quando poderia ser compreendido como continuidade natural e memória viva da cena.
Apesar dessa pressão externa e do declínio estatístico na frequência de pessoas acima de 25 anos em clubs, certas subculturas oferecem uma resistência direta a esse “prazo de validade”. Cenas como a do psytrance permitem que “veteranos” na casa dos 60 e 70 anos participem ativamente ao lado de jovens de 20 anos, desafiando a visão de que comportamentos hedonistas têm data de expiração.
Relatos observados através das mídias sociais indicam que muitas mulheres, por exemplo, não participam dessas culturas “apesar” da idade, mas sim “por causa” dela, buscando bem-estar e conexões intergeracionais que o isolamento doméstico não oferece. Assim, a reivindicação do espaço de dança na maturidade atua como uma subversão silenciosa contra as normas que tentam marginalizar indivíduos com base em um cronograma de lazer imposto pelo consumo.