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A música conecta

Como exatamente soa um House moderno? Pancratio nos ajuda a entender

Por Elena Beatriz em Notes 22.01.2026

Quando Automatic House (LP de oito faixas assinado pelo DJ e produtor italiano, Pancratio, pela gravadora Faith Beat, de Ryan Elliot) foi lançado, em outubro de 2025, ele soou familiar e, ao mesmo tempo, deslocado. Familiar porque sua matéria-prima está ancorada em fundamentos clássicos do House. Deslocado porque esses mesmos elementos aparecem reorganizados por uma visão contemporânea, menos presa a identidades regionais, puristas ou a fórmulas de época.

A base do álbum está em uma estrutura historicamente associada ao House: grooves contínuos, baixo como eixo estrutural, bateria programada com clareza e certa economia. Há um entendimento profundo de como esse gênero se construiu desde os anos 80 e 90. No entanto, em vez de emular o passado, Pancratio incorpora elementos de Deep House, Tech House, o swing do UK Garage e um quê de hipnose como pilares de sustentação das faixas, reconfigurando-as com uma nitidez técnica que reflete a dualidade de ser profundo e ao mesmo tempo impulsivo, hipnótico e expansivo, sério mas dançante. É o que podemos esperar de um House moderno. 

Apesar da contemporaneidade escancarada nos componentes que moldam as oito faixas do LP, eles carregam uma extensão narrativa que já não é mais tão presente em quem produz música mirando o nível mercadológico atual. Todas as faixas possuem de 5 a 8 minutos de duração, mantendo estado de suspensão, continuidade e criando um fluxo que favorece a escuta prolongada, assim como na era clássica da House Music. 

Esse controle sobre a progressão temporal das faixas é o resultado direto da trajetória de Pancratio, que antes de chegar à Faith Beat, já refinava sua identidade de forma gradual e de forma autônoma através de seu próprio selo, o Onetriptoavyon. Esse histórico de auto-lançamentos e experimentação prática é o que confere ao LP um senso de segurança incomum para um debut, revelando um produtor que não está testando versatilidade, mas exercendo domínio absoluto sobre sua assinatura sonora, com um percurso fora de ciclos acelerados de visibilidade permitiu que ele aprofundasse uma pesquisa voltada à forma, essência e ao próprio conceito musical. 

Em vez de buscar um som imediatamente reconhecível, Pancratio parece mais interessado em dominar a gramática do House e atualizá-la a partir do seu entendimento atual sobre o que o gênero pode explorar daqui pra frente. O lançamento pela Faith Beat reforça esse posicionamento, haja vista que Ryan Elliott construiu sua reputação a partir de uma curadoria voltada à pista como espaço de continuidade, onde música, tempo e leitura do ambiente caminham juntos.

Ao final, Automatic House não propõe um novo House, nem reivindica esse lugar. O que ele oferece é a demonstração de que tradição e contemporaneidade não precisam estar em oposição. Ao conseguir unificar o que temos de melhor entre os fundamentos clássicos ao que tem sido funcional nas pistas atuais, Pancratio entrega um trabalho que funciona como um lembrete de que a modernidade do House não está em abandonar suas bases, mas em saber como habitá-las novamente.

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