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A música conecta

O poder da curadoria musical humana em tempos de IA e algoritmo

Por Elena Beatriz em Artigos 25.02.2026

Nunca foi tão simples ouvir qualquer faixa, de qualquer lugar do mundo, a qualquer hora. Plataformas de streaming acumulam catálogos com milhões de músicas e novos lançamentos chegam em um volume impossível de acompanhar manualmente — ultrapassando 100 mil faixas adicionadas diariamente. O cenário é frequentemente descrito como democrático, descentralizado e abundante. No entanto, essa abundância carrega um paradoxo: o problema central não é mais a escassez de acesso, mas a sobrecarga cognitiva. O ouvinte não sofre por falta de opções; sofre por não saber navegar por elas.

Diante desse excesso, a curadoria passou a ocupar um lugar que vai muito além da simples recomendação. Em um ambiente onde tudo está disponível, alguém — ou algo — precisa decidir o que aparece, em que ordem aparece e com qual relevância aquilo é apresentado. Essa mediação, que antes era restrita a círculos específicos, tornou-se uma grande engrenagem da indústria musical contemporânea. Serviços como Spotify e Apple Music passaram a oferecer playlists moldadas a partir do comportamento de cada usuário. Quanto mais você escuta, melhor o sistema entende seu gosto – ao menos supostamente. Ele aprende seus padrões, antecipa desejos, reduz o atrito da escolha e o catálogo torna-se praticamente infinito. Pelo menos é o que parece.

O que raramente se discute são os critérios que sustentam essa mediação. Sistemas de recomendação são treinados para identificar padrões de escuta, recorrência, taxa de abandono, tempo de permanência e otimização de comportamento. O objetivo é manter o usuário ativo e previsível. A recomendação tende a se apoiar no que já funcionou antes, ou seja: se determinado tipo de faixa prende atenção, ele reaparece com variações próximas. Se um artista gera retenção, será sugerido com frequência crescente. O resultado é um ambiente em que a novidade se confunde com familiaridade levemente ajustada. Existe diversidade potencial no catálogo, mas a superfície visível da escuta muitas vezes se concentra em combinações que confirmam hábitos já estabelecidos.

Ao contrário do algoritmo, a curadoria humana historicamente se construiu sobre experimentação. A cultura eletrônica, por exemplo, nasceu de filtros humanos. Desde os primórdios, um bom DJ não apenas toca músicas, ele educa a pista ao apresentar sonoridades ainda não legitimadas. Loja de discos funcionam como espaço de troca, onde recomendações são construídas a partir de diálogo, repertório acumulado e leitura sensível de cena de cada um de seus frequentadores. O vendedor pode identificar nuances no gosto do cliente e sugerir um white label recém-chegado, por exemplo. As rádios independentes são pontos focais para o fomento de novas sonoridades e artistas. Enquanto o algoritmo pergunta “o que mantém você aqui?”, o curador humano pergunta “o que você ainda pode descobrir?”. Um trabalha para estabilizar o comportamento; o outro trabalha para que ele evolua.

Esse movimento torna-se ainda mais sensível com a expansão da inteligência artificial generativa na produção musical. Se a digitalização já havia ampliado drasticamente o volume de lançamentos, ferramentas baseadas em IA aceleram ainda mais esse processo. Estruturas harmônicas, timbres e arranjos podem ser gerados em poucos minutos, frequentemente a partir de padrões consolidados. A consequência não é apenas quantitativa. A repetição de padrões tende a se intensificar, agora com eficiência técnica. O desafio deixa de ser apenas encontrar algo novo, mas distinguir o que possui consistência artística de algo que apenas replica fórmulas com um acabamento mediano.

No artigo From listening to curating: Anthropological curatorship toward music playlist practices, publicado pela Universitas Gadjah Mada, a leitura recente sobre curadoria ajuda a compreender o que está em jogo. A abundância contemporânea não elimina intermediários — ao contrário, intensifica sua importância. Em mercados saturados por excesso de oferta, o valor tende a migrar da produção para a mediação. A escassez deixa de estar no acesso ao conteúdo e passa a estar na capacidade de filtrá-lo. Buscar, filtrar, avaliar, organizar, contextualizar, recomendar e conectar não são atividades neutras. Elas produzem valor simbólico. Ao selecionar, o curador legitima. Ao organizar e apresentar, constrói narrativa. Ao recomendar, reduz a complexidade, gera economia de tempo e estabelece relação de confiança. A curadoria, portanto, não é apenas seleção, é processo que atesta qualidade através da confiança.

Sendo assim, compreendê-la apenas como mecanismo de filtragem técnica é reduzir seu alcance. Torna-se necessário entender que essa mediação não se limita à escolha de faixas. Curadoria é contar histórias e organizar o sentido das coisas. Uma playlist, por exemplo, pode parecer apenas uma sequência de músicas, mas, quando estruturada com intenção e construção de atmosfera, a ordem altera a percepção. Ela pode refletir um estado de humor, uma sensação, a lembrança de um dia ou uma época. Um DJ set não se limita a um conjunto de músicas compatíveis. Ele pressupõe leitura de ambiente, memória de repertório e sensibilidade para perceber quando modificar aquele momento. Uma mesma música pode ganhar significado distinto dependendo do contexto em que aparece e essa dimensão ainda não é plenamente capturada por sistemas automatizados.

Não é coincidência que, em meio à saturação impulsionada pelos algoritmos, parte do público volte sua atenção para selos autorais e rádios independentes, por exemplo. Essa busca por mediações humanas parece responder à percepção de homogeneização sonora, ainda que esse movimento não seja dominante. Quando tudo soa potencialmente semelhante, o diferencial passa a ser a confiança em quem seleciona. O público não busca apenas acesso a um catálogo vasto, mas busca orientação diante dele.

A partir dessa perspectiva, não é preciso conduzir essa linha tênue como oposição entre humano e tecnologia. Quando parâmetros são definidos a partir de referências acumuladas, repertório consistente e objetivos claros, a tecnologia atua como ferramenta. Sistemas podem auxiliar na identificação de conexões improváveis, no mapeamento de tendências emergentes ou na organização de acervos extensos com rapidez inédita, ampliando o repertório de possibilidades disponíveis para artistas e curadores.

Nesse sentido, a curadoria pode assumir a forma de co-criação. Em vez de entregar o processo criativo à automatização, é possível utilizá-la como apoio, cruzando referências, ajustando diretrizes e descartando resultados que não fazem sentido. A inteligência artificial pode expandir o campo de experimentação, mas a decisão sobre o que ganha forma final permanece vinculada à sensibilidade e ao posicionamento humano. 

Assim, a curadoria se afirma como prática capaz de devolver densidade à experiência musical. Ela não elimina o excesso, mas o organiza e o traz profundidade. Além de tudo, reinsere a música em um campo de relações — históricas, afetivas, emocionais e políticas — que nenhuma tecnologia é capaz de direcionar e sustentar sozinha.

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