Ao longo dos últimos anos, Deer Jade construiu uma trajetória sólida dentro do circuito internacional, com lançamentos por selos como Innervisions, Diynamic e Kompakt, além de apresentações em alguns dos principais festivais e clubs do mundo. Mais do que consolidar uma identidade sonora entre o indie dance e o melodic house, a artista suíça passou a desenvolver uma relação cada vez mais pessoal com sua música — um processo que ganhou novos contornos recentemente.
O final de 2025 marcou um ponto de virada com o lançamento da I AM YOU, sua própria gravadora, inaugurada pelo EP Voyage Infini, projeto que refletia uma busca por liberdade criativa e por uma abordagem mais intuitiva dentro do estúdio. Poucos meses depois, essa nova fase ganha outro capítulo importante: sua estreia pela Cercle Records com Coming Home, single que amplia o alcance dessa transformação artística e apresenta uma faceta ainda mais refinada do seu som.
Aproveitando o lançamento, conversamos com Deer Jade sobre o significado desse release dentro de sua trajetória, o processo criativo por trás da faixa e como sua visão atual sobre música e experiência de pista vem influenciando suas escolhas recentes.
Alataj: Olá, Jade. Obrigado por nos receber. Depois de lançar sua própria gravadora e iniciar um novo capítulo com o EP Voyage Infini, sua estreia pela Cercle Records acontece logo em seguida. O que esse lançamento representa dentro desse momento específico da sua carreira?
Deer Jade: Esses dois lançamentos vieram como uma continuação muito natural da minha jornada artística. Criar minha própria label, a I AM YOU, foi um passo importante pra conseguir expressar minha visão com mais liberdade. E lançar pela Cercle e pela Diynamic logo depois foi como compartilhar essa energia com uma família maior. São duas plataformas com identidades muito fortes e um público que realmente ama música, então me sinto muito grata e honrada de fazer parte disso.
A Cercle construiu uma identidade muito forte ao longo dos anos, conectando música, imagem e experiência. Quando você estava produzindo Coming Home, existia a consciência de que a faixa dialogaria com esse universo ou o processo aconteceu de forma mais independente?
No começo, o processo foi bem orgânico e independente. Quando estou no estúdio, tento não pensar muito sobre onde a música vai parar. Me concentro mais na emoção e na história por trás dela. Mas quando percebi que “Coming Home” faria parte do universo da Cercle, tudo fez muito sentido. A faixa carrega essa sensação de jornada e de retorno emocional, que conversa muito com a forma como a Cercle conecta música com paisagens e momentos.
Coming Home carrega uma atmosfera emocional bastante evidente, mas sem perder força de pista. Em que momento você percebeu que havia encontrado o equilíbrio certo nessa faixa? Esse é o grande desafio na produção pra você?
Sim, encontrar esse equilíbrio é sempre um dos maiores desafios. Eu gosto de músicas que fazem o corpo se mover, mas que também tocam algo mais profundo. Com “Coming Home”, teve um momento no estúdio em que tudo simplesmente encaixou. O groove estava forte o suficiente pra pista, mas a melodia e a atmosfera ainda carregavam essa sensação de nostalgia e calor. Quando uma faixa consegue fazer as pessoas dançarem e, ao mesmo tempo, criarem uma jornada interna, aí eu sei que ela está pronta.
Atualmente, sua narrativa artística incorpora de forma mais clara ideias ligadas à consciência, conexão e percepção do mundo. Quando você sentiu que isso deixou de ser algo pessoal e passou a influenciar diretamente na sua identidade? Ou isso existe desde o início?
Acho que esses temas sempre fizeram parte de mim, até antes da música. Minhas viagens, experiências com diferentes culturas e minhas próprias buscas internas moldaram muito a forma como eu vejo o mundo. Em algum momento, percebi que a música poderia ser uma forma poderosa de compartilhar essas perspectivas. Aos poucos, isso deixou de ser algo só pessoal e passou a ser essencial na minha identidade artística — algo que guia tanto o meu som quanto a intenção por trás dos meus projetos.
Depois da criação da I AM YOU, você comentou sobre trabalhar com mais liberdade e menos pressão externa. Você sente que esse novo estado criativo influenciou diretamente o resultado final desse single?
Com certeza. Quando você tira um pouco das expectativas externas, dá mais espaço pra intuição guiar o processo. Com a label, eu criei um ambiente onde posso confiar mais nos meus instintos e explorar ideias sem pensar tanto em formatos ou tendências. Acho que essa liberdade está muito presente nesse single — ele soa honesto e alinhado com o momento criativo que estou vivendo agora.
Além da parte de lançamentos, quais serão os próximos passos para transformar a gravadora em algo maior, em uma comunidade? Eventos, workshops, merchans… o que está nos planos?
A ideia da label sempre foi maior do que só lançar música. Eu vejo como uma plataforma para conectar pessoas que compartilham valores semelhantes em torno da música, da consciência e da criatividade. Estamos explorando diferentes formas de dar vida a isso — desde eventos curados e experiências imersivas até colaborações com artistas e criadores de outras áreas. A ideia é construir um espaço onde a música funcione como uma ponte para conexões mais profundas.
Muitos artistas falam hoje sobre a pista como um espaço coletivo de troca. Para você, qual é a diferença entre tocar música para um público e realmente compartilhar uma experiência com ele?
Pra mim, a diferença está na intenção e na presença. Tocar para um público pode, às vezes, parecer algo mais unilateral. Já compartilhar uma experiência é algo vivo. É quando existe um diálogo energético entre o artista e a pista, quando todo mundo no ambiente contribui para a atmosfera. Esses momentos em que você se sente completamente conectado com as pessoas através da música são muito especiais — e é isso que eu sempre busco criar.
Olhando para frente, esse lançamento pela Cercle indica um direcionamento específico para os próximos trabalhos ou você prefere manter esse processo aberto e guiado pela intuição?
A intuição sempre vai estar no centro do meu processo criativo. Claro que cada lançamento marca uma evolução no meu som, mas eu tento não me prender a uma direção fixa. A música é um reflexo do momento que você está vivendo — e isso muda o tempo todo. Então prefiro me manter aberta, seguir a inspiração e deixar o caminho se desenrolar naturalmente.