Algumas transformações culturais se tornam visíveis a partir da abertura de espaços, da movimentação de artistas ou da consolidação de determinados circuitos. Outras também dependem da existência de quem consiga reconhecer, acompanhar e registrar aquilo que ainda está se formando, quando os contornos do presente seguem instáveis e nada garante, de antemão, que aquele movimento será entendido mais tarde em sua dimensão histórica. Em São Paulo, Erika Palomino -– jornalista, curadora e diretora criativa — ocupa um lugar importante dentro dessa chave de leitura. Em um período de reorganização intensa da vida noturna da capital paulistana, seu olhar e sua escrita disponibilizados na coluna Noite Ilustrada, publicada na Folha de São Paulo entre 1992 e 2005, ajudou a fixar em texto e imagem um conjunto de experiências, personagens, visuais, hábitos e direcionamentos que hoje se mostram centrais para compreender as bases da cena clubber dos anos 90 e início dos 2000.

Reduzir a Noite Ilustrada a uma coluna de agenda, cobertura de festas ou comentários sobre casas noturnas e eventos seria insuficiente diante do que ela representou. O trabalho de Erika ali consistia em acompanhar de maneira contínua um ambiente urbano que passava por mudanças profundas e que ainda não encontrava, na imprensa mais tradicional, um tratamento à altura de sua complexidade. Clubs, DJs, estilistas, performers, fotógrafos, artistas, frequentadores, modos de se vestir e novas formas de convivência apareciam em suas páginas não como curiosidades passageiras, mas como sinais de uma reorganização cultural em curso. Ao levar esse universo para dentro de um jornal de grande circulação, ela contribuiu para que a vida noturna e a cultura clubber que se formava deixassem de serem vistas apenas como excentricidade ou distração sem consequência e passasse a ser percebida como um espaço digno e legítimo de produção, de experimentação social e de transformação.
Esse ponto se torna ainda mais importante quando se observa a natureza da própria cena paulistana naquele período. O que estava em jogo não era apenas a ascensão da música eletrônica ou a popularização de determinados espaços, mas a formação de um repertório urbano que articulava pista, moda, sexualidade, imagem, desejo, sociabilidade e pertencimento. A noite reunia diferentes camadas da cidade e permitia encontros que, em outros contextos, talvez permanecessem mais homogêneos. Havia uma reorganização visível da ocupação de diferentes corpos no espaço, dos estilos, das referências visuais, dos modos de ser percebido em público. Erika entendeu cedo que esse universo não poderia ser lido apenas pela lupa do entretenimento, porque o que se expressava na pista dizia respeito também à maneira como São Paulo testava outras sensibilidades e outras maneiras de conviver em sociedade.
Isso não significa dizer que a coluna criava sozinha a relevância daquilo que registrava, mas sim que fornecia continuidade e contexto a uma série de experiências que, sem esse tipo de acompanhamento, poderiam permanecer dispersas ou ser lembradas apenas de forma fragmentada anos depois. Há uma diferença importante entre viver intensamente uma cena e conseguir inscrevê-la de maneira consistente na memória cultural de uma cidade. Parte da relevância do trabalho de Erika está nessa passagem.
Em um momento em que grande parte da imprensa tendia a tratar a vida noturna de forma superficial, caricata ou restrita ao registro social, Erika se aproximou desse ambiente com outra disposição. Seu interesse não recaía apenas sobre o acontecimento em si, mas sobre aquilo que ele revelava a respeito da cidade, de seus deslocamentos e dos modos pelos quais novos perfis de comportamento e visibilidade iam sendo produzidos coletivamente. Nesse processo, ajudou também a inserir no vocabulário da imprensa termos que até então circulavam quase exclusivamente dentro da própria cena, como “clubber”, ampliando a forma como esse universo passava a ser nomeado, reconhecido e compreendido fora de seus próprios circuitos.
Esse aspecto se torna ainda mais evidente quando se observa a relação entre a Noite Ilustrada e seu livro autoral nomeado Babado Forte, publicado originalmente em 1999 e relançado em edição ampliada em 2024. Se a coluna acompanhava a cidade no ritmo do presente, registrando semanalmente uma cena em transformação, o livro expande essa mesma atenção ao reunir narrativas, personagens e atmosferas que ajudam a consolidar, em outra escala, a memória da cultura clubber e da vida noturna urbana no Brasil. O livro não aparece apenas como um marco editorial em sua trajetória, mas como continuidade direta de um olhar que já estava presente em sua escrita jornalística: a percepção de que aquele universo não poderia desaparecer na mesma velocidade com que a noite se transforma.
Babado Forte não aparece como simples compilação daquilo que já havia sido visto na coluna. O livro reúne uma perspectiva autoral mais ampla, em que a noite deixa de ser observada apenas em sua circulação imediata e passa a ser tratada como parte de uma mudança cultural de maior escala. A pista surge conectada à moda, à cena LGBTQIAPN+, ao surgimento de novos circuitos urbanos, à emergência de criadores e à formação de estéticas que marcariam os anos seguintes. O que antes aparecia fragmentado entre uma semana e outra ganha uma leitura mais encorpada, capaz de situar aquela experiência dentro de uma transformação social mais abrangente.
Isso ajuda a entender por que o nome de Erika Palomino ocupa um lugar tão particular quando se fala da São Paulo noturna dos anos 90 e início dos 2000. Sua contribuição não se resume à de alguém que esteve próxima da cena, mas à de quem soube observá-la com repertório suficiente para reconhecer suas conexões internas e sua reverberação para além dos clubs. Em sua trajetória, jornalismo, curadoria, moda, direção criativa e cultura urbana aparecem como frentes de uma atenção contínua a fenômenos em movimento, contribuindo de maneira decisiva para que a vida noturna de pudesse ser entendida não apenas como sucessão de acontecimentos, mas como parte importante da história da nossa cultura, pois, como a própria Erika aponta, tudo estava sendo experimentado ao mesmo tempo.