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A música conecta

Dixon e o alerta para o esvaziamento político da dance music underground

Por Alan Medeiros em Notes 07.04.2026

O renomado DJ e produtor alemão Dixon, um dos líderes da Innervisions, reconhece que o espírito revolucionário da dance music underground está desaparecendo devido ao silêncio de muitos artistas diante de crises globais. Ele concorda com a percepção de que a omissão sobre questões como o genocídio em Gaza esvazia o propósito da cena. Para ele, a música eletrônica é indissociável de suas raízes negras, queer e latinas, que buscavam espaços de expressão e um chão comum; se essa carga política for removida, o que resta, segundo ele, é apenas “ruído” e entretenimento vazio.

O conflito central dessa descaracterização reside na tensão entre integridade artística e interesses financeiros. Dixon observa que, ao se posicionar politicamente, recebe mensagens de apoio silencioso de pessoas da indústria que admitem não se manifestar publicamente por medo. Ele critica duramente essa postura, afirmando que o que esses profissionais têm medo de perder é “basicamente dinheiro”, enquanto em outros contextos as pessoas estão perdendo a vida. Essa priorização do lucro sobre a ética é o que ele identifica como uma falha grave na indústria atual.

Essa visão política não é meramente teórica, mas fundamentada na experiência de Dixon como adolescente na Alemanha Oriental durante a queda do Muro de Berlim. Ele testemunhou em primeira mão como a cena rave ocupou espaços e uniu Leste e Oeste de uma forma que a política tradicional não conseguiu resolver até hoje. Essa vivência reforça sua crença de que a música pode ser um espaço de diplomacia informal e conexão humana real, indo muito além de ser apenas um programa divertido para o fim de semana.

Para Dixon, reivindicar o underground como espaço político é uma necessidade urgente em tempos de mudanças drásticas na humanidade. Ele defende que a indústria cresceu excessivamente e se tornou impessoal, muitas vezes focada apenas no “DJ herói” e em resultados comerciais. Dixon sustenta que é fundamental usar a voz para representar os que não são ouvidos, garantindo que o underground não se transforme em um “museu” ou em apenas mais um produto de consumo, mas que continue sendo uma ferramenta de transformação social.

Essa discussão ganha peso extra às vésperas de seu retorno ao Brasil. Em junho, Dixon desembarca no país para duas datas de forte carga simbólica: uma no Warung (05), nesta que será a penúltima abertura do club, e outra no Só Track Boa Festival (06), onde figura entre os headliners mais aguardados da edição de 2026. Mais do que marcar presença em dois contextos distintos da cena brasileira, sua volta recoloca em circulação uma visão de pista que não separa música, posicionamento e responsabilidade cultural, algo especialmente relevante em um momento em que boa parte da dance music parece confortável demais em trocar atrito por neutralidade.

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