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A música conecta

O que esperar do lineup de música eletrônica do Primavera Sound São Paulo?

Por Elena Beatriz em Análise 09.04.2026

Pensar na música eletrônica do Primavera Sound São Paulo exige começar pelo que o festival já apresentou no Brasil. As duas edições deixam um traço bem evidente. Em 2022, o lineup reuniu nomes como Seth Troxler, John Talabot b2b Nicolas Lutz, Joy Orbison, DJ Python, VTSS b2b LSDXOXO e Boy Harsher, ao lado de nomes como Björk, Arca, Shygirl e Jessie Ware. Em 2023, apareceram nomes como The Blessed Madonna, DJ Playero, Tokimonsta, Hudson Mohawke, DJ K, DJ Mau Mau, Carlos do Complexo e Róisín Murphy. O que essas escolhas mostram é que o Primavera nunca tratou sua programação de música eletrônica como um bloco montado apenas para preencher uma demanda no festival. Há uma intenção de integrar grandes DJs, shows e artistas que trabalham em um campo mais híbrido, vindos de cenas diferentes, formando uma programação mais aberta e menos presa a um desenho previsível.

A edição de 2026 não chega em um momento comum. O Primavera volta ao Brasil depois de um intervalo que, de certa forma, atenuou sua força por aqui. Dito isso, não basta reaparecer com um lineup que entregue nomes reconhecíveis e resolva a programação de maneira protocolar. Trata-se de recuperar sua potência, restabelecer confiança e reafirmar quais são as características que fazem com que o festival siga sendo visto como algo relevante dentro de um calendário cada vez mais saturado. Nesse cenário, a música eletrônica pode cumprir um papel importante, desde que seja pensada de forma criteriosa.

O caminho mais fácil seria recorrer a atrações mais convencionais, muito familiares para quem está fora da cena e amplamente testadas em festivais grandes. Isso certamente ajuda a tornar a programação mais acessível, mas também aproximaria o Primavera de eventos que recorrem às mesmas soluções. A volta perderia força e soaria cautelosa demais para um festival que construiu seu nome em torno de escolhas capazes de indicar algum risco, algum repertório e alguma ambição.

Também não parece especialmente interessante seguir para o extremo oposto e concentrar a programação em artistas que falem quase só para um público já bastante próximo da música eletrônica. O Primavera nunca foi relevante por se fechar em uma única direção. Seu valor está ligado à capacidade de juntar públicos diferentes sem achatar a proposta no meio do caminho.

A combinação mais forte parece bastante clara: DJs com trajetória realmente sólida, capazes de conduzir uma pista com repertório e personalidade, ao lado de atrações que dificilmente passam pelo Brasil em outras circunstâncias. Um nome como Ben UFO, que está no lineup do Primavera Barcelona 2026, ajuda a explicar esse primeiro eixo. Sua presença aponta para uma curadoria interessada em critério, experiência e construção. Não seria uma escolha feita apenas para gerar reação rápida, mas para dar peso ao conjunto.

Em outra ponta, um projeto como Maribou State representa bem a segunda frente. Uma atração que dificilmente entraria com facilidade na rota brasileira por outros caminhos e que, dentro de um festival como o Primavera, ganha um espaço muito mais convincente. O mesmo pode ser dito de nomes como FKA twigs, presente no lineup de Barcelona 2026, que mistura Pop, produção eletrônica, performance e estética.

Dentro desse cenário, alguns nomes que começam a circular ajudam a entender o que pode acontecer. Gorillaz aparece como o rumor mais consistente até agora, principalmente pelo desenho de uma turnê latino-americana no mesmo período do festival, ainda sem datas anunciadas justamente em Brasil e Argentina. Charli XCX também aparece entre os nomes cotados e segue uma linha compatível com o histórico do festival. Sua relação com a música eletrônica já está consolidada há anos, tanto na produção quanto na forma como circula entre diferentes cenas, e sua presença dialoga com esse espaço mais aberto entre pista, pop e performance que o Primavera já apresentou nas edições anteriores.

Se esses movimentos de fato apontarem o caminho da edição de 2026, o que se desenha é uma possibilidade de conciliar ambição curatorial e apelo mais amplo. O Primavera pode apostar em nomes grandes para sustentar o evento e ampliar sua comunicação, pode trazer seletores de primeira linha para dar densidade à pista e pode, ainda, abrir espaço para artistas brasileiros que já vêm construindo trajetórias consistentes e têm condições de representar muito bem esse campo dentro do lineup, reunindo segurança, repertório e diversidade sem perder a direção.

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