Pensar na música eletrônica do Primavera Sound São Paulo exige começar pelo que o festival já apresentou no Brasil. As duas edições deixam um traço bem evidente. Em 2022, o lineup reuniu nomes como Seth Troxler, John Talabot b2b Nicolas Lutz, Joy Orbison, DJ Python, VTSS b2b LSDXOXO e Boy Harsher, ao lado de nomes como Björk, Arca, Shygirl e Jessie Ware. Em 2023, apareceram nomes como The Blessed Madonna, DJ Playero, Tokimonsta, Hudson Mohawke, DJ K, DJ Mau Mau, Carlos do Complexo e Róisín Murphy. O que essas escolhas mostram é que o Primavera nunca tratou sua programação de música eletrônica como um bloco montado apenas para preencher uma demanda no festival. Há uma intenção de integrar grandes DJs, shows e artistas que trabalham em um campo mais híbrido, vindos de cenas diferentes, formando uma programação mais aberta e menos presa a um desenho previsível.
A edição de 2026 não chega em um momento comum. O Primavera volta ao Brasil depois de um intervalo que, de certa forma, atenuou sua força por aqui. Dito isso, não basta reaparecer com um lineup que entregue nomes reconhecíveis e resolva a programação de maneira protocolar. Trata-se de recuperar sua potência, restabelecer confiança e reafirmar quais são as características que fazem com que o festival siga sendo visto como algo relevante dentro de um calendário cada vez mais saturado. Nesse cenário, a música eletrônica pode cumprir um papel importante, desde que seja pensada de forma criteriosa.

O caminho mais fácil seria recorrer a atrações mais convencionais, muito familiares para quem está fora da cena e amplamente testadas em festivais grandes. Isso certamente ajuda a tornar a programação mais acessível, mas também aproximaria o Primavera de eventos que recorrem às mesmas soluções. A volta perderia força e soaria cautelosa demais para um festival que construiu seu nome em torno de escolhas capazes de indicar algum risco, algum repertório e alguma ambição.
Também não parece especialmente interessante seguir para o extremo oposto e concentrar a programação em artistas que falem quase só para um público já bastante próximo da música eletrônica. O Primavera nunca foi relevante por se fechar em uma única direção. Seu valor está ligado à capacidade de juntar públicos diferentes sem achatar a proposta no meio do caminho.
A combinação mais forte parece bastante clara: DJs com trajetória realmente sólida, capazes de conduzir uma pista com repertório e personalidade, ao lado de atrações que dificilmente passam pelo Brasil em outras circunstâncias. Um nome como Ben UFO, que está no lineup do Primavera Barcelona 2026, ajuda a explicar esse primeiro eixo. Sua presença aponta para uma curadoria interessada em critério, experiência e construção. Não seria uma escolha feita apenas para gerar reação rápida, mas para dar peso ao conjunto.
Em outra ponta, um projeto como Maribou State representa bem a segunda frente. Uma atração que dificilmente entraria com facilidade na rota brasileira por outros caminhos e que, dentro de um festival como o Primavera, ganha um espaço muito mais convincente. O mesmo pode ser dito de nomes como FKA twigs, presente no lineup de Barcelona 2026, que mistura Pop, produção eletrônica, performance e estética.
Dentro desse cenário, alguns nomes que começam a circular ajudam a entender o que pode acontecer. Gorillaz aparece como o rumor mais consistente até agora, principalmente pelo desenho de uma turnê latino-americana no mesmo período do festival, ainda sem datas anunciadas justamente em Brasil e Argentina. Charli XCX também aparece entre os nomes cotados e segue uma linha compatível com o histórico do festival. Sua relação com a música eletrônica já está consolidada há anos, tanto na produção quanto na forma como circula entre diferentes cenas, e sua presença dialoga com esse espaço mais aberto entre pista, pop e performance que o Primavera já apresentou nas edições anteriores.
Se esses movimentos de fato apontarem o caminho da edição de 2026, o que se desenha é uma possibilidade de conciliar ambição curatorial e apelo mais amplo. O Primavera pode apostar em nomes grandes para sustentar o evento e ampliar sua comunicação, pode trazer seletores de primeira linha para dar densidade à pista e pode, ainda, abrir espaço para artistas brasileiros que já vêm construindo trajetórias consistentes e têm condições de representar muito bem esse campo dentro do lineup, reunindo segurança, repertório e diversidade sem perder a direção.
