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A música conecta

Julio Torres e Ketoots encontram o ponto de equilíbrio em Stay a Bit Longer, pela Diynamic

Por Marllon Eduardo Gauche em Análise 23.04.2026

Lançar pela Diynamic é uma daquelas metas que praticamente todo produtor de música eletrônica já considerou em algum momento da carreira, seja pelo histórico da label, pela consistência da curadoria ou pela forma como o Solomun construiu um catálogo que atravessa diferentes frentes da house music. É nesse contexto que aparece Stay a Bit Longer, nova faixa dos brasileiros Julio Torres e Ketoots, que colaboraram em uma produção com estética mais clean, com groove bem definido e um cuidado grande com a relação entre instrumentos e vocal, que trazem uma linguagem humana e real. 

A construção da faixa passa muito por essa ideia de trazer apenas o essencial. O Ketoots somou especialmente com a sua musicalidade, contribuindo com o vocal, os synths, a linha de baixo, e o break que puxa para uma pegada mais electro. A bateria é precisa, a bassline sustenta bem o andamento, e os elementos entram com bastante critério, digamos que não há nada ‘sobrando’. Ao mesmo tempo, existe um contraste entre os instrumentos e o vocal, que acaba sendo um dos pontos centrais da track, não só pela letra em si, mas pela forma como ele conversa com o restante do arranjo.

Esse papel do vocal ajuda a entender melhor o caminho que eles seguiram na collab. Ele não está ali só para preencher espaço, ele realmente participa da música e guia parte do desenvolvimento desde o início. Isso aproxima a faixa de uma estrutura mais próxima de canção, algo que sempre esteve presente no trabalho do Julio Torres, que há muito tempo busca esse tipo de construção mais musical, muitas vezes trabalhando com músicos e pensando além da lógica puramente funcional de pista.

É preciso mencionar ainda como essa colaboração entre os dois faz sentido, já que quanto o Ketoots traz uma musicalidade mais orgânica, com atenção a timbres, harmonia e construção, Julio entra com uma leitura mais madura de groove e dinâmica de pista. A música vai se formando de maneira natural, com cada um contribuindo dentro do que já domina. Isso também deu um caráter bem autoral pra faixa, a base é de house, mas também tem linhas de disco, beats do electro… ou seja, não houve uma preocupação em seguir um recorte mais específico. Até porque essa questão de nomenclatura, de certa forma, limita, e quem faz música não pode trabalhar com limitação, principalmente dentro da música eletrônica, onde a liberdade é essencial. Por isso, ambos trabalharam a partir de suas referências, mas sem ficar preso a elas, buscando uma linguagem que fizesse sentido para os dois.

Esse resultado vem muito da mescla entre a bagagem de Julio Torres, com mais de 30 anos de carreira, e a ótica mais atual do Ketoots, projeto que começou a lançar seus trabalhos somente em 2024. Julio é um dos nomes mais sólidos e versáteis da cena brasileira. Desde o início, suas produções foram moldadas por influências diretas das cenas de Chicago e Detroit, algo que ainda hoje se reflete em sua sonoridade. Mas, ao longo do tempo, Julio expandiu esse repertório, criando uma assinatura própria que já foi aprovada por selos como Defected, Renaissance e pela própria Diynamic, onde já havia entregue um EP em 2024. Hoje, Torres tem cada vez mais trabalhos com novos DJs e produtores, o que tem gerado uma troca muito rica.

Do outro lado, Ketoots traz suas raízes de Salvador para o frenesi de São Paulo, hoje onde estão radicados. Bruno Fechine e Pedro Chaves são os nomes por trás do duo, multi-instrumentistas desde cedo que prezam muito pela originalidade dos sons que compõem as músicas. Por isso, sintetizam os próprios samples, manipulam gravações de maneira distinta e arranjam sob a perspectiva de musicistas. A ideia é trazer aquela sensação de familiaridade ou nostalgia, trazendo à tona sentimentos e memórias, já que bebem de fontes que vão de Daft Punk e Cassius a Michael Jackson e Skrillex.

Se fôssemos resumir, é possível dizer que Stay a Bit Longer é uma faixa que se apoia no groove aliado à sensibilidade musical e em escolhas bem pensadas, trazendo elementos humanos e orgânicos de forma natural. Não foi feita para funcionar em um momento específico, mas pensada como canção, com cuidado na construção, mas que, ao mesmo tempo, tem um poder muito forte de pista. Foge um pouco do que a Dynamic tem lançado recentemente, então isso também traz um significado ainda mais especial para o lançamento.

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