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A música conecta

Ber Bonet: música como resgate, clareza e fidelidade ao vinil

Por Marllon Eduardo Gauche em Notes 05.05.2026

Falar sobre Ber Bonet é, antes de tudo, falar sobre curadoria em sua forma mais visceral. O artista curitibano não se define apenas pelo ato de discotecar ou produzir, mas por uma busca incessante — e quase obsessiva — pela música que carrega alma, história e uma narrativa sensorial. Ber é o que o mercado convencionou chamar de digger nato, mas sua pesquisa não se limita a garimpar discos raros; ela se estende à absorção de conteúdos diversos, de documentários e filmes, passando por games e vídeos experimentais. Para ele, a música eletrônica é o ponto de convergência de uma vida inteira dedicada a ouvir, um vocabulário construído através de drum machines e sintetizadores para traduzir sentimentos que muitas vezes escapam às palavras.

Essa base musical é um mosaico complexo que começou a ser montado muito cedo. O contato com a música eletrônica veio através do irmão mais velho, despertando um fascínio pelo vinil já aos 12 anos, idade em que iniciou sua coleção. Aos 14, foi pela primeira vez no Club Vibe, em Curitiba, onde sentiu a atmosfera da cultura clubber. Foi o primeiro passo para começar a entender que a pista de dança era um lugar de conexão total. Com o tempo, em seu DNA sonoro, foi absorvendo a psicodelia dos anos 60, o peso do punk das décadas de 70 e 80, a crueza do rap dos anos 90 e a melancolia do indie dos anos 2000, bagagem que dita o ritmo de suas produções e a fluidez de seus sets, onde busca construir narrativas livres de restrições de gêneros, respeitando sua visão pessoal de que a música é o que mais importa.

No entanto, a trajetória de Ber Bonet é marcada por uma vulnerabilidade necessária que transformou sua arte. Por trás da precisão técnica do estudante de engenharia de som, existe um diagnóstico de TDAH e uma luta contra a dependência química, histórias foram divisores de águas em sua vida profissional e pessoal. A clareza conquistada através do tratamento e do cuidado com a saúde mental permitiu que ele transformasse o caos interno em foco artístico, substituindo a instabilidade emocional por uma visão realista e madura de seu trabalho. Nesse processo de reconstrução, a mentoria com Isis Salvaterra foi fundamental, ajudando-o a profissionalizar sua paixão e a entender que a carreira de um artista é construída com estratégia, paciência e, acima de tudo, verdade.

Essa nova fase trouxe uma rotina saudável, onde a música coexiste com o descanso e a preservação física. Ber passou a selecionar a dedo os eventos que frequenta, focando em curtir e conhecer cada vez mais o seu próprio acervo. Hoje, ele utiliza a música eletrônica de forma abstrata para traduzir informações colhidas em documentários e histórias, criando um som que é, ao mesmo tempo, cerebral e visceral. Essa clareza mental reflete-se em seu ecossistema criativo, onde projetos como a label By All Means, a gravadora Whatever Records e o projeto Escuta se conectam de forma orgânica.

A By All Means, que marcou o início de uma fase mais ativa em 2023, evoluiu significativamente com a entrada de Peco e João Henn no time, que ajudam a manter uma consistência maior nos eventos e publicações. Paralelamente, a Whatever Records surge como sua declaração de amor ao formato físico, afinal, para Ber, o vinil nunca foi apenas um fetiche estético, mas algo sempre muito pessoal, já que o disco representa um vínculo tangível com a arte e oferece um aspecto musical que ele não encontra no digital. Seu primeiro lançamento em vinil, em 2025 pelo selo 5511, sob o alias de Mellow Drift, foi a realização de um sonho antigo que validou sua posição como um representante do Brasil no cenário dos lançamentos físicos.

O sucesso do primeiro VA da Whatever Records deu a segurança necessária para seguir confiando em seu instinto, e o segundo release já está tomando forma com uma homenagem à influência da cena uruguaia em seu desenvolvimento, unindo um produtor de lá junto a um duo brasileiro. Em paralelo, criou o projeto Escuta ao lado de Luana Mello, Laura Marcon e Bruna Oliveira (Holz²). A iniciativa reúne convidados em encontros onde cada participante apresenta uma seleção de faixas que servem como ponto de partida para conversas sobre as músicas escolhidas e outros assuntos relacionados — reforçando o compromisso com a troca artística e o reconhecimento coletivo. No passado, Bonet também assumiu a residência nas festas Orbit e Candem, enquanto entende seu papel de conscientizar a cena a respeito dos riscos do abuso de drogas e da importância da saúde mental.

O futuro de Ber é desenhado com a precisão de quem entende que a boa comunicação torna os sonhos mais palpáveis. Ele enxerga seu papel como o de um propulsor da boa música, seja através de seus sets, produções ou da curadoria de seus selos. Com o objetivo de manter os releases fluindo pela Whatever e consolidar a By All Means, Ber continua a provar que a música eletrônica, em sua forma mais pura, é um reflexo direto dos ideais de quem a produz. Nos próximos dias, essa movimentação também se reflete na agenda: no sábado, dia 09, ele se apresenta em mais uma edição da By All Means, enquanto na quinta-feira seguinte, dia 14, realiza a estreia do projeto Escuta, em Curitiba.

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