No início dos anos 1990, em uma Berlim ainda em reconstrução cultural após a queda do muro, seis jovens começaram a se reunir não necessariamente com a intenção de formar um grupo, mas de entender melhor a música que estavam consumindo. Entre eles estava Alex Barck, que, ao lado de outros nomes, daria origem ao Jazzanova. Antes de qualquer identidade definida, o que existia ali era um interesse comum por repertório, mais próximo de um processo de descoberta do que de qualquer plano estruturado.
Mas essa história começa muito antes e precisa ser contextualizada. Nascido na Berlim Oriental, Barck formou sua bagagem em um contexto de acesso limitado à música ocidental, recorrendo a rádios piratas, revistas contrabandeadas e acervos públicos. A queda do muro, quando ele tinha 18 anos, foi o ponto de virada que o colocou diretamente dentro da cena de clubes da cidade, onde passou a desenvolver sets que cruzavam jazz, soul, hip hop e house. Em paralelo, mergulhou no garimpo de discos, hábito que o acompanharia por toda a carreira. Hoje, sua coleção ultrapassa 10 mil vinis.
E foi a partir desse repertório que o Jazzanova começou a se consolidar. O grupo nasce em 1995 com a intenção inicial de produzir faixas próprias para tocar nos sets, algo que rapidamente evolui para uma linguagem mais ampla, marcada pela fusão entre referências orgânicas e eletrônicas. Dentro dessa estrutura, Barck assume um papel menos visível, mas essencial. Ele próprio se define como “o homem no meio”, funcionando como ponte entre o núcleo de DJs e o trabalho técnico de estúdio, ajudando a traduzir ideias dentro de um coletivo que opera de forma horizontal.
Isso se expandiu ainda mais com a criação do Sonar Kollektiv, em 1997. Mais do que um selo, o projeto funciona como extensão da visão do Jazzanova, articulando lançamentos, compilações e uma leitura própria da música eletrônica. Como A&R, Barck participa diretamente da construção do catálogo do selo, apostando em artistas que transitam entre house, jazz, broken beat e downtempo. Além de desenvolver projetos como Paskal & Urban Absolutes, também se destaca como curador de compilações como Secret Love e Computer Incarnations For World Peace, voltadas à redescoberta de sonoridades dos anos 80. Para além de acompanhar tendências, o selo se firma por manter uma identidade consistente ao longo do tempo.
Fora do Jazzanova, sua trajetória também se expande em outras direções. Projetos como Prommer & Barck, ao lado de Christian Prommer, exploram uma fusão entre house, krautrock e texturas mais orgânicas, enquanto seu trabalho solo, especialmente no álbum Reunion, aponta para uma abordagem mais minimalista e eletrônica. Como remixer, já passou por nomes como Little Dragon e Jeremy Glenn, sempre mantendo essa coerência estética que atravessa diferentes formatos.
Mesmo na forma de tocar, essa construção de longo prazo aparece. Barck começou como DJ de rádio — atividade que mantém desde 1997 — e carrega até hoje essa lógica de seleção musical mais ampla. Apesar de ter migrado para o digital após perdas de alguns discos em turnês, ele mantém um processo rigoroso de digitalização de seus próprios vinis, preservando a qualidade sonora e o vínculo com o material original. Além disso, mantendo a essência do diggin, suas transições seguem uma lógica mais orgânica, com pequenas variações e imperfeições que mantêm o caráter mais humanizado do set.
É a partir dessa trajetória que sua presença no Brasil ganha ainda mais peso. No dia 22 de maio, Alex Barck se apresenta em Curitiba, no Mental Club, ocupando o PHD Rooftop em mais uma edição da Mental Entertainment; dia 23, toca no Caracol Bar, em São Paulo, festa também organizada pela Mental. O projeto, que surgiu em 2024, tem se estruturado a partir de uma ideia que prioriza a experiência musical acima de tudo. A curadoria segue uma linha que dialoga com tradições mais antigas da house, especialmente aquela que entende o DJ como responsável por conduzir um ambiente, e não apenas por mantê-lo em alta rotação. E trazer Alex Barck reforça esse direcionamento, já que é um artista cuja história está diretamente ligada à uma construção de set mais cuidadosa e aprofundada.
Vale destacar que, para esta edição, a organização anunciou uma ação especial liberando um lote de 100 ingressos gratuitos que foram esgotados no mesmo dia. Agora, a partir desta quarta (06), os ingressos passam automaticamente para o primeiro lote pago, intitulado “Mentalist”, a partir de R$30,00. Mais informações serão divulgadas no Instagram da Mental.