Texto por Lucas Baldo
A França é referência histórica em múltiplas frentes culturais, da arquitetura à música, com nomes como Edith Piaf e Serge Gainsbourg moldando gerações. Na música eletrônica contemporânea, o país segue como pioneiro. Entre seus principais representantes está David Guetta, um dos DJs e produtores franceses mais influentes da história, responsável por levar a dance music francesa ao topo das paradas internacionais. É também a casa do Daft Punk, dupla que redefiniu o que a house music poderia ser, levando faixas como One More Time a se tornarem clássicos mundiais e influenciando, sem que boa parte do público percebesse, uma geração inteira de ouvintes.
Essa influência tem nome: French Touch, subgênero da música eletrônica desenvolvido por volta dos anos 90, caracterizado pelo uso intenso de filtros, phasers, compressores e manipulação de samples retirados de discos de funk, soul e disco. Justice, Bob Sinclar, Cassius e o próprio Daft Punk ajudaram a consolidar essa sonoridade entre os anos 90 e o início dos 2000, projetando a cena francesa para o mundo.
+++ 4×4 | Músicas que ajudam a entender o French Touch
Enquanto o French Touch conquistava o mundo, outra cena crescia silenciosamente dentro dos clubes de Paris. Era ali, entre afterparties que atravessavam a manhã e pistas lotadas todos os finais de semana, que Dan Ghenacia começava a escrever a própria história. Veterano da cena underground parisiense, o DJ e produtor francês conquistou forte influência da costa dos Estados Unidos. Por volta dos 20 anos, passou um período em San Diego, na Califórnia, onde absorveu os elementos da house music e da psicodelia da região.
De volta à terra natal, no final dos anos 90, abriu uma loja de discos chamada Traffic Records. Sem perceber, a Traffic Records deixou de ser apenas uma loja de discos e passou a funcionar como um ponto de encontro para DJs, produtores e colecionadores da cena parisiense, e foi a partir dessa loja que Dan passou a discotecar e organizar as afterparties conhecidas como Kwality, no Le Batofar, entre 1998 e 2002. Festas que são lembradas até hoje.
Foi ali que seu som começou a ganhar forma: sem abandonar completamente suas raízes no French Touch, Dan começou a explorar uma house music mais profunda e pura, com elementos híbridos do techno. Essa sonoridade em construção o tornou uma referência crescente no cenário internacional, e ele se tornou presença frequente nas festas de Ibiza, especialmente no Circoloco, por volta dos anos 2000, além de turnês mundiais e passagens por clubes como Panorama Bar, em Berlim, e fabric, em Londres. Toda essa bagagem levou Dan a fundar o selo Freak n’ Chic em 2003, lançando artistas como Dyed Soundorom e Shonky, além do EP de estreia de Jamie Jones. Dyed, aliás, é o próximo nome dessa história.
Também nascido em Paris, Didier Soundorom teve seu primeiro contato com a música eletrônica de uma forma familiar para muita gente: seu irmão, Jedsa Soundorom, chegou em casa com uma fita cassete recheada de faixas de techno. A primeira impressão não foi boa. “Eu não fazia ideia do que era house ou techno. Na época eu só conhecia o que aparecia na TV, músicas como Black Box ou Robin S. Então meu irmão chegou em casa com uma fita cassete cheia de techno, mas, para ser sincero, eu não gostei muito de primeira”, disse em entrevista à Beat Magazine.
Aquela fita cassete acabou fazendo muito mais do que apresentar um novo gênero musical. Ela despertou uma curiosidade que mudaria completamente o rumo da vida de Didier. “Tinha uma faixa naquela fita pela qual eu me apaixonei. Comecei a pesquisar sobre ela, descobri mais sobre esse universo e comecei a sair para festas”, completou dizendo na mesma entrevista. Ainda adolescente, Dyed passou a frequentar regularmente o Les Bains Douches, um dos clubs mais comentados de Paris naquela época, que tinha como dono ninguém menos que David Guetta.
Mesmo sem ser exatamente o estilo dele, Dyed estava lá toda semana, e o olhar atento de Guetta já tinha reparado no jovem. “Estou observando você há algumas semanas. Gosto da maneira como você se comporta e conversa com as pessoas. Quero que você trabalhe como promoter para mim”, disse Guetta ao convidar Dyed Soundorom para trabalhar no Les Bains Douches. Na época, Dyed nem sabia direito o que um promoter fazia, mas esse trabalho mudou o rumo de sua vida.
Em 1998, durante o período como PR do Les Bains Douches, ele mergulhou de vez na cultura e na música eletrônica, comprando vinis e frequentando cada vez mais festas, entre eles a Kwality, no Le Batofar, a mesma festa comandada por Dan Ghenacia. Ali, Dyed se identificou com a proposta musical e encontrou o próprio estilo dentro da eletrônica, em um momento que se mostraria decisivo. David Guetta deu a Dyed a oportunidade de comandar sua própria festa dentro do Les Bains Douches. Foi justamente para essa noite que Dyed convidou Dan Ghenacia para tocar, dando início à aproximação entre os dois.
A amizade se fortaleceu nos anos seguintes, especialmente durante uma temporada em Ibiza, no início dos anos 2000, quando passaram semanas convivendo e dividindo experiências dentro e fora das cabines. Mas faltava uma peça para completar essa história. Enquanto Dan seguia com suas festas, que ganhavam proporções cada vez maiores em Paris, e Dyed continuava o trabalho de PR, uma noite na portaria do club apresentou a Dyed um jovem apaixonado por música eletrônica chamado Olivier Ducreux, que mais tarde seria conhecido mundialmente como Shonky.
Shonky já era presença constante na cena local e começava a construir sua própria trajetória como DJ. Foi nesse momento que a história dos três futuros integrantes do Apollonia se conectou de vez. Depois de criar amizade com Shonky, Dyed o levou até as festas do Batofar para conhecer Dan — embora Shonky já conhecesse Dan de vista, apenas como fã, segundo o próprio relato em entrevista à DJ Mag. Foi no meio das noites parisienses, com o som francês ganhando notoriedade mundial, que começou a amizade entre os três. Um longo período de convivência e uma relação genuína entre eles nos leva de volta ao ponto de partida: em 2003, Dan funda o selo Freak n’ Chic, que acabou funcionando como o primeiro espaço onde Dan, Dyed e Shonky passaram a construir projetos em conjunto e lançamentos individuais.
Shonky lança seu primeiro EP, Let Me Ask You, em 2005, com a faixa-título, Black Bird e Wake Up. As três apresentavam elementos de house e techno que já faziam parte da identidade musical desenvolvida por Shonky naquele período, somados às influências que ele absorvia acompanhando a carreira de Dan e a sonoridade mais peculiar de Dyed. Em 2006, Shonky começa a lançar por outros selos, como Crosstown Rebels, Sub Static e Resopal, ampliando sua presença fora da França. Enquanto isso, Dan acumulava residências em Ibiza e Dyed se especializava cada vez mais na produção e no estudo musical, o que lhe rendeu, em 2007, os primeiros passos profissionais oficiais: a participação no primeiro compilado da Freak n’ Chic, a Rendez-Vous 01, para a qual Dan convidou Shonky e Dyed para mixar os discos da coletânea.
“Eles são DJs incríveis e me apoiam desde o começo”, disse Dan sobre a participação de Dyed e Shonky na mixagem da primeira coletânea. Essa foi uma das primeiras vezes em que os dois trabalharam oficialmente dividindo um projeto dentro do selo. Em 2008, Dyed lança seu primeiro EP pela Freak n’ Chic, Question/Infection. Dyed afirma que foi Dan quem lhe deu a primeira oportunidade de lançamento, por acreditar no potencial e na qualidade do amigo de longa data. Essa trajetória culminou com a presença de Dyed entre os DJs mais votados da tradicional pesquisa anual da Resident Advisor, em 2010.
Chegamos ao ponto em que os três já faziam nome na cena global. Vale destacar que o Apollonia não nasceu de uma ideia de mercado ou de um momento oportuno. Ele vem de uma relação de mais de uma década entre três amigos que compartilhavam o mesmo objetivo dentro da cena eletrônica: recriar o sentimento de comunidade e conexão que os fez se conhecer. Esse desejo começou a ganhar contornos mais concretos após o auge da Freak n’ Chic. Durante seus últimos anos de atividade, o selo consolidou seu nome como um dos mais influentes da house underground europeia, colecionando trabalhos e lançando artistas, até o encerramento das atividades com Shonky assinando o último lançamento oficial do selo, o EP Cluborama, em 2010.
Depois de mais de dez anos dividindo pistas, cabines, viagens e lançamentos, faltava apenas materializar e dar um nome artístico a uma amizade que já existia. Foi então que em 2012 nasce Apollonia. Simultaneamente selo, coletivo artístico e projeto de DJs, o Apollonia nasceu para materializar a identidade musical construída por Dan, Dyed e Shonky ao longo de mais de uma década dividindo pistas e cabines. Ao mesmo tempo em que desenvolvia a identidade musical do trio, o selo também passou a abrir espaço para outros artistas que compartilhavam da mesma visão. Nomes como Janeret, Djebali, Chris Carrier, Voigtmann e Louie Fresco passaram pelo catálogo, reforçando o compromisso do coletivo em impulsionar novos lançamentos e fortalecer a comunidade em torno da house music underground.
O trio fez seu lançamento de estreia em 25 de junho de 2013, com o EP Trinidad. Pouco depois, o trio também seria responsável pela mixagem da fabric 70, uma das edições da tradicional série da fabric, mantendo a proposta de tocar no formato b2b2b. Já a série Tour à Tour também recebeu lançamentos em vinil, formato que sempre fez parte da identidade artística do trio, com o lançamento digital ocorrendo no fim de 2014 e o vinil logo em seguida, no início de 2015.
A sonoridade sempre foi pautada nas raízes da house music, entrelaçadas à vivência dos três dentro da cena underground parisiense. Ao longo da carreira, o trio priorizou a cultura clubber, dos long sets e do vinil, mantendo sua identidade voltada para a pista de dança. O resultado é o respeito de uma cena inteira: as faixas do Apollonia seguem tocando ao redor do mundo, levando um som que nasceu de uma amizade de longa data para as pistas e públicos mais diversos possíveis. Faz sentido, então, que o Surreal Park não pudesse ficar de fora desse movimento.
Dyed já conhece bem o club e coleciona duas passagens individuais por lá, uma em 2021 e outra mais recente, em janeiro deste ano. Agora chega a vez do trio completo pisar no Surreal Park e retornar ao Brasil depois de quase 10 anos sem contato direto com o país. Essa apresentação única no Brasil, que acontece no dia 17 de julho, ganha um peso a mais por integrar o lineup do aniversário de 4 anos da Botanic, label referência no minimal brasileiro cujos pilares e proposta conversam diretamente com a história do trio parisiense.
Talvez esse seja o maior legado do Apollonia. Muito além dos clubes históricos, das turnês e dos discos lançados, o trio consolidou uma forma própria de se conectar com a pista da mesma maneira que a música os conectou entre si. Dan Ghenacia, Dyed Soundorom e Shonky transformaram uma amizade iniciada na cena underground parisiense em uma das narrativas mais consistentes da house music contemporânea, mostrando que algumas conexões atravessam décadas, evoluem com o tempo e preservam a essência que deu origem ao projeto.