Quem acompanha Victor Ruiz principalmente pelos clubs e festivais pode estranhar os primeiros minutos de VICTOR, seu álbum de estreia, assinado pela VOLTA. O LP de 14 faixas não começa com a pressão do techno que consolidou seu nome mundo afora, mas com uma introdução nostálgica que parece abrir a porta para uma história muito mais pessoal. O título da faixa, 110889, faz referência à sua data de nascimento e já dá uma pista importante sobre o que virá pela frente. Este não é um disco sobre o Victor Ruiz que todos conhecem na pista, embora ele também esteja presente. É um álbum sobre o Victor anterior ao artista, sobre suas memórias, suas referências e tudo aquilo que ajudou a formar sua relação com a música.
Silence aparece logo depois e funciona como uma ligação com a fase mais conhecida de sua discografia. Primeiro single apresentado antes do álbum e já com mais de 200 mil plays, a faixa traz um techno bastante característico de Victor, com uma sonoridade que remete a produções lançadas por ele quando estava se estabelecendo no techno. Pessoalmente, me lembrou muito a icônica Arise. A partir dali, o álbum começa a se afastar do caminho esperado e a mostrar um produtor interessado em trabalhar com outros estilos, velocidades e, principalmente, outra relação com a própria música.
Grande parte do disco é formada por faixas mais lentas, melódicas e expansivas, com bastante espaço para breakbeat, trip-hop, downtempo e estruturas que se aproximam mais de uma banda do que de uma produção feita exclusivamente para DJs. Alone é um dos primeiros exemplos disso. O trabalho de sintetizadores e o caráter introspectivo lembram algumas produções do Moby, artista que faz parte das referências de Victor.
Essa relação com o passado fica ainda mais evidente em Sundance, colaboração com Perry Farrell, vocalista do Jane’s Addiction. Antes da música eletrônica, Victor teve uma forte ligação com o rock e o heavy metal, chegou a tocar contrabaixo e cresceu ouvindo bandas que ainda hoje fazem parte de seu repertório. Na faixa, além da presença de Farrell, as guitarras foram gravadas pelo irmão do produtor. A própria base musical também atravessa diferentes momentos de sua vida: segundo Victor contou à Billboard, ela combina uma melodia recente com um arquivo encontrado em um HD de 2010. É um recorte do passado entrando no seu processo criativo de maneira natural, através de arquivos, instrumentos, artistas e pessoas que fizeram parte de sua formação.
Nature Rewards Courage retoma o breakbeat ao combinar suas melodias com a voz delicada de Echo Romeo — retomando a parceria iniciada em 2024 com Trippin Ballz —, enquanto The Secret desacelera o compasso, trabalha com vocais modulados, uma linha de baixo mais áspera e acordes de violão dentro de uma construção próxima do indie dance. Better Days, com Luke Cusato, segue por um caminho parecido e soa como uma música pensada para compor a narrativa do álbum, assim como When Words Fail…, uma faixa quase que totalmente instrumental, apenas com alguns sussurros vocais ao fundo como adorno; uma passagem discreta dentro do álbum, mas importante para sustentar seu clima íntimo e introspectivo.
Skyfall, com o cantor brasileiro Enrico Minelli, vocalista da banda paulista Canvas, se aproxima do downtempo e coloca o vocal em primeiro plano em uma das faixas mais emotivas do álbum. E quando o caráter de pista volta a aparecer com mais clareza, ele também vem por outro caminho. Running recupera aos poucos uma pulsação mais dançante, mas conserva o caráter expansivo do álbum, lembrando, inclusive, o melodic house presente em alguns trabalhos do Bicep.
You Deserve It All, produzida com sua esposa Tao Andra, apresenta uma incursão pelo drum and bass, território praticamente inédito na discografia de Victor. A escolha amplia ainda mais o repertório rítmico do disco e ganha também um caráter pessoal pela presença de Tao. Technicolor é uma das faixas que melhor conecta esse “novo” Victor ao produtor que conhecemos nos clubs. Ela tem uma construção relativamente simples, sem muitas viradas, mas carrega um peso emocional que faria sentido no encerramento de um set. Em vez de retornar à estética de pista com linhas mais pesadas, Victor retorna pela melodia.
Life Is But a Dream prepara o encerramento com uma composição praticamente formada por sintetizadores em loop e pads melódicos. É uma música delicada, que parece suspender o álbum por alguns minutos antes de The Great Mystery fechar o ciclo. A última faixa começa com o som de um relógio que, na minha escuta, remete à Time, do Pink Floyd, outra banda importante na história musical de Victor. Sobre essa base aparece a voz de Ram Dass, psicólogo, professor e figura central da contracultura e da espiritualidade ocidental, falando sobre como a morte é um lembrete para viver plenamente o momento e entregar-se ao amor.
VICTOR não é um álbum feito para performar nos charts de techno ou abastecer os sets dos próximos meses. O produtor brasileiro já passou por fases suficientes e construiu uma carreira sólida o bastante para não depender disso neste novo trabalho. O disco mostra o que ele também gosta de ouvir e produzir quando não precisa responder às expectativas criadas em torno de seu nome. Resgata a infância, a adolescência, o rock, a música eletrônica, as pessoas próximas e os arquivos esquecidos no computador. É sobre um artista totalmente livre mostrando ser possível criar sem amarras, porque o que precisava ser provado já foi. E, muitas vezes, é assim que um artista encontra sua forma mais verdadeira: não tentando ser o que não é, nem o que querem que ele seja, mas assumindo tudo aquilo que sempre fez parte dele.