O drum and bass chegou ao Brasil enquanto sua própria definição ainda estava em formação no Reino Unido. No início dos anos 90, hardcore, jungle e as primeiras formas do que passaria a ser chamado de drum and bass encontraram espaço principalmente em São Paulo, onde DJs como Marky, Patife e outros nomes daquela geração começaram a incorporar aquelas batidas aceleradas aos seus repertórios.
O desenvolvimento dessa cena, porém, não aconteceu de maneira uniforme pela cidade. No documentário Drum In Braz, produzido em 2001, seus protagonistas recordam um período em que o som encontrava público sobretudo nas periferias, enquanto era recebido com resistência em outros circuitos da noite paulistana. As batidas quebradas chegaram a ser tratadas de forma depreciativa como “bate-panelas”, ao mesmo tempo em que festas, programas de rádio, lojas, DJs e produtores começavam a formar ao redor delas uma cultura própria.
A produção musical se tornou uma parte decisiva desse processo. XRS, Ramilson Maia, Drumagick, DJ Patife e DJ Marky estavam entre os artistas que passaram a trabalhar o drum and bass a partir das referências que possuíam ao redor: samba, bossa nova, MPB, jazz, instrumentos acústicos e diferentes tradições brasileiras entraram em contato com breakbeats e linhas de baixo.
Na virada dos anos 2000, essa produção encontrou também uma audiência fora do país. A relação com a britânica V Recordings teve peso especial nesse movimento: The Brasil EP, lançado em 2001, reuniu trabalhos de nomes como Fernanda Porto, DJ Patife, DJ Marky, XRS e Max de Castro; no ano seguinte, LK, de Marky e XRS, transformaria esse intercâmbio em um dos maiores episódios internacionais da história do DnB brasileiro.
A história não terminou naquela geração nem permaneceu restrita à estética que ficou conhecida internacionalmente como brazilian drum and bass ou sambass. Nas décadas seguintes, produtores como Bungle, S.P.Y, L-Side, Alibi, Urbandawn e outros passaram a ocupar catálogos fundamentais do gênero explorando caminhos bastante diferentes entre si. S.P.Y estreou pela Metalheadz e posteriormente se tornou um dos nomes de destaque da Hospital Records; Urbandawn também entrou para o catálogo da Hospital, enquanto artistas como L-Side e Alibi mantiveram a relação histórica entre produtores brasileiros e a V Recordings.
Nesta Timeline, revisitamos clássicos que ajudam a acompanhar essa trajetória: da formação de uma identidade própria nos anos 90 à consolidação de diferentes gerações brasileiras dentro do drum and bass internacional.
XRS Land – The Secrets of the Floating Island ’99 [1999]
Antes de o DnB brasileiro ganhar projeção internacional, XRS já mostrava que aquela linguagem poderia assumir outra identidade em São Paulo. Lançada originalmente em Sarau, em 1999, a faixa se tornou um registro pioneiro dessa aproximação e, dois anos depois, abriu o The Brasil EP da britânica V Recordings.
Fernanda Porto – Sambassim (DJ Patife Remix) [2001]
Antes mesmo de integrar The Brasil EP, Sambassim já havia alcançado a BBC em 2000, tornando-se a primeira produção brasileira de DnB tocada pela emissora. O remix de Patife registra um momento em que o intercâmbio entre São Paulo e Londres começava a produzir repercussão concreta.
Drumagick – Easy Boom [2002]
Easy Boom ganhou força primeiro pelas mãos dos DJs: Patife levou a faixa em seus dubplates para fora do país, enquanto Gilles Peterson posteriormente a licenciou. Para o Drumagick, foi o trabalho que ajudou a transformar reconhecimento dentro da cena brasileira em portas abertas para uma carreira internacional.
DJ Marky & XRS feat. Stamina MC – LK [2002]
Com LK, aquilo que vinha sendo construído no underground brasileiro alcançou uma escala inédita: 17º lugar no UK Singles Chart e uma apresentação no Top of the Pops. Por alguns minutos, uma história desenvolvida entre pistas brasileiras e viagens a Londres estava diante da televisão britânica.
Bungle – Too Late [2006]
Quando Andy C começou a tocar Too Late e a incluiu em Nightlife 3, a faixa ganhou vida dentro do circuito britânico. Seu sucesso pela então pequena Critical Music marcou também outra etapa para os produtores brasileiros: reconhecimento internacional sem depender da estética associada ao Sambass.
S.P.Y – Favela [2010]
Lançada pela Metalheadz em 2010, Favela chegou cinco anos depois de S.P.Y já aparecer no catálogo do selo com Till Dawn. Já distante do primeiro boom brasileiro, a faixa representa uma geração para a qual estar entre os principais nomes e selos britânicos do DnB havia se tornado uma trajetória quase natural.
Alibi feat. MC Coppa – Trunk [2017]
Dezesseis anos depois de The Brasil EP, uma nova geração seguia encontrando na V Recordings uma ponte com o circuito internacional. Trunk chegou em um período de crescimento do Alibi, com suporte de nomes como Andy C, Bryan Gee, Marky e DJ Hype, renovando uma conexão histórica entre Brasil e selo.
Urbandawn feat. Tyson Kelly – Come Together [2019]
A vencedora de Best Track no Drum&BassArena Awards, Come Together transformou Urbandawn em um dos nomes brasileiros mais visíveis da geração. O apoio de artistas como Andy C e Camo & Krooked antecipou uma recepção que fez da faixa um dos grandes acontecimentos do DnB em 2019.