O deep house nasceu dentro da própria formação da house music, antes de existir como uma categoria claramente delimitada. Em meados dos anos 1980, a cena de Chicago já absorvia disco, soul, r&b e jazz-funk ao mesmo tempo em que produtores exploravam as novas possibilidades oferecidas por sintetizadores e drum machines. Larry Heard, sob o nome Mr. Fingers, tornou-se uma figura central nessa transformação: faixas como Mystery of Love e Can You Feel It trocaram parte da urgência mais seca da house por progressões harmônicas, atmosferas e uma sensação de espaço que ajudariam a estabelecer a linguagem associada ao deep house.
Mas o próprio nome “deep house” demorou a adquirir o significado de gênero que conhecemos. Antes da explosão britânica do acid house em 1988, o termo era pouco necessário em Chicago: house podia se referir tanto às produções contemporâneas quanto a discos dos anos 1970 que faziam parte daquela linhagem, e “deep” dizia mais sobre uma tradição e uma forma de tocar do que sobre uma prateleira musical específica. Nos anos seguintes, a distinção se tornou mais clara. Soul, gospel, jazz e blues permaneceram elementos fundamentais, enquanto nomes como Kerri Chandler, Chez Damier, Ron Trent, Moodymann e Theo Parrish ampliaram suas possibilidades ao longo da década de 1990.
Essa evolução também explica por que definir deep house nunca foi tão simples quanto estabelecer um BPM, uma bateria ou um tipo de acorde. O termo mudou conforme diferentes cenas se apropriaram dele: ganhou novos contornos nos Estados Unidos durante os anos 1990, encontrou pontos de contato com o minimal techno europeu e, já nos anos 2010, passou a ser utilizado para classificar uma música bastante diferente daquela associada às suas origens. Poucos gêneros eletrônicos tiveram seu nome tão disputado ao longo do tempo. Entender o deep house, portanto, também significa entender as diferentes coisas que essas duas palavras já representaram. Aqui vão 5 coisas que talvez você não saiba sobre a história do estilo:
1. O acid house ajudou a dar nome ao deep house
Até 1988, pelo menos em Chicago, não havia tanta necessidade de separar aquilo que hoje entendemos como deep house do restante da house music. “House” também carregava referências anteriores ao próprio gênero e descrevia uma linhagem musical e uma maneira de tocar.
A mudança ganhou força quando o Reino Unido viveu sua explosão de raves e passou a utilizar “acid house” de maneira muito mais abrangente, praticamente como sinônimo daquela nova música eletrônica americana. A popularização dessa nomenclatura criou a necessidade de distinguir outras abordagens e ajudou a fazer de “deep house” uma categoria mais específica.
2. Mystery of Love nasceu praticamente em uma única tomada
Um dos discos fundamentais dessa história surgiu de maneira surpreendentemente direta. Larry Heard havia acabado de comprar um sintetizador Roland Jupiter-6 quando criou Mystery of Love, em 1985, explorando uma progressão harmônica que ajudava a diferenciar sua música de boa parte da house produzida naquele momento. A gravação foi feita em uma única passagem diretamente para uma fita cassete.
Heard produziu apenas três acetatos: ficou com um deles e entregou os outros dois a Frankie Knuckles e Ron Hardy, dois dos DJs mais importantes da Chicago daquele período. Uma produção quase artesanal que acabaria se tornando uma das referências fundamentais para aquilo que seria identificado como deep house.
3. Nos anos 90, deep house também significava escolher um lado da pista
A diferença entre deep house e outras vertentes não era apenas musical. Nos Estados Unidos dos anos 1990, ela também podia indicar diferentes comunidades e maneiras de ocupar a noite. Ao relembrar Nova York em 1993, Darshan Jesrani, do Metro Area, descreveu uma divisão entre o público do deep house, que percebia como mais urbano, mais velho, sofisticado e com maior presença gay.
Ao mesmo tempo, a house começava a alcançar rádio e charts com muito mais frequência. Nesse contexto, o deep house também funcionava como um espaço de continuidade para uma cultura de club mais ligada às tradições que haviam formado a própria house music.
4. Uma gravadora de 1993 ajudou a redefinir o significado de deep house
Quando Chez Damier, Derrick May e Ron Trent criaram a Prescription Records em 1993, o deep house já não era exatamente o mesmo da década anterior. Lançamentos como Morning Factory, de Chez-N-Trent, e The Wanderer (Journey Man Thump), de Romanthony, além do trabalho de nomes como Gemini, ajudaram a estabelecer uma nova interpretação para o gênero.
Em vez de simplesmente reproduzir a primeira geração de Chicago, aquela música transportava gospel, blues e jazz para produções contemporâneas e ampliava a profundidade harmônica, rítmica e emocional associada ao termo. A Prescription tornou-se, assim, uma peça importante na construção daquilo que passou a ser entendido como deep house durante os anos 1990.
5. Nos anos 2010, deep house passou a significar outra coisa para muita gente
Talvez nenhuma transformação seja tão reveladora quanto aquela ocorrida décadas depois. Durante os anos 2010, plataformas, lojas digitais e uma nova geração de produtores começaram a usar “deep house” para classificar uma música mais digital, pesada nos graves e frequentemente próxima do tech house.
A mudança incomodou parte da comunidade ligada à tradição do gênero: em 2016, a Pressure Radio chegou a declarar que o nome havia sido “sequestrado”, enquanto outras leituras históricas também contestam a classificação popularizada pelo Beatport naquele período. Mais do que uma simples discussão entre puristas, o episódio mostra uma característica recorrente da música eletrônica: gêneros não mudam apenas sonoramente; os próprios significados de seus nomes também podem ser reescritos.
Bonus track: antes do YouTube, existiu uma espécie de universidade online do deep house
Em 1997, quando o MP3 ainda estava longe de fazer parte do cotidiano, Gerard Rose, conhecido como Gman, colocou no ar a Deep House Page. O site disponibilizava sets históricos de Frankie Knuckles, Ron Hardy, Farley Jackmaster Funk, Lil’ Louis e outros nomes de Chicago, além de figuras fundamentais de Nova York como Larry Levan e Tony Humphries. Em uma internet ainda rudimentar, gravações circulavam em RealAudio ou arquivos de baixíssima qualidade, enquanto fóruns reuniam colecionadores, DJs e pesquisadores em torno daquela história.
A Deep House Page se tornou um divisor de águas na preservação da memória da house: além de reunir registros que antes circulavam principalmente em fitas cassete, o site ajudou a codificar o próprio significado de deep house e formou novas gerações de DJs e produtores muito antes de YouTube, SoundCloud ou plataformas de streaming tornarem esse tipo de pesquisa algo cotidiano.