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A música conecta

O som de hoje sobreviverá ao futuro?

Por Alan Medeiros em Crônicas 01.09.2026

Em 2025, cerca de 106 mil novas faixas chegaram às plataformas de streaming todos os dias. É um número difícil de visualizar: mais de quatro mil por hora, dezenas enquanto uma única música toca até o fim. A oferta nunca foi tão grande. Ainda assim, abundância não é a mesma coisa que longevidade. Quase metade das 253 milhões de faixas disponíveis no streaming no ano passado teve menos de dez reproduções. Dez. A música se tornou infinita antes que a atenção pudesse acompanhá-la.

Na pista, essa contradição aparece de outra forma. DJs cercados por lançamentos continuam encontrando alguns de seus momentos mais decisivos em discos feitos vinte ou trinta anos atrás. Uma linha de baixo dos anos 1990, um vocal do início dos 2000, um clássico que todo mundo reconhece antes mesmo de lembrar o nome. Não necessariamente porque o passado tenha produzido música melhor, mas porque essas faixas tiveram tempo para ganhar uma segunda chance. Foram testadas em clubs, esquecidas, redescobertas, atravessaram mudanças de gosto e permaneceram disponíveis quando a novidade ao redor delas desapareceu.

Depois da pandemia, a nostalgia parece ter deixado de ser apenas uma visita ao passado para se tornar parte importante da linguagem do presente. Ao mesmo tempo, a música nova circula em ciclos cada vez mais curtos: um gênero cresce, uma trend domina os feeds, determinada estrutura aparece em centenas de lançamentos e, pouco depois, outra coisa ocupa seu lugar, sem mais nem menos. O problema talvez não seja a falta de identidade, mas a velocidade com que ela se desfaz. Antes que um som consiga se consolidar, criar público e adquirir algum significado coletivo, outro já começa a disputar o mesmo espaço. O mercado pede por isso. 

Um hino atemporal só recebe esse nome depois de sobreviver ao tempo. Mas como sobreviver ao tempo em uma época que parece não temos tempo suficiente para quase nada? Entre as milhares de músicas lançadas nesta semana pode estar uma que alguém tocará em 2046 e fará um club inteiro se reconhecer nela. O problema é que talvez ela esteja escondida em um lugar que nunca tenhamos tempo ou capacidade para encontrar. 

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