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A música conecta

Por que o DJ homem não precisa posar de sunga?

Por Elena Beatriz em Notes 02.09.2026

Em 2017, Claudia Assef e Monique Dardenne, criadoras do Women’s Music Event, concederam uma entrevista ao Alataj e discutiram os critérios que atravessavam a valorização de mulheres na indústria musical. Ao serem questionadas sobre a influência da beleza nos bookings de DJs, responderam:

“Mas pensa bem, quantas vezes você viu o DJ Marky, por exemplo, posando pra uma press picture usando sunga? Será que precisa apelar pras roupas curtinhas pra descolar mais bookings? Tenho minhas dúvidas.”

A comparação expõe uma assimetria que o mercado aprendeu a tratar como natural. Para DJs homens, desejabilidade raramente aparece como uma exigência para que repertório, técnica e trajetória bastem como credenciais. Para muitas mulheres, porém, esses atributos ainda não são suficientes sozinhos: ao reconhecimento artístico se soma uma expectativa sobre aparência, sensualidade e capacidade de despertar interesse também fora da música.

Essa combinação ainda produz uma grande contradição. A aparência pode favorecer divulgação, ampliar alcance e participar da construção de uma artista, mas o mesmo elemento que gera valor comercial também costuma ser usado para relativizar o trabalho que permitiu a ela ocupar determinado lugar. Aquilo que a indústria explora como ativo retorna, em seguida, como suspeita sobre mérito.

Essa foi uma das questões discutidas recentemente no Alataj, no artigo Os impactos da hipersexualização feminina no meio artístico. Sexualização e autonomia não são forças opostas: uma artista pode desejar construir uma imagem sensual, participar integralmente dessa escolha e obter benefícios profissionais com ela conscientemente. Ainda assim, ter essa liberdade pressupõe também a possibilidade de abandonar essa estratégia, modificar ou simplesmente não utilizá-la sem descobrir que parte do interesse profissional dependia da manutenção daquela versão de si.

A pressão raramente precisa ser explícita para produzir efeito. O próprio mercado indica, pela forma como distribui atenção e oportunidade, quais escolhas tendem a ser recompensadas, por exemplo, quando certas fotografias alcançam mais pessoas, determinados registros recebem prioridade na divulgação e alguns perfis despertam maior interesse de marcas, agências e contratantes. Ao repetir esse padrão, uma decisão aparentemente individual passa a ser informada por sinais bastante concretos sobre o que favorece visibilidade e acesso. 

As redes sociais ampliaram essa negociação. Quando a entrevista foi publicada, em 2017, Instagram e outras plataformas já influenciavam a construção de uma carreira, mas a exigência atual de produzir conteúdo continuamente transformou imagem, rotina e personalidade em recursos permanentes de divulgação e fomento do próprio trabalho. DJs não podem mais surgir publicamente apenas para falar sobre um lançamento ou de uma apresentação; é necessário prender a atenção entre esses acontecimentos, e a sensualidade feminina continua possuindo um valor comercial difícil de ignorar dentro dessa economia.

Por isso, a comparação proposta por Claudia e Monique conserva sua precisão, mesmo nove anos depois. Para um DJ homem, prescindir da própria desejabilidade como recurso de carreira tende a ser uma possibilidade muito mais naturalizada: repertório, técnica e trajetória podem permanecer como credenciais suficientes. Não oferecer nada além da música ao olhar de quem contrata, divulga ou acompanha seu trabalho raramente produz sobre ele a mesma expectativa de compensação através da aparência.

Será que as mulheres recebem a mesma autorização de poder abrir mão desse capital visual sem perder alcance, investimento, divulgação ou bookings? Artistas mulheres podem deixar de corresponder ao tipo de imagem que costuma ser recompensado sem descobrir que parte do interesse profissional estava condicionada a ele?

É possível ser artisticamente interessante sem precisar continuar interessante para o desejo de quem está olhando? Para os homens, essa liberdade costuma ser tão banal que sequer precisa ser reivindicada. Para as mulheres, ainda é preciso descobrir quanto custa exercê-la.

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