Uma versão escondida em uma fita cassete, uma gravação ao vivo encontrada quase por acaso ou um ritmo regional pouco presente nas cabines podem ter, para Tahira, o mesmo valor de um disco consagrado. Ao longo de mais de três décadas como DJ, período em que também passou a atuar como produtor musical e label manager, ele construiu seu repertório procurando aquilo que costuma escapar das rotas mais previsíveis de descoberta e fazendo desse garimpo uma maneira de valorizar a dimensão das produções brasileiras.
Curiosamente, parte desse interesse ganhou profundidade quando sua carreira começou a levá-lo para fora do país. Ao passar um tempo na Europa, Tahira percebeu que conhecer melhor a música produzida no Brasil também significava encontrar algo próprio para apresentar diante de públicos acostumados a receber apenas uma parcela de nossa cultura. O movimento para fora acabou conduzindo sua escuta para dentro, em uma investigação que cresceu à medida que ele descobria o quanto ainda desconhecia sobre o lugar de onde vinha.
Essa inquietação ajuda a explicar uma parcela de uma trajetória que procura relações, versões, artistas e caminhos capazes de ampliar sua própria compreensão do Brasil e, consequentemente, a de quem encontra essas escolhas em seus sets. A seguir, quatro prismas ajudam a observar como essa curiosidade ganhou forma ao longo de sua carreira.
Este é o Raio X do Alataj.
Valorização nacional
Tahira faz da discotecagem uma forma de ampliar a presença da música brasileira nas cabines, reunindo diferentes épocas, regiões e estilos enquanto questiona a facilidade com que referências estrangeiras recebem atenção diante de ritmos produzidos no próprio país. Sua crítica não parte da rejeição às influências norte-americanas ou europeias, mas da diferença de valor atribuída a elas quando comparadas a expressões regionais como samba de coco, ciranda ou mpb.
Levanta Poeira – Afro-Brazilian Music & Rhythms From 1976–2016, lançada pela Jazz & Milk em 2018, reuniu nomes como Gilberto Gil, Barbatuques e Forró Red Light; Brasil Novo voltou a atenção para artistas contemporâneos; já Tapioca – Brasil Diverso, de 2025, apresenta combinações recentes que aproximam baile funk e jazz, guitarrada e eletrônica, forró e ijexá, samba de coco e outras referências. Sua valorização da cultura nacional inclui tanto aquilo que corre o risco de ser esquecido quanto as transformações que continuam acontecendo no presente.
Curadoria afiada
Como um bom DJ, Tahira garimpa música em vinil, fita cassete, CD, rádio, internet, sebos e até conversas cotidianas. Embora a tecnologia também faça parte de sua rotina, ele considera que os algoritmos dificilmente alcançam o nível de especificidade que procura, especialmente quando seu interesse está em uma determinada versão de uma música.
Um caso ocorrido durante a preparação de Brasil Novo ajuda a apresentar esse cuidado. Tahira conheceu Dunas, do Toró Instrumental, por meio da gravação de um show realizado em um bar de São Paulo e decidiu que queria aquela interpretação na compilação, mesmo com a existência de outra versão disponível. Ao conversar com a banda, descobriu que a apresentação havia sido registrada e conseguiu incluir Dunas (Live) no disco, onde apareceu como uma das gravações até então inéditas selecionadas por ele e Tim Garcia.
Da descoberta ao edit
A pesquisa também alimenta o trabalho de Tahira como produtor, especialmente através de edits e remixes. Um dos casos mais conhecidos é sua versão de Toda Menina Baiana, de Gilberto Gil, desenvolvida com instrumentos gravados por integrantes da Bixiga 70 e colaboração de Guilherme Lopes, do Drumagick. O trabalho chegou ao próprio Gilberto Gil, que compartilhou o edit em seus perfis, episódio que Tahira posteriormente descreveu como uma grande honra.
Essa prática se espalhou por diferentes momentos de sua produção e ganhou uma síntese em Minhas Versões, lançado pela Poeira Music. O projeto reúne trabalhos feitos a partir de músicas de nomes como Mundo Livre S.A. com DJ Pedrosa e Letícia Fialho, passando por remixes, reworks e edits. Dentro desse processo, a descoberta de uma música pode abrir uma etapa seguinte, na qual Tahira interfere sobre aquilo que encontrou e cria outra possibilidade para a faixa.
Poeira Music
Criada por Tahira, o selo Poeira Music funciona como uma extensão de sua pesquisa sobre a música brasileira contemporânea. Ao criar uma estrutura própria para lançar artistas, compilar repertórios e disponibilizar materiais de produção, Tahira ampliou sua atuação para além da cabine e transformou parte de sua pesquisa em uma plataforma de circulação para outras expressões da música brasileira.