O conteúdo do Alataj de hoje é muito diferente daquele que produzíamos em 2017, quando completamos cinco anos. Também é muito diferente do que fizemos durante a pandemia, período que trouxe muitos novos leitores e seguidores para perto da plataforma. E certamente será diferente do conteúdo que estaremos produzindo daqui a cinco anos. Parte dessas mudanças nasceu de decisões editoriais. Outra parte, não. Em vários momentos, fomos obrigados a nos adaptar às transformações tecnológicas para continuar comunicando nosso assunto para o maior número possível de pessoas.
Talvez o momento atual seja um dos mais desafiadores nesse sentido. Não existe muita clareza sobre o que “funciona” ou não nas redes sociais. Ao mesmo tempo, as plataformas parecem pedir conteúdos cada vez mais simples, rápidos e mastigados, enquanto nossa vontade continua sendo entregar profundidade. Confesso que dói ver um conteúdo que recebeu horas de pesquisa, criação, edição e revisão morrer no limbo das redes sociais com um alcance pífio. Fingir que isso não importa seria mentira. Por isso estamos sempre nos atualizando.
Mas essa atualização não pode acontecer de qualquer forma. Gosto de pensá-la pela ótica de William Morris, poeta, escritor e designer inglês que rejeitava a ideia de beleza como um acabamento acrescentado ao produto no final, algo meramente ornamental. Para Morris, trabalho, utilidade, material e beleza deveriam fazer parte de um mesmo processo. O esmero não estava na decoração, mas na forma como algo era pensado e realizado desde o começo.
Em termos práticos, isso significa tornar nosso conteúdo mais traduzível para a forma como as redes funcionam hoje sem deixar de lado o cuidado com a curadoria, a boa escrita e o design. O ponto central dessas mudanças, porém, não é simplesmente fazer algo mais simples ou mais impactante. É encontrar as histórias certas e entender a melhor forma de contá-las dentro dos diferentes formatos da nossa editoria.
O site segue sendo nossa espinha dorsal, mas estamos cada vez mais atentos à criação de formatos nativos de social media. A seção Cápsula, exclusiva em carrossel no Instagram, é um exemplo. As Listas em Reels também: embora simples na forma, procuram abrir espaço para assuntos e artistas relevantes. Seguimos contando histórias do presente e do futuro da cena através do Panorama. No Todo Artista Tem Uma História, encontramos um espaço para produzir algo mais próximo de um perfil, só que em vídeo.
Eu mesmo tenho buscado estar mais presente nessa frente. Seja através do formato Vlog, seja no Primeiras Impressões, falando sobre novos lançamentos. No Resgate, a proposta é recuperar faixas do passado que ainda carregam uma energia especial. Outros formatos de vídeo serão testados nas próximas semanas. Nem todos vão ficar. Faz parte. Estamos tentando entender como ocupar melhor esses espaços sem transformar o Alataj em algo que não faz parte do nosso DNA.
Essa aproximação com um conteúdo mais social media oriented anda de mãos dadas com uma decisão clara: não vamos deixar de produzir conteúdos complexos, ideias que exigem atenção ou formatos experimentais simplesmente porque podem não performar bem. Recentemente criamos o Mapa Sonoro, uma maneira diferente, visual e pautada em pesquisa de apresentar alguns dos artistas que admiramos. Editorias como Artigos e Notes seguem — e seguirão — recebendo atenção especial.
Mas então vamos às novidades? Entre setembro e dezembro, teremos bastante coisa nova. Durante o Setembro Amarelo, tradicionalmente dedicado à discussão sobre saúde mental, publicaremos uma série de quatro artigos de pesquisa aprofundada sobre temas como uso de substâncias, privação do sono, mudança de carreira e outros aspectos que atravessam a vida de quem trabalha com música eletrônica. Esta será a Sinal Amarelo.
De setembro a dezembro também chega o terceiro ano da Diggin Essence (lembre também de sua pequena variação, Diggin Clips), série que tradicionalmente ocupa esse período e apresenta quatro artigos especiais sobre grandes DJs pesquisadores da cena nacional e internacional. A seleção deste ano está particularmente especial e será revelada no dia 15 de setembro.
E por que música por música não pode simplesmente ser o foco? Também voltaremos a produzir algumas playlists — puramente playlists — para nossos canais de streaming, construídas a partir de temas específicos. Um spoiler: a primeira chega nesta quarta, 9 de Setembro, com uma seleção de faixas que celebra o 909 Day.
Por falar em playlists, leitores mais recentes talvez não se lembrem do Sunday Morning. Durante muito tempo, mantivemos essa série semanal dedicada a músicas para ouvir no domingo de manhã — considerando tudo o que essa ideia pode significar. Em novembro, o projeto volta temporariamente com cinco playlists, uma para cada domingo do mês.
Também em outubro estreia Quem Abriu a Pista, série especial de cinco episódios em Reels realizada em parceria com a criadora gaúcha Fabi Clubber, que estará à frente dos vídeos. E o nosso querido Vitrola Radioshow, que já foi coluna e podcast mensal, continua por aqui. Em um ritmo menor do que em outros momentos, mas ainda como parte ativa da nossa grade. Em 2026 teremos mais dois programas: um em outubro e outro em dezembro.
Nada disso significa que encontramos uma fórmula. Provavelmente seria estranho se tivéssemos encontrado. O Alataj sempre mudou junto com a música, com as pessoas que fazem parte dele e com as formas pelas quais essas histórias são contadas. O desafio agora é continuar mudando sem perder aquilo que nos trouxe até aqui. Adaptar a forma sem empobrecer o conteúdo. Experimentar sem abandonar critério. Entender as redes sociais sem passar a trabalhar exclusivamente para elas. Continuar acreditando que cuidado, pesquisa, curiosidade e beleza ainda importam, mesmo quando o algoritmo parece dizer o contrário.
É isso que estamos tentando fazer.