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A música conecta

Brunello: para onde a curiosidade pode levar um artista?

Por Elena Beatriz em Trend 18.09.2026

Quando um artista começa a ganhar projeção, é comum que seu trabalho seja rapidamente resumido àquilo que facilita sua compreensão: um gênero, uma faixa, uma gravadora ou um grupo de referências. Com Brunello, essa redução deixa escapar uma parte importante daquilo que torna seu momento atual tão curioso. House, tech house e indie dance aparecem em diferentes pontos de sua curadoria e produções, seus lançamentos vêm sendo incorporados por DJs que não necessariamente frequentam os mesmos circuitos e, paralelamente, ele desenvolve uma gravadora que ajuda a dar forma à sua identidade. Quanto mais seu nome aparece, mais interessante se torna observar o que une todas essas direções.

Antes de Brunello existir, porém, Chris Krawczyk precisou entender até onde a música ocuparia sua própria vida. Criado na região de Washington, D.C., chegou à universidade como jogador de baseball, mas perdeu o interesse pelo esporte depois do primeiro ano e se transferiu para a Miami University, em Ohio. Foi ali que começou a produzir no Ableton durante um período que descreve como profundamente solitário: não conhecia praticamente ninguém e passava grande parte do tempo produzindo. Curiosamente, ao recordar aquela fase, não fala dela como um vazio, mas como o momento em que percebeu que fazer música havia adquirido importância suficiente para preencher seus dias e que, a partir dali, dedicaria sua vida a isso.

Brunello surgiria alguns anos depois, já em San Diego e durante a pandemia. Até aquele momento, Krawczyk produzia sob o nome New Stereo. Uma garrafa do vinho italiano Brunello acabou fornecendo o nome para o novo projeto e acompanhou a decisão de deixar a identidade anterior para trás para acompanhar as mudanças que estava vivendo de maneira interna e externa. Segundo entrevista para o Relentless Beats, ele entrou nessa fase novamente com zero fãs e zero expectativas, uma espécie de retorno ao princípio, mesmo para alguém que já vinha produzindo havia anos. À primeira vista, abandonar um projeto já existente para recomeçar poderia ser lido como retrocesso, porém, na prática, abriu espaço para que Brunello construísse com maior liberdade a identidade que hoje define seu trabalho.

Foi desse recomeço que também nasceu a Mellow Circus Records, fundada em 2023 como uma extensão daquilo que Brunello começava a desenvolver artisticamente. A gravadora permitiu que essa identidade ganhasse outras camadas, aproximando música, imagem e curadoria. Parte das artes que acompanham os lançamentos do selo é assinada pelo artista grego Volk, com pinturas de figuras estranhas e por vezes inquietantes, reforçando uma linguagem visual que Brunello considera inseparável da música. Entre suas referências está Eyes Wide Shut, de Stanley Kubrick, especialmente as sequências ligadas à sociedade secreta do filme.

Isso ajuda a explicar por que sua identidade visual recebe quase tanta atenção quanto as músicas. Brunello conta que passou a questionar a semelhança entre muitas capas de lançamentos de house e decidiu levar a Mellow Circus por outro caminho, imprimindo ao selo personalidade desde os primeiros catálogos. A mesma premissa aparece em suas produções, já que ele critica a ideia de dedicar anos à música para acabar reproduzindo soluções já exploradas por outros artistas. Nas capas e nas faixas, o interesse pelo inesperado acompanha uma busca contínua por caminhos que ainda despertem curiosidade nele e em quem acompanha seu trabalho.

Paralelamente à construção dessa identidade, o alcance de Brunello começou a se ampliar. Antes de seu nome aparecer com frequência em grandes lineups, suas músicas já encontravam espaço nos sets de nomes relevantes da house contemporânea. The Clown’s Corridor apareceu em apresentações de Adam Ten e Mita Gami no Burning Man e de CamelPhat no Warehouse Project, enquanto outras produções chegaram ao Circoloco Radio e ao RA Mix de Sama’ Abdulhadi. Aos poucos, sinais vindos de diferentes frentes começaram a mostrar que a atenção em torno de seu trabalho estava crescendo.

Pouco depois, o mesmo nome que aparecia cada vez mais em tracklists começou a ocupar programações maiores. Em 2026, Brunello passou por EDC Mexico, CRSSD, Lightning in a Bottle e Pacha Ibiza, ao mesmo tempo em que a Mellow Circus ganhou uma edição própria no Terrace do Club Space Miami, reunindo Skream, Art Department, Tripolism, Whitesquare e Mai Iachetti. Em setembro, esse alcance ganhou outro capítulo com o remix de FRICTION, de Tiga, lançado pela Turbo Recordings

Essa perspectiva ajuda a compreender o momento atual de Brunello sem tratá-lo como uma sucessão de conquistas recentes. Antes de tudo, existiu alguém disposto a abandonar um projeto anterior, recomeçar e dedicar tempo à construção de algo que fizesse mais sentido para si. O que veio depois encontrou um projeto que já havia estabelecido uma direção própria, mesmo que isso tivesse exigido dar um passo para trás. É possível que esteja aí uma parte essencial de Brunello: a capacidade de seguir a própria curiosidade com seriedade suficiente para que, aos poucos, outras pessoas também queiram descobrir onde ela pode levá-lo.

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