Há mais de duas décadas, Daley Padley constrói sua relação com a música eletrônica principalmente a partir da pista. Primeiro como DJ, ainda muito jovem em Barnsley; depois como Hot Since 82, projeto que o levou às residências de Ibiza, aos grandes festivais internacionais e à criação da Knee Deep In Sound. Nesse percurso, porém, seus álbuns de estúdio passaram a cumprir uma função diferente: são o espaço em que uma carreira essencialmente ligada ao club encontra margem para se tornar mais pessoal.
Lançado em 4 de setembro pela própria Knee Deep In Sound, Obsessions é o capítulo mais recente dessa relação. Desenvolvido entre turnês, deslocamentos e períodos de introspecção, o disco parte do house que acompanha Padley há tantos anos, mas amplia esse território em direção ao deep house, breakbeat, electrónica melódica e faixas mais diretamente voltadas para o club. Para além de apresentar uma ruptura, o álbum mostra até onde Hot Since 82 consegue expandir sua linguagem sem deixar de soar reconhecível ao público que já conquistou.
Obsessions também estabelece uma continuidade com 8-track e Recovery, discos nos quais Padley já havia usado o formato de álbum para explorar territórios mais pessoais. Desta vez, porém, não existe necessariamente um episódio central organizando a narrativa. O que aparece é um artista olhando para o próprio momento depois de mais de duas décadas de carreira — e usando novamente o álbum para ir além daquilo que normalmente entrega na pista.
Foi a partir de Obsessions que o Alataj conversou com Hot Since 82 sobre processo criativo, longevidade, liberdade artística, o papel do A&R hoje, as transformações no trabalho dos DJs e também sobre a possibilidade de um retorno ao Brasil depois do incidente vivido no Rio de Janeiro em 2024. Confira a seguir:
Alataj: Oi, Daley, tudo bem? Obrigado por separar um tempo para falar com a gente. Obsessions vem depois de álbuns profundamente pessoais como 8-track e Recovery. Olhando para esses trabalhos em sequência, você sente que os álbuns se tornaram o espaço onde consegue revelar um lado seu que os sets e singles mais voltados para a pista não conseguem expressar por completo?
Hot Since 82: Sim, eu sempre gostei de fazer álbuns justamente para entrar nesse meu espaço pessoal e privado e criar algo que eu realmente ame, algo que me toque. Eu pego experiências da vida pessoal e da vida na estrada e coloco isso em algo palpável, tangível, algo para o qual eu possa olhar mais tarde e pensar: aquele foi um momento incrível da minha carreira e da minha vida. E, sim, existe muita emoção e muitas experiências colocadas em todos esses discos, mas este tem um lado nostálgico. Eu gostei muito de fazer esse álbum.

O título Obsessions também parece refletir algo sobre a sua personalidade: quando alguma coisa realmente te interessa, você tende a mergulhar completamente nela, certo? Depois de tantos anos transformando essa obsessão pela música em profissão, você ainda consegue distinguir onde termina o prazer e onde começa o trabalho?
Boa pergunta. Eu sempre digo que sou pago para viajar e faço todo o resto de graça, porque é um trabalho feito por amor. Minha obsessão, desde criança, sempre foi a música. Então ela sempre foi uma forma de terapia para mim, além de tudo o mais que existe no meio disso. Por isso, nunca enxergo meu trabalho como um trabalho de verdade, porque sou realmente privilegiado por poder fazer isso. É quem eu sou, e eu nunca quero que isso mude.
O álbum transita entre deep house, breakbeat, eletrônica e momentos mais voltados para a pista. Depois de construir uma identidade tão reconhecível como Hot Since 82, ampliar seu vocabulário musical se torna mais fácil porque o público já sabe quem você é — ou mais difícil porque agora existe uma expectativa sobre como um disco de Hot Since 82 deveria soar?
Acho que, no fim das contas, sou alguém muito ligado à música, e colocar diferentes gêneros em um disco como esse simplesmente funciona para mim. Acho que cria um contraste muito bom, e não há nada de errado em ter nove ou dez faixas todas dentro do mesmo gênero, deep house ou seja lá como você queira chamar.
Mas, para mim, trata-se de colocar no disco músicas que eu sinto que fazem sentido. Algumas das faixas de breakbeat ficaram comigo por talvez seis anos, esperando o momento em que eu pudesse incluí-las em um álbum e compartilhá-las com o mundo e com os fãs, porque esse tipo de música também me inspira.
Então é simplesmente sobre fazer músicas que eu pessoalmente amo e quero compartilhar com vocês. E, quanto mais velho fico, mais confiança tenho na música que faço e mais seguro me sinto simplesmente para compartilhá-la.
Você construiu uma posição pouco comum, combinando credibilidade crítica com alcance global. Hoje, quando toma uma decisão artística, preservar essa posição ainda entra na equação ou você sente que já conquistou liberdade suficiente para não pensar mais nisso?
Não, eu realmente não penso mais nisso. Estou simplesmente fazendo o que quero fazer e aquilo que me deixa feliz. Felizmente, tenho uma base de fãs incrível que vem me acompanhando ao longo dos anos, mas também estou sempre em busca de novos ouvintes.
Acho que minha música consegue dialogar com muitos gêneros e diferentes tipos de público, e eu meio que caminho por uma linha tênue entre algo talvez super underground e algo comercial também. É uma linha borrada. É uma linha que eu gosto de borrar. Eu valorizo muito a posição em que estou.
Você começou tocando sets de 12 horas e depois passou por residências no Pacha, Space e Amnesia antes de chegar aos grandes festivais. A ascensão dos sets mais curtos e dos line-ups cada vez maiores mudou alguma habilidade fundamental que você acredita que os DJs precisavam desenvolver quando você estava começando?
Sim, muito. Acho que, obviamente, como já estou tocando como DJ há 25 anos, a cena mudou demais. As músicas agora são mais curtas, os breakdowns ficaram maiores e a pista de dança mudou drasticamente. Acho que está desaparecendo aquela geração de DJs que quer tocar por 12 horas e realmente criar algo grandioso, uma jornada musical mágica. E isso é muito triste, porque foi daí que eu vim, assim como meus heróis, que eram conhecidos por tocar durante 24 horas, como Danny Tenaglia, por exemplo.
Você realmente não vê mais isso, e essa sempre foi a parte que eu mais amei no DJing: levar alguém por uma jornada mágica durante um longo período, entrando e saindo de diferentes gêneros. É disso que mais sinto falta, para ser sincero. Hoje tocamos por períodos muito menores, às vezes apenas 60 minutos. Então é difícil se expressar musicalmente e encaixar, em tão pouco tempo, as músicas que você encontrou garimpando, os vinyl rips e suas próprias produções. É difícil colocar tudo isso dentro de um set curto de club. Mas é o que é. E seguimos evoluindo.
A Knee Deep In Sound já existe há mais de uma década e acompanhou algumas transformações importantes da indústria da música eletrônica nesse período. Quando você escuta as demos hoje, o que consegue reconhecer em um novo artista que números de streaming, redes sociais e outras métricas ainda não conseguem revelar?
Hoje eu uso uma plataforma chamada Trackstack, que meio que tomou o lugar do SoundCloud. É uma plataforma realmente incrível e muito fácil de usar, especialmente do ponto de vista de A&R. E, assim que aperto o play, tenho esse ouvido que me permite saber se uma faixa vai ser boa ou não.
Quero ouvir algo realmente único, criativo, fresco. É isso que estamos sempre procurando. Boas habilidades de produção são importantes, mas o mixdown geral da faixa não é algo tão determinante assim. O que importa é a ideia e, idealmente, que aquela música tenha algum tipo de emoção que combine com a Knee Deep In Sound.
Em 2024, depois do incidente de segurança que você e sua equipe sofreram ao deixar um show no Rio de Janeiro, você disse que não sabia se voltaria ao Brasil e, posteriormente, cancelou as apresentações restantes. Mais de dois anos depois, como você se sente em relação ao país hoje? Ainda podemos ter esperança de ver Hot Since 82 tocando no Brasil novamente algum dia?
O incidente foi muito traumático e ainda me causa um pouco de ansiedade quando penso nele hoje. Eu moro no Reino Unido. Não temos armas por lá, então ter uma AK-47 apontada para você foi realmente muito assustador. Mas sei que temos fãs incríveis e pessoas que querem me ver tocando no Brasil. Então não posso associar o incidente no Rio ao restante do Brasil.
Já fiz shows incríveis e construí amizades incríveis no Brasil, então espero que possamos continuar com isso. Mas, sim, foi muito assustador. Acho que, na próxima vez, simplesmente precisamos reforçar a segurança e tentar seguir em frente. Mas não tenho qualquer hostilidade em relação aos brasileiros.
E, sim, eu vou voltar — e vou voltar mais forte.
Depois de mais de duas décadas tocando profissionalmente, você já alcançou muitos dos marcos que costumam definir a carreira de um DJ — grandes festivais, residências em Ibiza, turnês globais e sua própria gravadora. O que ainda é capaz de fazer você sentir que está seguindo em frente?
Estou gostando mais do meu trabalho do que nunca. Estou fazendo mais música do que nunca e vivendo uma fase excelente da minha vida. Tenho dois filhos para criar e acho que agora estou pensando mais em longevidade. Você quer que seus filhos tenham orgulho de você, e eu quero continuar construindo uma boa carreira e algo para olhar para trás quando me aposentar e dizer: “Sim, eu fiz isso”.
E também algo para os meus filhos olharem para trás e dizerem: “Sim, meu pai fez isso”. Então é uma situação muito especial de se viver. Não estou mais saindo para festas. Hoje é puramente sobre aproveitar meu trabalho, aproveitar a vida e os frutos desse trabalho, além de viver de forma saudável.
Para terminar, uma pergunta clássica do Alataj: o que a música representa na sua vida?
A música é a minha obsessão!
