Texto por Lisa Uhlendorff
Neste ano, completei os famosos 10 anos de carreira. Milestone. Foram inúmeros erros e acertos, conquistas e decepções, powered por um imaginário complexo de coisas que se transformaram em realidade — e outras, que não. Mordi minha língua diversas vezes, por ingenuidade ou baboseira; já em outras, piso no chão e ainda acredito estar certa. Sou teimosa, mas teimosa com perspectiva. Nesta última década, a frase “esse artista não vende” me acompanhou como chiclete preso na sola do sapato. Frase que qualquer pessoa que atua diretamente com artistas ou eventos, com certeza, já ouviu.
O que eu consumo musicalmente definitivamente não é comercial, muito menos um comercial mascarado de underground (convenhamos, hoje em dia o que mais tem é isso). Meus tímpanos preferem um som que, para pessoas de fora dessa bolha musical nichada, pode ser mais difícil de engolir. Talvez por isso, “esse artista não vende” foi algo cansativamente repetido ao longo dos anos quando eu sugeria nomes para tocarem em certos eventos. Entendo perfeitamente que, em grandes festas e festivais, o que eu ouço talvez não venda nas proporções necessárias. Com contas enormes para fechar, simplesmente não se podem dar ao luxo de apostar em artistas de nicho. E está tudo bem.
Mas o problema aqui não está na lógica comercial em si. Está nos anos de insistência nessa maldita frase: “esse artista não vende”. Parece um disco riscado. Um mantra do mercado que não abre espaço para o imaginário, para o diferente, para o interessantíssimo desafio de vender ingressos. Não à toa, vemos tanta curadoria por aí bem passada, sem sal nem pimenta. Aposta-se no óbvio, pois o óbvio obviamente vende.
O problema começa quando a estratégia vira uma verdade absoluta. Quando “esse artista não vende” deixa de ser uma constatação sobre um modelo de negócio específico e passa a ser uma sentença mercadológica. Pior ainda quando ela ecoa nos ouvidos de quem deseja construir algo diferente, acreditando que exista espaço para uma comunidade em torno de uma curadoria menos óbvia. Sonhos morrem muito antes de empresas quebrarem — e morrem porque alguém repetiu uma frase pronta suficientes vezes para que ela parecesse um fato.
Abri o STARLANE em 2025 com um desafio para mim mesma: provar o contrário e, por consequência, influenciar pessoas de maneira positiva a tomarem mais riscos — seja como consumidores ou como contratantes. Quando se tem o próprio negócio, a água bate na bunda. Alguns se assustam e tentam manter-se previsíveis, evitando riscos; outros mergulham de cabeça num mundo mais obscuro, com menos respostas e mais apostas. Como empresária (e também responsável por parte da curadoria do bar), a opção convencional nem chegou a passar pela minha cabeça. O que me traria uma sensação satisfatória seria entender os diversos caminhos possíveis antes de assumir qualquer verdade pronta. Odeio predefinições míopes.



Foi abrindo minha própria parada que finalmente entendi: tudo depende do seu modelo de negócio. E, no STARLANE, achamos um modelo onde sonhos se transformaram em realidade. Clichê, eu sei, mas é verdade. Com um espaço para até 300 pessoas simultâneas, conseguimos assumir mais riscos. 300 pessoas não é muito, mas é o número ideal para uma festa de arromba, com música boa, drinks excelentes e serviço funcionando sem pecar na qualidade. Além disso, pelo fato de ser um bar — não um club ou uma festa —, temos uma rotatividade interessante que também ajuda a pagar as contas.
Nesse modelo, “o que vende” (naquela lógica comercial careta) perde ainda mais sentido. A gente não precisa depender só de ingresso. Simples assim. E quando essa pressão sai dos ombros, abrem-se inúmeras portas para a criatividade.
Temos alguns poucos eventos com ingressos à venda, com valores bem plausíveis. Tivemos Raresh, Dyed Soundorom, Nicolas Lutz, Olga Korol, Gerd Janson, Hamish & Toby e Praslea, para citar alguns. Mas também temos a programação normal da casa, sem venda antecipada, onde se paga uma bagatela de 35 reais aos finais de semana — mais barato que uma Coca-Cola e um pão de queijo no aeroporto — e ouve-se artistas nacionais e internacionais nichados de primeira. Janeret, Z@P, Vera, Matthias, Voigtmann, Carl H, Lowris, Cosmjn, Alexia Glensy, Marlie, citando alguns dos gringos. Que fique claro: 35 reais são aproximadamente 6 euros. Nem na Europa se paga 6 euros para ouvir esses artistas.
Frases absolutas precisam ser analisadas e contestadas. Se eu tivesse acreditado que o que eu ouço simplesmente “não vende”, nunca teria o culhão de empreender e abrir um bar que aposta numa curadoria de nicho. Hoje, sei que a frase não estava exatamente errada, somente era incompleta. Porque “esse artista não vende” depende de uma única pergunta que quase ninguém faz: vende dentro de qual modelo de negócio? Ainda bem que, como disse anteriormente, sou teimosa. Mas com perspectiva.