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A música conecta

Kidislive, Mad Motel e uma história que começou a nascer no Brasil

Kidislive Alataj
Por Marllon Eduardo Gauche em Trend 09.10.2026

A história de Kidislive não segue uma linha reta e essa é uma informação importante para entender quem ele é hoje. Antes de criar a sua label Mad Motel, lançar seus próprios trabalhos em vinil e receber suporte de nomes importantes da cena — incluindo Laurent Garnier e Seth Troxler — Derek Kamm viveu uma daquelas viradas que bagunçam a vida. Depois de um término que ele mesmo descreve como “um roteiro de Hollywood”, comprou uma passagem só de ida dos Estados Unidos para o Brasil e passou alguns anos entre o Rio de Janeiro e a Bahia, tocando, estudando e tentando entender que tipo de artista poderia se tornar.

Entre 2010 e 2013, foi quando Kidislive mergulhou de vez na produção musical, aqui mesmo no Brasil. Ele conta que viveu momentos importantes como DJ, tocou em diferentes cidades e passou muito tempo desenvolvendo sua relação com o Ableton. “Tive alguns momentos de alegria e sucesso como DJ, mas eventualmente aquela brasa apagou; o que ficou foram histórias incríveis e um PhD em Ableton Live e em como criar a música que eu quero, quando eu quero”, diz. Essa base ajuda a explicar o som que ele faz hoje: uma mistura de house, minimal techno, lo-fi e toques experimentais com melodias sutis, vocais recortados e uma aproximação não tão óbvia com o som de pista.

Quando perguntado sobre como gostaria que sua música fosse definida, ele responde de um jeito simples: “Eu fiz sua bunda dançar e suar? Sim? Então é isso. Minha música fez você chorar e lembrar de alguém amado? Sim? Essa é a melhor categoria em que eu posso estar”. A resposta vai ao encontro da proposta de seu novo lançamento, Mad Motel 004. O EP, lançado em vinil e digital pelo próprio selo, reúne quatro faixas que passam por diferentes caminhos do house. DSCR abre com synths mais coloridos e uma levada solta; ETA ETC trabalha com vocais e elementos bem “borrados”, se aproximando de um certo french touch; Jacks Feedback puxa para um lado mais noturno, com grooves fechados e synths mais cósmicos; enquanto He’s Too Tough encerra o trabalho com uma bassline mais groovada e vocais femininos em destaque.

A Mad Motel também concentra um lado menos conhecido do artista. Além da música, Derek trabalha com pintura e vende telas para colecionadores, atividade que passou a dialogar diretamente com a identidade visual da gravadora. A partir do Mad Motel 003, suas próprias artes começaram a aparecer nas capas dos lançamentos, aproximando ainda mais a parte sonora e visual. Quando fala sobre o que gostaria que as pessoas lembrassem dele hoje, Derek diz: “por um espírito apaixonado que representa todos os artistas adormecidos e esquecidos do mundo, aqueles que ainda não acordaram ou vivem vidas silenciosas de desespero, mas continuam fazendo trabalhos bonitos”.

Atualmente vivendo em Long Island, no estado de Nova York, Kidislive também quer desenvolver uma festa própria para criar um ponto de encontro para a cena local, como alternativa ao circuito mais movimentado do Brooklyn. No plano internacional, Derek não fala em grandes estratégias, mas em consistência: seguir produzindo, compartilhar sua música e confiar na lógica do “se você construir, eles virão”.

Entre a passagem pelo Brasil, os anos dedicados à produção e a construção da Mad Motel, Derek encontrou diferentes maneiras de dar continuidade ao mesmo interesse: fazer música sem depender de uma categoria específica para defini-la. Quatro lançamentos depois, a gravadora ainda dá seus primeiros passos, mas já reúne duas dimensões importantes de seu trabalho, com produções próprias e pinturas que agora também ocupam as capas dos discos.

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