Skip to content
A música conecta

Secret Files 029 | Hercules & Love Affair

Por Alan Medeiros em Secret Files 29.10.2026

A voz tratada como instrumento, uma linha de baixo que marca uma música inteira, a melodia que aproxima e o timbre que provoca estranhamento. Nos comentários que Andy Butler preparou para esta edição da Secret Files, esses detalhes ajudam a compreender sua escuta. À frente do Hercules & Love Affair, o produtor norte-americano construiu um projeto em que disco, house e outras linguagens eletrônicas acompanham histórias de identidade queer, intimidade e perda. Desde o álbum de estreia, lançado pela DFA em 2008 e apresentado ao mundo por faixas como Blind, com ANOHNI, essa relação entre experiência pessoal e música de pista permanece no centro de seu trabalho.

Em Danseur, seu mais recente grande projeto, Butler se aproxima das pessoas e dos espaços que ajudaram a formar essa cultura. Lançado em duas partes pela Stratasonic Records, o projeto reúne oito faixas e referências a lugares como Blitz e Taboo, em Londres, e BoyBar, em Nova York, homenageado na versão de Boy, do Book of Love. A produção retoma a parceria com Elín Ey, do Hips & Lips, e Quinn Whalley, do Paranoid London. Na segunda parte, Faris Badwan, do The Horrors, participa de Pirouette e Heaven; Hips & Lips aparece em Night on the Town, e Albrecht Van Doornik, em Flip Flop.

A memória desses ambientes também acompanha a edição física. Dedicado ao DJ, fotógrafo e cineasta Jeffrey Hinton, residente do Taboo, o trabalho incorpora imagens de seu arquivo pessoal e conversas de Butler com Hinton, Princess Julia e Pet Shop Boys. Fotografias e depoimentos aproximam o disco de quem viveu aquela história, enquanto Pirouette homenageia SOPHIE e Aérea Negrot, colaboradora de longa data do Hercules & Love Affair.

É nesse contexto que Andy Butler assume a seleção da Secret Files 029. Entre Easy Going, Patrick Cowley, Front 242 e Chris & Cosey, ele comenta escolhas que encontram possibilidades de pista na dança entre o eletrônico e o humano: vocoders, vozes incorporadas às bases, sintetizadores de cordas e sentimentos pouco interessados em separar euforia de solidão. A seguir, suas indicações e comentários, traduzidos para o português:

Easy Going – Fear

Já caminhamos em direção aos anos 1980, mas esta música está firmemente em 1979. O vocal cromático, quase como um vocoder, vai descendo sobre uma linha de baixo que lembra Yello. Há algo de maníaco na faixa. Perfeita para uma festa de Halloween. Ótimas progressões de acordes, bem em tonalidades menores, com alguns elementos orquestrais que ainda vêm da fase anterior. Um clássico.

Patrick Cowley – They Came at Night

Entrando nos anos 1980, depois do sucesso com Sylvester, é muito divertido ouvir o fascínio de Patrick Cowley pelo espaço. Tem uma estética camp, mas também é uma fera. A letra é muito legal: “cuidado com a escuridão”. Grandes linhas de sintetizador e um alienígena respondendo pelo vocoder.

Front 242 – U-Men

Uma aventura dos primeiros tempos da EBM, com momentos instrumentais. Techno antes do techno. Minha favorita do álbum seria U-Men: uma faixa sombria que mostra como os vocais na EBM podem se integrar à música a ponto de conquistar até DJs que só tocam instrumentais.

John Foxx – Metal Beat

Talvez o mais frio dos artistas da new wave. Havia uma dissonância em sua abordagem vocal, mais rítmica, e a produção era de primeira. Aquilo que parecia ser apenas um efeito sonoro tinha, para ele, tanta importância quanto qualquer melodia. E esses elementos faziam as produções soar como algo de outro mundo.

Visage – Fade to Grey

Um hino épico sobre solidão, com uma voz em francês falando suavemente sobre as coisas se apagando em tons de cinza, quase desejando morrer. Fria e, ao mesmo tempo, calorosa, com os sinos convidando delicadamente o ouvinte para a pista. Uma bateria eletrônica excelente. 

Chris & Cosey – October (Love Song)

Provavelmente o mais perto que chegaram do pop. Cosey soa doce e despretensiosa — embora quem conheça seu trabalho com o Throbbing Gristle saiba como as coisas realmente são! Quase à moda do italo, melodias agudas de sintetizador, simples e repetitivas, vão se sucedendo, e você se perde no desejo dela de ser beijada. A genialidade de Chris Carter está toda ali, no tratamento dos vocais, nos arpejos e nas modulações. Acho que dá para se apaixonar no outono!

Alexander Robotnick – Ce n’est q’un début

Era apenas o começo de um pioneiro e aventureiro incrível, que continua na ativa e faz alguns dos melhores shows ao vivo já em sua maturidade. Essa música era tocada tanto em sets de house de Chicago quanto nos clubes londrinos dedicados à wave e ao italo. Muito divertida, com reviravoltas sombrias e uma linha de baixo clássica que todo DJ deveria conhecer.

G.A.N.G. – KKK.

Minha música de italo favorita de todos os tempos. Sem letra, apenas um violino sintetizado tocando uma melodia incrível sobre uma linha de baixo arpejada. Não deve passar dos 100 BPM. Há uma melancolia nas melodias, mas aquela diversão do italo está sempre um pouco presente. Um trabalho clássico de drum machine. A faixa perfeita para encerrar um set.

Sylvester – I Need Somebody to Love Tonight

Mais uma de 1979, com uma produção incrivelmente boa. Arrastada, repetitiva, com uma das melhores linhas de baixo que existem e um toque de dub. Sylvester soa tão sedutor nessa faixa. Parece um blues eletrificado. Momentos super psicodélicos em uma grande música do álbum Stars.

Ultravox – Vienna

Uma das minhas músicas favoritas daquela época. Midge Ure soa tão envolvente: uma batida simples, uma linha de baixo cheia de groove, piano e ele cantando sobre o vazio das coisas — “isso não significa nada para mim”. Não, deixe-me corrigir: em alguns momentos, ele não canta, ele solta um lamento.

Bônus track: Yazoo – How Winter Kills

Termino com um momento fora da pista, em um clássico absoluto da música eletrônica, Upstairs at Eric’s. É uma composição minimalista e pastoral, conduzida pelo piano, preenchida apenas por estrondos analógicos e um timbre sombrio de sintetizador modular. Uma das duas faixas do disco que se afastam da pista. Tem uma sensação romântica, mas fria, muito fria. Quem gosta de cold wave vai adorar.

A MÚSICA CONECTA 2012 2026