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A música conecta

A suave arte da colaboração

Por Alan Medeiros em Crônicas 06.11.2026

Uma DJ põe a próxima faixa no fone e encontra o ponto por onde gostaria de entrar. Enquanto isso, quem está no mixer deixa a música que toca correr por mais alguns compassos. Quando chega a hora da passagem, o trecho que parecia perfeito já perdeu a razão de entrar. O que se ouve na pista pode ter mudado muito pouco. Para quem estava com a próxima faixa pronta, mudou o suficiente. Em geral, imaginamos a contribuição de alguém pelo que essa pessoa acrescenta. Numa apresentação b2b, ela pode existir em diferentes microdecisões. 

Pode ser um gesto discreto, mas que muda o que a outra pessoa tem à disposição. Uma voz que parecia prestes a terminar volta para mais um verso. A linha de baixo que reaparece sozinha. A faixa no fone continua a mesma, só que agora quem a escolheu tem outra história para continuar. É nesse sentido que a cooperação, para o sociólogo norte-americano Richard Sennett, é uma habilidade que se aprende na prática. A boa vontade pode fazer duas pessoas toparem dividir a apresentação. A prática ensina o que fazer quando a escolha de uma altera a da outra.

Neste domingo, 8 de novembro, From House to Disco, duo de Bruna e Lívia e Massimiliano Pagliara encabeçam o after da primeira edição brasileira do WHOLE, em São Paulo. O b2b acontece na Dancefloor, durante a festa que começa às 23h e segue até as 8h de segunda. Cocktail d’Amore, Escola de Mistérios e Tezãozinho Inicial também fazem parte da programação. Em sua estreia no país, o festival reúne coletivos queer brasileiros e estrangeiros e dá visibilidade ao trabalho de quem mantém essas pistas ativas ao longo do ano.

Duas pessoas podem ouvir a mesma pista e discordar sobre o que ela pede. Quem está olhando para a frente da cabine vê gente pronta para uma batida mais rápida. Quem repara no fundo pode perceber que, depois de um tempo, as pessoas finalmente começaram a dançar. Uma das leituras vai orientar a próxima escolha. A outra pode ganhar sentido mais tarde, inclusive para quem teria feito algo diferente naquele primeiro momento. A vantagem de ter outra pessoa ali é poder ouvir o que acontece quando uma decisão que você não tomaria tem tempo de produzir algum efeito.

Há uma diferença entre tocar com alguém que conhece plenamente e tocar com alguém diante de quem você se permite experimentar. Essa segunda intimidade aparece quando dá para arriscar, tocando faixas que você costuma guardar para o momento certo, porque a outra pessoa sabe dar à ideia alguns minutos antes de decidir o que fazer com ela. Com o tempo, esse espaço muda até o que cada um tem vontade de propor. A parte mais sutil de experienciar a prática do b2b é essa: tornar possível, para o outro, uma escolha que ele próprio poderia recusar sozinho. 

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