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Talks | A música como experiência: artistas comentam construção de sets em meio a pandemia

Todo DJ tem uma grande e importante tarefa antes de subir para tocar em um palco: analisar e pensar na construção de set que irá fazer durante sua apresentação. Antes da pandemia, era necessário levar em consideração os artistas do line-up, o horário do set, o estilo da festa/club, o tipo de público… mas e agora? Será que tudo isso foi colocado de lado? Como um DJ deve montar um set que será transmitido ao vivo, pela internet, para pessoas de diferentes lugares, com “vibes” diferentes, podendo se dispersar a qualquer momento?

Nós fizemos essa pergunta para seis DJs diferentes: Albuquerque, Davis, Ella de Vuono, Mau Maioli, Mezomo e Traffic Jam. Eles responderam se o modo de pensar a construção do set mudou em relação ao período anterior a pandemia e, já que a energia de pista foi colocada em pausa, perguntamos também o que cada um analisa e leva em consideração nas gravações atuais. Confira a visão de cada um:

Albuquerque

Eu costumo publicar de 15 a 20 sets por ano. Os podcasts têm sempre uma atmosfera diferente de um set ao vivo, com o calor da pista. Dessa forma eu continuo gravando os podcasts pensando em criar um momento especial ao ouvinte e isso não mudou absolutamente nada nesse período sem festas. Com relação às lives, sinto que mudou um pouco sim, principalmente no período de isolamento mais severo. A seleção acaba sendo mais focada na jornada do set, sem o compromisso de criar picos de euforia para a festa. Eu particularmente gosto também, pois durante a carreira acumulamos muitas músicas boas que às vezes não temos a oportunidade certa pra tocar. Nesse momento expandir o criativo e mostrar outras linhas é legal, tenho aproveitado bastante isso.

Davis

Não acredito que tenha mudado substancialmente. Teve uma sensação de ficar menos pretensioso, de ter um objetivo mais provocativo do que construir um set com energia de pista. Quando eu chegava no club, prestava atenção até na quantidade de pessoas, na luz, era uma análise rápida, mas minuciosa, o pensamento era fazer um set que fizesse sentido para a noite toda, não só para o meu momento. Agora nas lives eu considero a linha de som dos artistas que estão juntos. Tenho tocado faixas mais antigas, de épocas diferentes, coisas que a galera não conhece tanto.

Ella de Vuono

Mudou muito, primeiramente porque eu não construo um set antes de uma gig. O que eu faço é levar ali grande parte do meu acervo musical e vou escolhendo na hora, dependendo única e exclusivamente da energia da pista mesmo.

Desde sempre, quando eu gravo um set para postar, eu aproveito o momento para mostrar um outro lado das minhas pesquisas, meu lado “não pista” ou, por exemplo, vertentes bem diferentes que eu amo e raramente toco, que é o caso do Drum N’ Bass.

Com as lives sendo a única forma de contato com o público nos últimos seis meses, eu mesclo um pouco desses dois lados, faço sets com outras sonoridades que não costumo tocar e também faço sets com o que a galera espera de mim. É muito importante levar em consideração que as pessoas estão ouvindo cada um em um lugar e em um momento diferente, então trazer uma variedade maior na sonoridade, aumentam as chances de adesão do público.

Uma coisa que eu gosto de fazer é dar um tema para a live antes, até coloco no título, por exemplo “especial Disco Music, especial Downtempo…”
Daí quem parar para assistir ou apenas ouvir, já está avisado.

Mau Maioli

Tem sido interessante fazer sets para transmissões ao vivo porque me  deixa mais à vontade para explorar qualquer tipo de som. Eu tenho mesclado bastante e por vezes me imagino em uma pista tocando para aquele determinado público em um horário de pico, mas tem lives que eu acabo deixando essa ideia de lado e busco usar da minha pesquisa musical de BPMs mais lentos, que normalmente não era comum quando me apresentava presencialmente.

Mezomo

Os sets geralmente são mais curtos e precisam ser mais objetivos. As possibilidades de distração por parte do público são maiores, e por tudo isso, acredito que o set deve ser intenso e marcante desde o princípio. Tem quem prefira ser mais suave, por não ter pista, mas na minha visão, quem para pra assistir um set de um DJ quer é dançar, se mover. Certos pontos não mudam, o correto é analisar a vibe do evento, as atrações que vem antes e depois, o horário de apresentação e assim preparar a seleção musical adequada.

Traffic Jam

Tocar sem a pista para responder em um livestream é quase como se fosse gravar um podcast, algo mais planejado, já que na pista você vai respondendo junto com o público, existe uma sinergia… tirando essa parte da equação, eu acabo explorando alguns sons que gosto muito mas que não toco com frequência. Pensando pelo “copo meio cheio”, essa é a parte boa, tocar sem restrições e explorar outras sonoridades. Tenho revirado meus discos e redescoberto várias músicas no lado B que tinham ficado um pouco esquecidas. Está sendo legal para colocá-las para rodar, pois muitas vezes ao vivo não têm toca-discos e também muito dos sons que tenho em vinil não são tanto para horários de pico, o que casa muito bem para uma live na minha opinião.

Em cada uma delas eu tento entender qual será o público, analiso o horário e aí monto minha playlist/seleciono os discos, se vai ser mais Deep e conceito, ou um pouco mais animado, porém sem momentos de pico como ocorrem em sets ao vivo. Mesmo sendo mais pensado, ainda vou no feeling de estar tocando e não me prendo a um planejamento específico e sim a uma ideia de linha de som. Fico feliz em explorar novas sonoridades, surpreender um pouco, quebrar paradigmas do que o público esperaria de você, mas nada substituirá o ao vivo e a energia de estarmos conectados no mesmo groove.

https://www.youtube.com/watch?v=bbIh7eKlrb8

A música conecta.

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