Alataj Talks

Talks | Como conquistar um cenário profissional mais igualitário no Brasil?

Há exatamente uma semana, o time feminino do Alataj se reunia – virtualmente – para bater o martelo sobre o que seria feito para a semana do Dia Internacional das Mulheres. Pensando nisso, fiquei matutando no que criar, que pudesse ter relevância para nós e que pudesse promover um espaço para mostrar mais profissionais mulheres, gerar intercâmbio e abrir diálogo. Para minha sorte, barreiras geográficas aqui podem ser facilmente derrubadas, basta um oi no Instagram e pronto, estamos conectadas. Posso dizer que a troca com todas foi valiosa e importante para mim, para o meu crescimento. Gratidão!

Pois bem, o Talks da vez traz algumas profissionais do ramo que estão espalhadas por esse Brasil continental e que teceram aqui uma reflexão extremamente pertinente. Ok, é um número pequeno para medir a febre, somos muitas, somos tão diferentes, não funcionaria como uma pesquisa quantitativa, nem qualitativa, mas já funciona para algo. Refletir e repensar, no mínimo. Através das narrativas, reforçamos um pensamento que paira sobre a cabeça de muitas pessoas: temos uma demanda de reparação social urgente e que precisa constantemente ser lembrada e trabalhada. Só assim, será realmente possível promover um mundo mais equiparado, em todos os sentidos. Infelizmente, por questões de agenda, não consegui resposta de todas com quem fiz contato até a publicação da matéria, mas me comprometo em inserir tais respostas posteriormente, a fim de deixar essa narrativa ainda mais plural.

A reflexão é a seguinte: como conquistar um cenário profissional mais igualitário no Brasil pela ótica de quem, via de regra, precisa batalhar o dobro ou  triplo para estar lá. São agentes de transformação em suas respectivas e singulares regiões que constantemente se entregam de corpo e alma para fazer acontecer. Mal sabem elas que essa energia reverbera inspiração e intrinsecamente estimula novas personagens a adentrar esse universo que ainda é tão masculinizado e sofre constantemente por hábitos viciosos. Não, isso não é uma muleta. Mas é importante percebermos que se conhecemos uma vasta lista de produtores, DJs, empresários que seguem a gravura “branco, hétero, cis, classe média+” e poucas mulheres e quase ninguém LGBTQIA+, por exemplo, precisamos urgente nos auto-revisar. Precisamos pensar em formas funcionais de tornar o movimento mais diversificado e acessível. Usar o argumento de que “são poucas pessoas” não cola mais. De novo: estamos aqui, somos plurais e somos tão capazes quanto. Dúvida? Se liga nesses textos que vem na sequência. Segue o fio…

Guillerrrmo, produtora musical e DJ 

Não importa o quanto festas usem discursos de igualdade, a maioria das festas ainda são comandadas por homens e eles sempre vão priorizar contratar homens com a desculpa que existem poucas opções de DJs e produtoras mulheres. Então só com mais mulheres na produção das festas e conteúdos da indústria é que vai ocorrer uma maior visibilidade de outras artistas que não tem chance ainda.

Pra mim é difícil porque, não é só a questão do sexo aqui, há também o fato de eu ser de um estado distante. A maioria acha que aqui não tem DJ e nem festa [risos]. Por isso deixo algumas indicações da região Norte aqui: Rafa Militao, Luana Aleixo, Funkadona e Melka.  

Janaína Jordão, DJ

Esta é uma boa questão, uma vez que ela suscita interessantes (e até, talvez, polêmicas) reflexões. Eu já vi muitos debates que se baseiam em flyers de festas sobre a representatividade da mulher na cena eletrônica. Tais discussões obviamente têm a sua importância. Mas o flyer é praticamente a última parte do processo. Embora a mais visível, ele esconde algumas realidades. Ou seja, ele pode até ser considerado um reflexo do mercado, mas diz relativamente pouco sobre a sua engrenagem.

Falando do cenário de Goiânia, eu nunca senti desigualdade de gênero. Não posso responder por elas, mas grandes talentos, como Morganna e Gabb Borghetti, que antes da pandemia tocavam regularmente por aqui e Brasil afora, se apresentam com inteligência, sensibilidade e força, características do gênero musical, e não necessariamente – pelo menos pra mim – do gênero feminino ou masculino (basta observar a pista, se der conta de parar). Somos em quantidade inferior, não qualidade. Mas por que estamos, então, em número menor?

O maior talento e incentivador da cena eletrônica local e expoente nacional, Alex Justino, nas suas consagradas festas (aliás, a principal da cena –  a Lost and Found – que é assinada por ele e pela Morganna) dá sempre oportunidade para quem quiser entrar neste desafiador e criterioso cenário, seja homem ou mulher. O critério, apesar de não ser expresso, pra mim é claro: as oportunidades são dadas desde que a pessoa invista na carreira seriamente, pratique, estude muito e entregue uma experiência peculiar.  

Quando eu fiz o curso de Produção na excelente Music Lab, eu era a única mulher da turma. E, acompanhando os posts da escola, é possível ver que geralmente as turmas são formadas em sua maioria por homens. É aí que toca, pra mim, o primeiro kick da discussão. Agora, por que muitas mulheres não almejam este mercado são outros interessantíssimos quinhentos. Mas uma vez que tentam seriamente, a chance de começarem a ser convidadas pra gigs cresce exponencialmente. 

Então, talvez devamos, para além de analisarmos o mercado pelo final do processo, nos questionarmos também sobre o início dele. Se há uma maioria esmagadora de homens estudando e se esforçando, como podemos exigir uma representatividade mais igualitária no fim da linha? 

Não quero, com este texto, minimizar a existência do machismo, que atravessa toda a sociedade, inclusive o universo artístico. Muitas mulheres têm testemunhos bizarros de machismo por parte de alguns contratantes. Mas, ao que me consta, a música eletrônica nasceu e cresceu derrubando um punhado de barreiras. Sendo assim, se alguns contratantes são machistas, quem está deslocado na cena são eles, não nós.

Fritzzo, DJ, produtora de eventos junto ao coletivo Plano e Pane 

Antes de pensarmos no macro temos que avaliar nossas pequenas ações e nos questionar. A empresa ou coletivo que faço parte possui uma quantidade igualitária de mulheres envolvidas? Quando eu faço a curadoria do meu evento, line up, set, podcast, penso em uma curadoria diversificada e igualitária? As mulheres que constituem a construção do meu rolê, estão em posições de liderança? Elas também estão por trás da parte técnica? Estas são apenas algumas das perguntas e ações que devemos ter diariamente para gerar algum impacto que vai reverberar em mudanças no nosso cenário. 

Kingdom, DJ, produtora e precursora dos projetos Baile Room, Bronka e integrante da girlgang FENDA

Acredito que para alcançarmos a equidade vamos ter que nos movimentar para estourar a bolha que nos estaciona em muitos sentidos. Precisamos olhar ao nosso redor e pensarmos em como agir para democratizar os espaços existentes. Sou uma deejay preta em busca de um espaço majoritariamente constituído por uma predominância masculina e embranquecido. Assim como eu há várias e vários em cada canto do Brasil. Equipamentos tem um custo alto e são acessíveis a quem realmente tem grana para investir.

E esse ciclo sempre direciona a contratação e os melhores cachês para os DJs quem tem esse privilégio de acesso. E essa acessibilidade ao conhecimento é um item básico que tornou-se uma barreira. Como cada um lida no enfrentamento de todo esse ciclo vicioso? Estamos todos dispostos? “Refletir, reconhecer e agir” é um exercício individual para ser executado em grupo. Precisamos nos preparar e nos educar para que criemos possibilidades de diálogos em diferentes nichos… Se quisermos assim estourar essa bolha e exercitar um cenário mais igualitário.

DJ Preta, DJ, pesquisadora, produtora cultural da crazycakecrew e vapø_r

A luta pela igualdade deve ser prioridade para todes, não só pra quem tá na sarjeta da marginalidade da sociedade. Brancos, cis, héteros, ricos, é preciso que vocês entendam o privilégio que os envolve e que consigam enxergar o mundo para além do formato que vocês estão acostumados a conhecer. É preciso exercitar a escuta, acima de tudo. A escuta verdadeira, não a conversa que é só sobre si.

Acredito que o plano de ação mais rápido para que alcancemos um cenário de igualdade na cena brasileira vai demandar trabalho de todos. É preciso olhar para os espaços de poder e de destaque e sempre se questionar sobre as minorias, sobre representatividade. Não adianta ter um preto numa mesa com 10 homens brancos. Isso não é representatividade, isso é preenchimento de cotas e a gente que tá do lado de cá percebe isso claramente. O discurso precisa sair do checklist para evitar o cancelamento online e ir para o lugar de verdadeira transformação e reparação histórica, e isso significa que os brancos, cis, héteros e ricos precisam abrir espaço pra quem não teve. 

Essa semana vi a atriz Taís Araújo falar em uma entrevista ao Roda Viva que representatividade é sobre se sentir possível. É só isso. É simples assim. Entender que muita gente precisa se sentir possível. Muita gente não se encaixa no padrão de privilégios. E nós precisamos desenvolver a consciência de comunidade para além do próprio umbigo, devolvendo pra cena um pouco do tanto que ela já nos deu; lembrando das premissas básicas que permeiam a cultura de música eletrônica. Eu acredito que nós vamos conseguir transformar a nossa bolha um pouco mais rápido do que o resto da sociedade. Vai ser fácil? Não. Confortável? Nem um pouco. Mas devemos lembrar que a margem nunca foi confortável. Do lado de cá a gente aprende a sobreviver no meio do caos, da rejeição e da impossibilidade. A busca por um mundo mais igualitário é um exercício de empatia.

*Foto por Fernanda Coutinho

LLLuaninha, DJ e produtora de eventos

Estou nessa jornada há quase 12 anos, seis de forma profissional. Quando comecei, não tinha muitas referências além das tradicionais que são as masculinas, já que nessa época esses possuíam mais fácil acesso, já que a visibilidade de outras comunidades com maior diversidade ganharam força mais recentemente. A inserção das DJs mulheres, por exemplo, na cena aqui (Manaus) se deu timidamente no início, mas hoje temos um grande número de artistas maravilhosas.

Além da visibilidade, que é a base para essa conquista igualitária, a criação de redes de apoio é muito importante e necessária, pois nesses espaços conseguimos discutir sobre inclusão e representatividade para a comunidade LGBTQIA+ (da qual faço parte), negres e demais corpas, sexualidades e classes sociais. Eventos, coletivos e projetos que possuem uma equipe diversificada conseguem atingir mais pessoas. 

Flo Massé, DJ, produtora cultural e de eventos

Meu ponto de partida é uma observação positiva e importantíssima: as mulheres estão cada vez mais presentes nas profissões ligadas à cena eletrônica no Brasil. Esse fato inevitavelmente inspira outras mulheres a seguir esse caminho, expressar sua própria criatividade com mais confiança e correr atrás da sua paixão.

Nos últimos anos, o número de mulheres presentes nas várias esferas da cena eletrônica do Rio de Janeiro, seja como DJ, produtora de festa, tour manager, booker, diretora artística, curadora, técnica de luz (…) cresceu lindamente. Vemos também hoje mais mulheres integrando os line-ups das festas underground e das mais comerciais, apesar de ainda ser insuficiente para atingir o cenário igualitário que queremos. 

Um line-up exclusivamente composto por homens, hoje, não passa despercebido: a união das mulheres na cena eletrônica do Rio de Janeiro gera uma pressão positiva nos produtores de festa, e a luta por um cenário profissional mais igualitário é onipresente. Os line-ups devem ser pensados de forma igualitária, porém, ainda é muito difícil atingir essa meta, sendo que o número de DJ mulheres é muito menor que o número de DJs homens. Por isso, é necessário criar espaços de troca, conversa, aprendizado reservados a mulheres, gerando oportunidades de mostrar o quão capazes, competentes, dedicadas, eficientes e fundamentais somos na cena.

Quando cheguei aqui no Rio de Janeiro, em setembro de 2013, a cena eletrônica estava começando a crescer e os coletivos de festas estavam se multiplicando. Ao meu ver, a presença de mulheres na cena seguiu a lógica de um efeito dominó: quanto mais mulheres botavam a mão na massa para fazer a cena eletrônica acontecer, mais mulheres surgiam, ocupando espaços tradicionalmente dominados por homens. Hoje em dia, o Rio de Janeiro está repleto de mulheres extremamente talentosas, participando ativamente no desenvolvimento da cena eletrônica.  São muitos nomes que eu poderia citar de mulheres que estão colocando muita energia para fazer a cena crescer.

A minha experiência nesse sentido foi muito positiva. Quando comecei a minha carreira de DJ, em maio de 2018, senti desde o início a importância da presença feminina na cena que me inspirou profundamente e me apoiou nesse sentido. Os coletivos 100% femininos estavam se multiplicando, e a ideia de criar espaços de troca e de ensino reservados a mulheres já se desenvolvia rapidamente. O objetivo era e é de fazer com que as mulheres se sintam mais seguras para ser quem elas querem ser. Ser cercada de mulheres sem dúvidas auxilia nesse sentido. Antes de ser DJ, eu era baterista profissional por alguns anos no Brasil, e a minha observação foi similar: eu vi um número crescente de mulheres ocupando todo tipo de cargo na indústria da música, e tocando instrumentos tradicionalmente associados aos homens. Isso me inspira diariamente, e me deixou mais determinada ainda em seguir minha carreira solo como DJ de música eletrônica.

Todxs nós crescemos e vivemos hoje num mundo extremamente machista e regido pelo patriarcado. A nossa cultura faz a gente acreditar desde pequenas que nós, mulheres, não somos feitas para certos trabalhos, e que temos que ser melhores que as outras, gerando rivalidades e divisões. A desconstrução dessa ideia é absolutamente essencial para que mais mulheres atuem na cena, acreditando que é possível SER o que desejamos ser, e olhando com respeito o trabalho das outras mulheres. O sucesso de uma gera o sucesso das outras. Fazendo um paralelo com as conquistas históricas feministas na nossa sociedade, vemos hoje que o sucesso de umas têm repercussão positiva no sucesso de outras, e que o apoio feminino é fundamental para termos um cenário profissional mais igualitário. As mulheres unidas é a receita para conquistar esse cenário mais igualitário. As parcerias femininas nas profissões ligadas à cena têm tido repercussões extremamente positivas: vejo muitas mulheres abrindo portas e divulgando o trabalho de outras mulheres, priorizando a presença de mulheres nos line-ups, dando apoio moral e técnico para outras. 

Eu fico muito feliz em ver isso acontecer no Rio de Janeiro: mulheres da cena buscam dialogar com outras e apoiá-las no seu trabalho. A solidariedade entre as mulheres é central na conquista de um cenário profissional mais igualitário. Hoje, mais mulheres estão tomando coragem e buscando seu lugar dentre tantos homens na cena eletrônica no RJ, e a luta continua para que haja cada vez mais espaço. As personalidades femininas fortes no RJ naturalmente inspiram e estimulam outras mulheres, acreditando no seu potencial e na ideia de que é possível participar da cena da maneira que quiserem, com trabalho, dedicação e amor.  Quanto mais mulheres estiverem atuando na cena, mais oportunidades surgirão para outras.  Portanto, é extremamente importante valorizar, dar voz e visibilidade para as mulheres.

Terminarei escrevendo sobre um ponto que me parece tão fundamental quanto: dialogar com os homens. Nos últimos dias, me vi chateada por ainda ver coletivos com vários DJs residentes, todos sendo homens, e só destacando o trabalho de DJs e produtores homens. A minha primeira reação foi de querer expor esses coletivos. Mas, após esfriar a cabeça, entrei num diálogo e me posicionei, explicando o quão chocante achava certas posturas deles. E, juntos, chegamos às mesmas conclusões. Acredito que, se eu tivesse adotado uma postura agressiva, uma nova guerra teria surgido na cena, dividindo os profissionais e público da cena, tendo repercussões negativas no trabalho de todos. Insisto na ideia de sempre buscar dialogar e trabalhar juntos, mesmo tendo que repetir diariamente as mesmas coisas, pois só assim poderemos aumentar a consciência coletiva, avançar juntos, e ver a cena evoluir positivamente, para chegar à igualdade de gênero.

Martina Farias, DJ, produtora cultural e de eventos e integrante do Tisck

Eu não me considero tão no meu lugar de fala aqui. Eu me considero, particularmente, uma mulher de muita sorte. Desde que comecei a me aventurar nesse cenário, enquanto produtora (só depois me tornei DJane), sempre fui muito ouvida e respeitada, talvez por integrar um coletivo formado por pessoas LGBT e talvez por atuarmos dentro do circuito independente-underground, onde sua existência por si só fala – ou assim deveria – sobre igualdades e representatividades.

Durante o ano de 2017, o cenário da música eletrônica de Natal deu uma guinada e entrou numa nova fase a partir de um projeto que desenvolvemos por alguns meses, em que colocamos o estilo no circuito cultural da cidade como uma opção de entretenimento. Toda sexta-feira tinha evento no centro histórico da cidade, numa casa centenária, por R$ 5, até o amanhecer. Isso não existia em nenhum outro lugar daqui. Foi nesse bonde que comecei a integrar o coletivo Tisck. Todo mundo trabalhava muito durante a semana inteira para o Clube Underground do House acontecer e eu era a única mulher lá, assumindo as mesmas funções e “direitos” que todos os outros integrantes. Em pouco tempo tomei gosto pelo trabalho, abracei com pernas e braços a causa que era fazer a música eletrônica acontecer na cidade, e me tornei o que poderia ser chamado de assistente de produção geral, a segunda responsável por organizar tudo e fazer as coisas andarem.

Em 2018 a estrutura mudou, acabei assumindo o papel de força motriz do coletivo, mas sempre amparada por outros membros que trabalhavam comigo. Eles sempre reconheceram meu papel e importância dentro do que fazíamos e acho que, ao juntar esse apoio e reconhecimento com toda a minha força de vontade de colocar as coisas para frente, de perceber que aquele era o meu lugar no mundo, eu me blindei e assumi uma postura que me permitia nunca passar por alguma situação de machismo claro e estampado que eu possa me recordar. Nunca me senti menos capaz ou inferiorizada por ser mulher. Sempre me vi muito bem no lugar de ser a representante da Tisck, inclusive dentro de outros projetos que conseguimos que acontecessem fora do circuito underground-independente. 

Quando penso num cenário profissional mais igualitário eu penso que é muito importante a gente ter a certeza que queremos estar ali, ter a certeza que tanto podemos como devemos estar ali. Estar caminhando com outras pessoas que acreditam nisso acaba sendo um grande propulsor e nos ajuda a firmar nossos passos, por isso tenho a certeza do quão essencial é, sempre que possível, trazer mais e mais mulheres pra junto da gente, pra junto da produção, pra junto da música. Quem está nesse lugar dos bastidores, de idealizar os eventos, têm a responsabilidade de fazer desses espaços menos hostis e mais abertos às outras, oferecendo e criando espaços, oferecendo as ferramentas e o apoio. Acho muito importante também afirmar a todos e se afirmar enquanto produtora, enquanto DJane, enquanto jornalista, enquanto qualquer outra função que você exercer, e também enquanto mulher.

Nadejda Maciel, DJ, produtora, pesquisadora e idealizadora da MaddaM Music

Há alguns anos, conseguir uma gig era muito difícil e quando acontecia era quase sempre para abrir a pista ou fechar. Nunca para headliner. Quando tinha uma mulher no line, os flyers costumavam retratar sua imagem de maneira sexualizada. Ainda hoje, o pagamento do cachê é um acordo que poucos produtores fazem com as artistas, principalmente, na cena eletrônica da cidade. Muitos produtores afirmam estar “dando uma oportunidade para a DJ mostrar o seu trabalho” quando na real estão usando de verdadeiro oportunismo em fazer com que trabalhemos de graça ou em troca de umas entradas vip e algumas bebidas.

O cenário profissional da música eletrônica é ocupado principalmente por aqueles que têm acesso a equipamentos e a conhecimento técnico muito específico, além de condições financeiras e apoio familiar que lhes dá liberdade para mergulhar de cabeça no tão incerto mercado artístico. Essas experiências e percepções nos fizeram idealizar a MaddaM Music

Eu acredito que para conquistar um cenário profissional mais igualitário é necessário que existam iniciativas para capacitar, profissionalizar, dar suporte e inserir cada vez mais mulheres cis, travestis, pessoas trans e dissidentes em todos os ramos e setores da produção. Todxs esses grupos anseiam por isso, quando a gente fala em conquistar presença e respeito na cena de música eletrônica. Isso é essencial para que se comece uma mudança significativa em qualquer cenário profissional e este é o horizonte que buscamos construir. 

A MaddaM Music surge de uma inquietação imensa, de uma necessidade urgente de mudar o meio e de contribuir para a criação de espaços onde pudesse existir protagonismo feminino. Assim, começamos a agir estimulando o surgimento de novas DJs, dando oficinas, dando treinamento, dando acesso aos nossos equipamentos e convidando para trabalhar nos nossos eventos com recebimento de cachê. Para nós, o que sempre importou mais foi valorizar o trabalho delas, então o acordo do cachê sempre foi feito de forma prévia, mesmo que para isso a gente tivesse que trabalhar duro em várias funções distintas para produzir o evento.

Minha maneira de intervir nessa realidade passa por essas ações desde 2015, quando comecei a reunir algumas amigas em casa pra tocar. Ali a gente já tava conversando sobre como melhorar nossa técnica, nossa pesquisa musical, sobre criar identidades distintas, sobre estabelecer uma rede de apoio e se fortalecer. Em 2017, eu e Dayra Batista lançamos o projeto, como uma produtora e coletiva artística, com o intuito de estimular e promover o protagonismo feminino na música eletrônica. Fizemos as primeiras festas e oficinas, tomamos muito prejuízo, e, quando muitos pensavam que a gente iria desistir, nós ampliamos nossas atividades.  

Atualmente, realizamos o MaddaM Music LAB, a Medusa, a Techtrônica e esse ano lançamos nosso portal onde é possível conhecer e contratar profissionais que fazem parte da coletiva artística, além de se inscrever para os cursos e eventos virtuais. O LAB é um projeto que busca disseminar conhecimento técnico e especializado. Nele, são ministrados cursos e oficinas de discotecagem, de produção e de ferramentas de áudio visual sempre voltadas para mulheres e pessoas trans.

Noizzed, DJ, produtora musical, cultural e de eventos, multi instrumentista e label head

Para melhorar essa situação, de início, o que vemos rolar muito é essa cultura da cota, que já é algo, claro, mas não é suficientemente representativo para gerar mudança. Alguns coletivos e festas já estão à frente nessa questão, mas tem muita o que ser feito ainda. Eu estou criando um canal para compartilhar assuntos sobre criatividade e inovação, tanto para música e arte e de uma forma muito acessível. 

A mulher foi tão incumbida a ter um papel secundário na sociedade – quem dirá culturalmente falando – e ter outras funções que muitas vezes elas se inibem e tem medo de meter a mão nisso, com receio que seja difícil demais. Falta instrução, falta facilidade de conteúdo, sororidade das mulheres que já estão fortes nisso para incluir outras e claro, mais empatia por partes dos homens. Na Bateu, festa que fazemos na região, a gente sempre traz a mulher, a pessoa preta e LGBTQIAP+ porque isso precisa ser propagado constantemente. Precisamos de mais núcleos que propiciem um lugar de fala para as mulheres trocarem ideia sobre o seu lugar no cenário. Fomentar esse senso de união entre nós, mulher precisa disso, faz parte da nossa essência. Mas já vejo evolução também, por exemplo, recentemente lançamos o VA Alcateia pela Native Wolf Records só com mulheres produtoras do Brasil.

Esse álbum representa, para mim, a sensibilidade feminina e o que isso resulta nas músicas criadas por mulheres. Essa sensibilidade é o que hoje me inspira. 

Para as manas que às vezes pensam em ser DJ ou produtoras em segredo, por medo do que vão dizer, eu imploro: se joguem! Se permitam e peitem suas vontades, sonhem e executem. Venha! A música está de portas abertas para as mulheres se manifestarem.

Você já conhecia as mulheres que estão aqui? Anote seus nomes e coloque-as em seu radar. Procure conhecer seus trabalhos e de outras personagens da história. Busque saber os movimentos que elas geram em suas regiões. Não se limite mais!

A música conecta.

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