Talks | Qual é o futuro dos estúdios de produção musical?

O sonho de qualquer músico é ter aquele belo estúdio, repleto de compressores, equalizadores e tantos outros periféricos que, com o profissional certo, fazem um trabalho singular. Mas será que todo esse aparato é realmente necessário? Por exemplo, com o avanço tecnológico, cada vez mais os equipamentos de estúdio passam a executar múltiplas funções, o resultado disso é que talvez dois ou três periféricos sejam suficientes para um artistas poder fazer suas músicas, barateando de forma considerável o custo de se ter equipamentos. Outro fator que não podemos deixar de considerar foi a entrada efetiva do computador em todos os processos que ocorrem em estúdio a partir dos anos 2000. Uma única máquina que é capaz de gravar, sequenciar, gerar e alterar fontes sonoras era algo impensável nos anos 70, por exemplo.

Mas e hoje, o que podemos esperar de novas tendências dentro do universo dos estúdios? Vale a pena ter um estúdio de proporções milionárias em 2020? É realmente necessário gastar tanto dinheiro em equipamentos antigos e raros que para manter funcionando é uma pequena fortuna? Diante desses e outros questionamentos, decidimos chamar os key players Rick Bonadio, dono do Midas Estudios e responsável por lançar bandas como Mamonas Assassinas e Charlie Brown Jr.; Carlos Pinheiro, dono do Tree Mastering, engenheiro de masterização de artistas como Victor Ruiz e Gui Boratto; Mau Maioli, DJ, produtor musical e co-fundador da Beat On Me; Francesca Lombardo, DJ, produtora e responsável pelo label Lokomotiv Recordings; e Antonio Eudi, co-fundador do Alma Music Group, para responder essa pergunta sobre o extenso e complexo reino que é um estúdio de música.

Rick Bonadio

Posso afirmar, com absoluta certeza, que os grandes estúdios foram substituídos pelos home studios. Graças aos avanços tecnológicos em especial nas últimas duas décadas é completamente possível se tirar um som com qualidade dentro de um home studio. Não vejo menor sentido do porquê se ter um grande estúdio nos dias de hoje para fins de locação, por exemplo. 

Ao invés de pensar em ter um grande estúdio, acho mais válido pensar em se trabalhar com profissionais capacitados e também pensar em um encaminhamento de carreira, de nada adianta gravar uma música e não ter ninguém para ouvi-la.

Carlos Pinheiro

Bem, é uma pergunta bem abrangente e também de opinião subjetiva, dadas a circunstâncias do cenário mundial atual. 

O futuro dos estúdios relacionado à pandemia em si creio que já está se desenhando, tendo em vista que quem tem demanda e mantém o funcionamento está conseguindo respirar e salvar o próprio negócio, mas sabemos que nem para todos a história é assim. Muita gente está fechando as portas, vendendo gears e/ou mudando de área, se adequando aos buracos deste  mercado que a atualidade tem deixado. 

Falando do futuro em questões evolutivas, adaptações de mercado e tecnológicas creio que quem teve jogo de cintura para se adaptar terá ainda mais prosperidade, pois todos fomos tirados da zona de conforto e, novas ideias, metodologias de trabalho, bem como tempo de estudo e profissionalização de quem faz este mercado girar, foram absorvidas.

Com a normalização de eventos e da cena em si pós-vacina estes profissionais estarão com “sangue nos olhos” pra fazer acontecer, bem como os artistas que tem centenas de tracks não testadas e precisarão ser trabalhadas por estes profissionais.

Em termos de tecnologias – digo pela área que atuo, masterização – é um nicho muito específico e o mercado sempre traz inovações como “plugins milagrosos” ou algoritmos que masterizam em segundos de forma automática. Isso pode desbancar estúdios e seus profissionais no futuro? Pode. Acho que isso irá acontecer? Não. 

Música é arte e a partir do momento que um algoritmo, automação ou tecnologia  decidir o que fazer com sua música, ela deixa de ser arte. Em outras palavras, para manter a arte é preciso manter o fator humano e estúdios são uma locomotiva de arte alimentada por humanos talentosos.

Mau Maioli

Na minha percepção, noto que ao longo dos últimos anos as empresas que criam softwares que emulam os hardwares, como Slate Digital, UAD e Arturia – citando algumas das principais – vem mostrando resultados semelhantes senão iguais aos dos equipamentos analógicos. 

Além dessa equiparação, temos outros dois fatores importantes:

  • Preço: sabemos muito bem que qualquer tipo de equipamento analógico – principalmente no Brasil – possui um valor absurdamente elevado, no caso do software, os valores acabam sendo um pouco mais acessíveis. Trago o exemplo da Slate Digital, que custa 15 dólares e você tem as emulações de equalizadores, compressores, saturadores e demais efeitos famosos do mercado.
  • Configuração: bom, aqui está um ponto que o hardware não consegue chegar. Com um plugin de equalizador, por exemplo, você pode predefinir cada frequência de um instrumento e caso queira utilizar as mesmas predefinições, você pode apertar um ctrl c e ctrl v em outro canal e ter o mesmo equalizador trabalhando igualmente. Em conversa com amigos que trabalham com equipamento analógico, eles comentam que, por vezes, até se você ligar e desligar ele, você pode notar diferenças no som, mesmo não mudando as configurações, afinal o analógico depende da voltagem elétrica e até do tempo que está ligado, tudo influencia.

Como é bastante falado, o digital veio para democratizar e creio que ele tem evoluído de tal forma que pode se equiparar e ser utilizado da mesma forma que analógico. Para quem não possui poder de investimento suficiente, não precisa ter medo de não conseguir atingir um alto nível de qualidade final – e, sim, as máquinas sempre terão um papel importante, porém com falta de acessibilidade.

Francesca Lombardo

Essa é uma pergunta complexa e que abre caminho para respostas diferentes, dependendo do campo de atuação do profissional. Entendo que o principal fator que determina o futuro dentro de um estúdio é o avanço tecnológico, são as novas tecnologias que tendem a dizer qual método será o mais utilizado. Nas últimas duas décadas fomos inundados com softwares e equipamentos digitais de baixo custo que possibilitaram a qualquer um aprender a produzir, além da mais nova tendência que são os masterclasses, onde muitos artistas perceberam que poderiam monetizar forma de trabalhar em estúdio. Ser produtor musical era algo impensável se você não tivesse acesso ao conhecimento e equipamentos, que pertenciam ao um grupo bem restrito.  

Hoje, praticamente todos os DJs produzem. O fato de não precisar executar gravações para fazer uma música eletrônica facilita muito para que isso seja um standard entre artistas do estilo, nada mais que um laptop e um fone de ouvido é necessário para se compor uma música. A tecnologia nos trouxe a um momento onde eu posso compor uma música enquanto estou me deslocando de um gig ao outro durante uma turnê. Isso era impossível no passado e pra mim esse caminho tende a se intensificar ainda mais, tornar o estúdio cada vez mais compacto e móvel.  

Antonio Eudi

Acredito que para discorrermos por este assunto seria interessante termos uma breve introdução sobre a convergência digital e a dessacralização da técnica. Esta democratização, segundo a escola alemã, nos presenteou com um fenômeno onde todos podem gerar qualquer tipo de conteúdo, seja música, vídeo, etc., e isso afeta a todas as áreas e todos os mercados. Qual é o resultado disso no nosso mercado, por exemplo? Uma chuva de novos produtores que, com boas ideias e acesso a informação, conseguem resultados incríveis com apenas um computador; e uma outra chuva, desta vez muito maior, com produções medianas e com pouco domínio da técnica. 

O mundo já é digital, o que nos dá a impressão que tudo converge para uma relação online, desde o consumo da música até mesmo à praticidade da  finalização de uma faixa. A pandemia nos ensinou muito, por exemplo: hoje conseguimos transmitir uma sessão de mixagem a 320 kbps e o artista pode ouvir em casa, com seu fone de ouvido, em uma excelente qualidade.

Agora respondendo a sua pergunta: assim como nos shows ao vivo, a produção musical é algo humano e, independente de um estúdio ser grande ou pequeno, a tendência mais uma vez é a procura pelo profissional mais do que pelo estúdio. Ter uma grande estrutura nos tempos de hoje pode parecer preciosismo se considerarmos que de nada adianta um super estúdio com um profissional mediano. As ferramentas estão aí para usarmos da melhor forma, seja em casa ou em uma mega estrutura, por isso acredito que os grandes estúdios jamais deixarão de existir se por trás deles existirem bons profissionais ou até mesmo mais soluções relacionadas ao universo musical. 

Hoje a figura do produtor musical que se adaptou ao mundo digital não é apenas aquela de alguém que apenas produz música; o produtor tem que estar preparado para entender o conceito artístico e também o mercado da música.  Se você ficar limitado somente a entender os equalizadores e plugins ou somente às gravações pode ser que, como profissional, você venha a enfrentar muitas dificuldades financeiras – já que atualmente qualquer um pode tirar um som bom. Ou seja: a figura do produtor musical nos dias de hoje está ligada a “aquele que faz a diferença” seja em casa, ou em um super studio.

A música conecta.