Alataj Web Conference

AWC Preview | O futuro dos estilos musicais

No (não tão) distante ano de 2001, um flyer impresso circulava por São Paulo anunciando a programação do recém inaugurado clube Next. Escalados no line-up da festa de natal estavam os DJs Andy, Camilo Rocha e Jason Bralli. “Drum’n Bass”, “Techno” e “Progressivo” acompanhavam os nomes dos artistas entre parênteses, indicando não só a especialidade de cada um como demonstrando uma diversidade musical que nos dias atuais teria uma convivência pouco provável numa mesma pista, numa mesma noite.

A verdade é que quando a cultura clubber/raver chegou por essas bandas tudo era “Eletrônica” e “Dance Music”, quando não “Techno” (para aqueles que queriam mostrar certa familiaridade) ou “Tum-tis-tum” e “Bate-estaca” (para os que tinham preguiça de se inteirar ou só queriam cutucar). O que é desconhecido sempre carrega um certo desconforto, o que é um terreno fértil para a proliferação de estereótipos e reducionismos. E, sejamos sinceros, não se podia exigir de muita gente àquela época discernir nuances de BPMs e elementos tão característicos e detalhistas (se é que se pode exigir hoje).

Duas décadas depois, a música eletrônica já figura entre os estilos mais ouvidos pelos jovens brasileiros, estando entre os dez ritmos mais populares em várias capitais. Do fim de um século pro início de outro o som das pistas se expandiu como poucos mundo afora. Mais do que territórios físicos, as sonoridades eletrônicas e a cultura de pista se expandiram por toda a cultura Pop. 

Lugares abraçaram aspectos dessa cultura de forma tão intensa que têm subgêneros próprios justamente batizados com seus nomes – Balearic e Italo House, Goa Trance, Detroit Techno ontem; Brazilian Bass, Desert Sound ou Andes Beat hoje. À medida que o tempo passa, épocas também marcam tanto uma onda sonora que suas revisitas se tornaram verdadeiras homenagens: Second Step Garage e Nu Disco são ótimos exemplos do fenômeno.

Dito isso, chegamos hoje num momento oposto àquele mencionado quando abri este texto: muito longe dos primordiais Disco, House, Techno, Trance e Drum’n Bass, hoje encontra-se uma variedade com dezenas de subgêneros musicais (alguns dirão centenas). Dos critérios geográficos e temporais recém mencionados a sofisticação na divisão das músicas atingiu uma observação metódica de elementos, de onde surgem códigos próprios que seriam capazes de criar estéticas muito particulares e únicas.

Sim, poucos estilos musicais – talvez nenhum – possuem um leque tão grande para experimentações e, consequentemente, derivações, como a música eletrônica. O cardápio das BPMs, synths, loops, samples, remixes e todo o universo eletrônico é o mais diversificado e este fato contribuiu decisivamente na popularização em tempos e espaços tão distintos como a Chicago dos anos 70 e a China de hoje. O problema é que quando tudo pode definir um estilo musical, nada pode definir um estilo musical. Categorizações excessivas e uma segmentação infinita de nichos podem trazer mais segregação, elitismo e outras consequências estranhas aos princípios seminais da cultura das pistas – e talvez, exatamente por isso, interessantes para poucos personagens do mercado. 

O “sommelier de estilos musicais” é uma realidade entre nós, com sua eterna disposição de nos lembrar a diferença do Progressivo argentino pro gênero criado na Inglaterra ou de como o Minimal romeno é realmente único. Assim como também é uma realidade a existência de figuras como o Beatport, peça de uma gigante engrenagem que vende músicas e produz alguns dos maiores festivais do mundo, que é capaz de ditar tendências e lançar novos estilos – sua  volúvel dinâmica em torno de novos subgêneros é alvo constante de polêmicas. Fãs radicais de música que levam suas crenças a debates intermináveis e lojas de música ditando tendências podem ser igualmente questionáveis (e sem dúvida alguma, chatos) – mas somente um deles é capaz de lucrar milhões com tantas divisões.

O que esperar, então, do futuro dos estilos musicais? Com a interrupção da rotina das pistas causada pela pandemia e o retorno gradual a elas depois de tanto tempo – em momentos diferentes em cada país – é difícil afirmar o que exatamente podemos prever em termos de novidades de estilos. Mas temos algumas pistas – com o perdão do inevitável trocadilho. 

Certamente o público estará tão ávido por novidades quanto embalado pelo saudosismo. Ouvir os grandes hits que nos transportam a momentos já vividos sob a luz dos estrobos terá um significado ainda mais especial. Releituras das mais óbvias às mais improváveis já são percebidas. Fusões das mais previsíveis às mais surpreendentes devem surgir muito em breve. A arte generativa (criada por sistemas, de algoritmos à inteligência artificial) vem ganhando cada vez mais espaço, e com a explosão das NFTs pode-se esperar faixas, sets (e por que não, estilos?) criados parcial ou integralmente por máquinas. Espaço para reflexões há. Na próxima semana o Alataj Web Conference 2021 reúne diversos webinars e artigos que abordam tanto essas possibilidades futuras como também os desafios do momento atual (as inscrições são gratuitas).

Alheio a todas estas oscilações, modismos e dúvidas, o bom e velho ecletismo seguirá inabalável. A segurança de quem toca preso ao único compromisso com a música que ama, que toca e que emociona – independente de gêneros – seguirá imbatível em qualquer que seja a pista. Afinal de contas, o melhor estilo musical é aquele que funde passado, presente e futuro: atemporal.

A música conecta.