Quanto um artista ganha com a criação de músicas? Traçamos uma linha do tempo

A valorização do trabalho artístico é uma questão complexa há muito mais tempo do que você provavelmente imagina. Desde a Grécia antiga era preciso que figuras proeminentes sustentassem aqueles que se dedicavam às artes (Péricles foi um notável financiador cultural cerca de 500 a.C) e foi em Roma que os patronos dos criativos ganharam nome próprio: Caius Mecenas, morto oito anos antes do nascimento de Jesus, batizou aqueles que bancam a produção dos artistas desde então.

O caminho dos profissionais que fazem da arte sua atividade profissional foi quase sempre tortuoso: se a cultura está há muito tempo diretamente ligada a status, monarcas e nobres, foi só muito recentemente (há não menos de 50 anos) que a humanidade viu seus primeiros artistas entre as personalidades mais ricas – e não apenas prestigiadas. 

No caso dos músicos, a rota é ainda mais intrincada: quase 200 anos depois das composição musical ser considerada uma obra com valor monetário ao seu proprietário, no exato momento em que a venda de músicas atingiu seu ápice no mundo, mudanças tecnológicas revolucionaram o consumo de tal forma que a queda na arrecadação foi um tombo de proporções inimagináveis. Apresentações ao vivo se tornaram parte tão ou mais importante da carreira profissional de quem enfrenta o desafio de viver da sua arte.

O ano de 1999 é considerado chave nessa história: a indústria fonográfica teve seu lucro máximo batendo a casa dos 15 milhões de dólares nos Estados Unidos, enquanto na Coréia do Sul a Samsung lançava o primeiro aparelho celular capaz de tocar músicas em formato MP3. O que era a semente de uma revolução tecnológica que parecia impulsionar ainda mais um setor em plena ascensão trouxe na realidade o efeito inverso: os novos formatos e meios de reproduzir músicas democratizaram o acesso em níveis tão grandes quanto foram capazes de derrubar o faturamento que, dez anos depois, já tinha caído pela metade. Os anos 00 são considerados “a década perdida” da indústria musical, realidade que se manteve por boa parte dos anos 10.

Hoje o cenário é um pouco melhor, mas não menos complicado: desde 2016 o faturamento com venda de músicas vem aumentando, graças aos valores das assinatura de serviços de streaming e à possibilidade de monetização via publicidade que algumas destas plataformas oferecem. Isso não significa, entretanto, que os artistas estejam recebendo mais por seus trabalhos ou que muitos possam viver das próprias obras. Uma das frases mais repetidas pelos músicos (ainda) é a de que é muito difícil entender como eles podem monetizar suas obras nos dias de hoje, já que shows, patrocínios e merchandising já respondem por uma fatia muito maior do que aquela correspondente à venda/play de uma música.

Traçamos uma linha do tempo com recortes de alguns dos principais momentos da conflituosa relação entre os músicos e a remuneração por suas criações.

As bases: Centavos de dólares

O caminho dos profissionais que fazem da arte sua atividade profissional foi quase sempre tortuoso

1710 Primeira lei de direitos autorais que se tem notícia no mundo é promulgada na Inglaterra, o “Estatuto da Rainha Ana”

1831 A lei Federal do Direito Autoral norte-americana inclui músicas como objetos de direito autoral

1850 - 1915 Primeiras associações de músicos e compositores são criadas nos Estados Unidos e na Europa ocidental

1877 Invenção do fonógrafo por Thomas Edison, primeiro aparelho capaz de gravar e reproduzir músicas

1888 Invenção do Gramofone por Emile Berliner, que logo em seguida começa a produzir os discos

1892 Partitura de After The Ball vende 2 milhões de cópias e se torna o primeiro hit musical de proporções mundiais. A venda total chegaria a mais de 5 milhões de partituras, maior da história da associação de músicos de NY. Chas Harris, seu autor, ganhava centavos de dólar pelas composições antes desta.

A música começa a se tornar um negócio – Porcentagens mínimas: quando 10% sobre a arrecadação de uma música era muito e para muito poucos

Foi só muito recentemente (há não menos de 50 anos) que a humanidade viu seus primeiros artistas entre personalidades mais ricas

1903 Victor Machine Company produz vitrolas e discos em série e hábito de ouvir música reproduzida em um aparelho se dissemina no mundo. Maioria dos músicos é filiado às associações, que pagam porcentagens mínimas a eles

1920 Primeiras rádios comerciais inauguram a “era dourada” do rádio nos EUA, período fundamental na popularização da música: nascem as primeiras gravadoras, as estrelas musicais pioneiras e diferentes estilos musicais começam a se expandir além dos territórios onde foram criados. Artistas começam a negociar com  as gravadoras, ainda recebendo percentuais baixos

1938 Criada a Associação Brasileira de Compositores e Autores, atual UBC (União Brasileira de Compositores)

1944 Episódio de convulsão social Columbus Day Riot faz de Frank Sinatra a primeira estrela da música Pop. Como tal, ele era um dos poucos músicos a ganhar quase 10% sobre o faturamento de suas músicas

1956 Gravadoras norte-americanas Sun Records e Peeples Music reclamam simultaneamente autoria dos direitos de Blue Suede Shoes, faixa de Carl Perkins eternizada por Elvis Presley. Brigas pelos direitos autorais começam a se tornar comuns

O nascimento de uma indústria mundial – Contratos com adiantamento e os primeiros milhões

1999 é um ano chave nessa história: a indústria fonográfica teve seu lucro máximo batendo a casa dos 15 milhões de dólares nos Estados Unidos

1960-1970 A combinação rádio e TV faz dos músicos as novas grandes estrelas do showbiz, começando a concorrer com os astros do cinema. Gravadoras já antecipam valores aos artistas prevendo lucros com as vendas

1973 Criação do ECAD no Brasil

1982 Criada a Abramus (Associação Brasileira de Música e Artes)

1986 Venda dos CDs supera a venda dos discos de Vinil pela 1ª vez

1990 MTV impulsiona definitivamente os músicos, que começam a ganhar milhões. Shows se tornam parte tão importante do lucro dos músicos como a venda das músicas

1999 Faturamento de 14,6 bilhões de dólares é o maior na história da indústria musical norte-americana

Ascensão e queda – Estrelas chegam ao grupo dos bilionários enquanto a indústria sofre perdas  de milhões

Os anos 00 são considerados “a década perdida” da indústria musical, realidade que se manteve por boa parte dos anos 10

2011 Download se torna formato musical mais vendido no mundo, superando CDs. Primeiro iPod é lançado

2014 Contratos 360 surgem como alternativa para os artistas de maior sucesso: percentuais sobre bilheteria de shows, merchandising, contratos de patrocínio e faturamento com músicas são entrelaçados em grandes contratos com anos de duração

2015 Streaming supera os downloads como formato musical que mais arrecada na indústria

2019 Faturamento da indústria musical nos EUA fecha ano em 11 bilhões de dólares:

– Vinil vende mais do que CDs pela primeira vez desde 1986

– Downloads ficam abaixo das vendas físicas

– Jay-Z se torna primeiro rapper bilionário

– No Brasil, ECAD informa que distribuiu quase 1 bilhão de reais para quase 400 mil titulares de obras, recorde histórico.

Hoje e amanhã – Por que viver somente de música ainda é (quase) impossível

Artistas que surgem e explodem nas redes sociais, conteúdos pensados para os smartphones, plataformas de streaming arrecadando mais do que a TV: o cenário musical sempre se adaptou com grande facilidade à tecnologia – em boa parte está diretamente relacionado a ela – e hoje não é diferente. Entretanto, uma coisa que permanece praticamente inalterada às mudanças é a mesma pergunta que um músico do final do século 19 se fazia: como ganhar dinheiro com a própria música?

A verdade é que se não existe uma única resposta a essa indagação, praticamente todas as possíveis soluções para o problema passam por uma abordagem profissional e técnica da obra de arte. A área da produção musical voltada exclusivamente para trilhas – de publicidade, TV, filmes e games – é um dos territórios mais férteis quando se trata de monetizar música. Se isso representa uma espécie de limitação à criatividade, entregar trabalhos que se encaixem com perfeição a um pedido do cliente pode ser um desafio instigante. Além de exigir um elevado conhecimento de ferramentas de produção, e na maioria das vezes, muita bagagem.

Já no campo da produção autoral de cunho artístico, no qual o processo de vazão criativa espontânea é o que move o músico e sua obra, o caminho para a monetização é inseparável de um planejamento e uma conduta profissional que exigem uma dedicação intensa para quando a música sair dos limites do estúdio. É trabalho muito árduo produzir a obra musical, planejar seu lançamento e comercialização, gerenciar uma carreira que tenha agenda cheia de apresentações e uma comunicação eficiente. Tão árduo que é impossível que o artista faça tudo sozinho; e aí entram os managers, assessores, relações públicas, comunicadores, videomakers e empresários. O autoconhecimento também é imprescindível: saber qual lugar o artista e sua obra realmente ocupam e querem ocupar numa indústria altamente competitiva e cheia de armadilhas para o ego é um exercício que exige muito desprendimento, humildade e honestidade consigo mesmo.

O fato é que somente a música não é suficiente para gerar uma renda com a qual o artista possa sobreviver. A imagem abaixo mostra em detalhes quantas vezes uma música precisa ser tocada em cada plataforma de streaming hoje para que um artista ganhe o equivalente a um salário mínimo em vários países. Uma faixa precisa ter o play de centenas de milhares a milhões de vezes para garantir uma renda ao seu criador. 

imagem: Broadbandchoices.co.uk

Os centavos de dólar que os primeiros produtores a lucrar com suas próprias músicas ganhavam há quase 120 anos ainda são a realidade da maioria dos artistas que vendem suas obras. A grande diferença é que os caminhos para que uma carreira musical decole eram praticamente inexistentes. Hoje, são muitos. Extremamente difíceis, mas muitos.

A música conecta.